Foto: Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulo

O Cavalo Crioulo, aquele símbolo que atravessa porteiras, charqueadas e pistas de rodeio, não se limita mais ao chimarrão, ao sul, ou à brisa fria da campanha gaúcha. A nova fotografia econômica da raça, divulgada pela Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Crioulos (ABCCC) em parceria com a Esalq/USP, mostra outra cena: um animal que virou negócio gigante — R$ 5,36 bilhões ao ano. Dinheiro vivo circulando. Dinheiro que muda paisagem de cidades, mantém cuidadores, ergue selarias, gera carreiros de emprego.

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O estudo detalha que esse valor inclui não só a compra e venda de animais, mas um universo que vai de remédios veterinários a turismo rural, de ração premium às provas esportivas que inflamam arquibancadas. Ferraduras batem no chão. E o mercado vai longe. Aliás, o chamado Complexo do Cavalo Crioulo engloba até indumentárias, serviços, comércio artesanal — tudo isso movendo economia real, de verdade. Além disso, o país conta hoje com 508.080 animais registrados, cada um deles responsável por R$ 10.549,93 ao ano. Um cavalo, um PIB.

Geração de empregos

Há mais: o Crioulo emprega. Gera 31,3 mil vagas diretas e mais de 130 mil indiretas. Põe comida na mesa de mais de 160 mil famílias. A raça pulsa. “Esses dados nos trazem uma radiografia setorial essencial para fundamentar nossos planos de expansão. O cavalo é mais do que uma paixão do Sul do Brasil ou uma ferramenta de trabalho no campo. Hoje, é a base de empresas lucrativas, ferramenta para tratamento de saúde mental, sem falar no mundo do esporte”, disse o presidente da ABCCC, André Rosa. Ele assumiu o comando no último dia 1º e quer acelerar competições pelo país. O antecessor, César Hax, abriu caminho; Rosa promete engrenar a marcha nos próximos dois anos.

Cavalo Crioulo avança com o esporte

As pistas explicam muito. Três de cada quatro criatórios do país têm foco esportivo — 75%. A modalidade estrela segue sendo o Freio de Ouro e a Morfologia, mas Laço Comprido e Doma de Ouro, essas sim, puxam o público, arrastam caminhadas de trailer pelas estradas. Poeira sobe. Corda estica. A segunda principal destinação da raça ainda é o trabalho de campo (22,56%), mas o esporte virou a porta de entrada. Não por acaso. “O esporte é a mola de expansão das criações nos estados do Sudeste e Centro-Oeste. A raça é muito adaptada para uso em rodeios e acreditamos em um avanço consistente nos próximos anos”, afirmou Gérson de Medeiros, gerente de expansão da ABCCC. Ele opera, de São Paulo, a expansão para a chamada Região 8 — Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste. O plano? Chegar a 2026 com 15% mais provas nesses territórios.

Nem tudo, porém, é simples de mapear. A equideocultura brasileira, como explica o pesquisador da Esalq/USP Roberto Arruda de Souza Lima, não funciona como cadeia industrial clássica. São várias engrenagens soltas, um organismo. Por isso os dados são fragmentados, raros — quase como rastrear cavalo ao luar. Segundo ele, apesar de sustentarem negócios e mão de obra, os equídeos ainda não são vistos como animais de produção em muitos levantamentos oficiais. A pesquisa também mediu o perfil das propriedades criadoras: fazendas com média de 440 hectares, das quais 92 são reservados às tropas. Quem cria, geralmente planta e cria também — 64,95% têm agricultura como atividade principal; 22,45%, pecuária.

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Sul, o berço do Crioulo

Foto: Divulgação/Fagner Almeida

No mapa, o sul domina. O Rio Grande do Sul concentra 80% de tudo — renda e animais. São R$ 4,28 bilhões e 412 mil cavalos. O estado, berço histórico da raça, mantém hegemonia em cada mancha do mapa, dos 497 municípios ao pampa fronteiriço. Em seguida aparecem Santa Catarina, com 33,7 mil animais, e o Paraná, com 31,8 mil. O centro do país ainda engatinha, mas cresce.

“O Rio Grande do Sul segue como berço da raça e como uma região com expressão de criatórios e qualidade genética. A força do cavalo Crioulo ecoa por todos os 497 municípios gaúchos, garantindo pulverização de renda e emprego. Os dados também mostram um grande potencial de expansão de uso desse animal no resto do Brasil. Não há limites para as manadas de Crioulos no Brasil e no mundo”, reforçou André Rosa, recém-chegado de uma agenda internacional da raça na Itália.

A cena futura parece quase premeditada. Campo e pista se cruzam. Dinheiro entra. Ferraduras brilham. A raça, que antes era sinônimo de tradição, agora lateja como indústria — ainda que com passos firmes, quase como quem sente o chão antes de galopar.