A perda de Prometeus gerou grande controvérsia científica
Foto: James R Bouldin via Wikimedia Commons

No verão de 1964, o estudante de pós-graduação Donald R. Currey cometeu um erro que entraria para a história da ciência como um dos mais lamentáveis: ele derrubou Prometeus, um pinheiro bristlecone que sobreviveu por aproximadamente 4.900 anos no que hoje conhecemos como Parque Nacional da Grande Bacia, em Nevada.

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Currey, formado em Geografia, nunca tinha ouvido falar dos pinheiros bristlecone antes da pós-graduação. Sua mãe mudou isso ao enviar-lhe um artigo da National Geographic escrito por Edmund Schulman, o pesquisador que ficou famoso por coletar amostras do pinheiro bristlecone Matusalém – possivelmente a árvore não clonal mais antiga do mundo atualmente.

O jovem cientista percebeu que essas árvores milenares poderiam ajudar sua pesquisa sobre características glaciais localizadas abaixo do Pico Wheeler, na Grande Bacia. Os anéis de crescimento dos pinheiros funcionam como registros climáticos históricos, revelando informações valiosas sobre o comportamento das geleiras ao longo dos milênios.

Por que os pinheiros bristlecone vivem tanto

Os pinheiros bristlecone se destacam entre as árvores mais resistentes do planeta. Eles crescem lentamente e desenvolvem madeira extremamente densa, que os protege das adversidades climáticas, insetos e fungos. Sua aparência retorcida e característica resulta justamente dessa longevidade extraordinária.

Foto: Donna Elliot/Unsplash

Uma espécie específica, o pinheiro bristlecone da Grande Bacia (Pinus longaeva), pode viver milhares de anos. Essas árvores testemunharam a ascensão e queda de civilizações inteiras.

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O dia em que tudo deu errado

Currey obteve permissão do Serviço Florestal dos EUA para extrair amostras de um grupo de pinheiros bristlecone, incluindo Prometeus, uma árvore que os montanhistas locais já conheciam bem. Para coletar os dados dos anéis de crescimento, os cientistas usam um trado que extrai um cilindro de madeira do tamanho de um lápis, chamado amostra de núcleo.

O problema surgiu quando Currey tentou extrair a amostra de Prometeus. Seu trado ficou preso na madeira densíssima da árvore antiga. Todas as tentativas de recuperar o equipamento falharam.

Desesperado, Currey procurou um lenhador do Serviço Florestal. Em vez de ajudá-lo a desengatar a ferramenta, o funcionário sugeriu simplesmente derrubar a árvore. E assim fizeram.

A descoberta devastadora

Apenas depois que a árvore caiu no chão, a magnitude da tragédia começou a se revelar. Ao contar os anéis de crescimento, Currey descobriu que Prometeus tinha aproximadamente 4.900 anos. O que a tornava, naquele momento, a árvore individual mais antiga já registrada pela ciência.

Árvores clonais, como Pando, colônias geneticamente idênticas conectadas por um sistema radicular único, podem ser mais antigas. Mas como organismo individual, Prometeus reinava suprema.

O legado de uma perda irreparável

O incidente gerou controvérsia imediata e provocou debates profundos sobre a ética na pesquisa científica e a preservação de espécies raras e antigas. Embora Currey não tivesse intenção de destruir a árvore, a morte de Prometeus evidenciou a necessidade urgente de cautela extrema e regulamentações mais rígidas ao estudar organismos vivos tão veneráveis.

Hoje, os restos de Prometeus ficam em exibição no Centro de Visitantes do Parque Nacional da Grande Bacia. A árvore morta conta sua história silenciosa aos visitantes, servindo como lembrete poderoso e trágico das consequências não intencionais que surgem quando humanos interagem sem o devido cuidado com o mundo natural. Especialmente quando mexem com gigantes milenares que sobreviveram a tudo, menos a nós.