Petróleo cru foi localizado a apenas 40 metros de profundidade em Tabuleiro do Norte, situação considerada incomum por especialistas
Agricultor descobriu poço de petróleo no quintal de casa, após busca por água (Foto: Marcelo Andrade/IFCE)

A descoberta de petróleo cru em um sítio no interior do Ceará surpreendeu técnicos da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e movimentou a região de Tabuleiro do Norte, no Vale do Jaguaribe. O caso ganhou repercussão após a confirmação oficial da agência, divulgada na última quarta-feira (20), de que o líquido encontrado pelo agricultor Sidrônio Moreira é realmente petróleo.

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O detalhe que mais chamou atenção dos especialistas foi a profundidade em que a substância apareceu: cerca de 40 metros, considerada extremamente rasa para padrões geológicos ligados à exploração petrolífera.

A descoberta ocorreu ainda em 2024, quando Sidrônio perfurava o solo em busca de água para abastecer a família, que não possui água encanada na propriedade rural. No entanto, no lugar da água, um líquido preto, viscoso e com forte cheiro de combustível começou a jorrar do poço.

ANP admite surpresa com descoberta em área rasa

A propriedade fica próxima à Bacia Potiguar, região localizada entre Ceará e Rio Grande do Norte onde já existem operações de exploração de petróleo em terra.

Apesar disso, os técnicos da ANP afirmaram que o caso foge do padrão normalmente observado no setor. A família comunicou a descoberta à agência em julho de 2025, porém a vistoria técnica ocorreu apenas em março de 2026, após a divulgação do caso pela imprensa.

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Durante a visita ao sítio, especialistas explicaram que o petróleo costuma ser encontrado em profundidades muito maiores.

“Existe o processo de exsudação, que é quando o petróleo ou hidrocarboneto como um todo vai à superfície de maneira natural. Mas não é o caso, claramente, aqui. Houve uma perfuração rasa, uma profundidade muito abaixo do que é naturalmente realizado na exploração e produção de petróleo e gás”, afirmou Ildeson Prates Bastos, superintendente da ANP.

O especialista destacou ainda que a situação causou espanto na equipe técnica.

“Isso nos causou um pouco de espanto, mas considerando a área e a geologia da região, sendo uma borda de bacia, a gente pretende dar continuidade aos estudos para entender melhor o que pode ter acontecido”, completou.

Pouco menos de dois meses após a vistoria, a ANP confirmou oficialmente que o material encontrado no terreno é petróleo cru.

Família sonha com retorno financeiro

Mesmo sabendo que o processo ainda será longo, a família mantém a expectativa de que a área possa ser explorada comercialmente no futuro.

Ao g1, Saullo Moreira, filho de Sidrônio, explicou que, até o momento, a descoberta trouxe apenas custos e movimentações relacionadas às análises.

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“Por enquanto, tudo o que tivemos foram custos e movimentações relacionadas à descoberta. Nossa esperança é que, se tudo avançar positivamente no futuro, possamos ter algum retorno que nos ajude financeiramente”, afirmou.

Sidrônio também comemorou a confirmação da ANP.

“Já vinha esperando, eles tinham dito que eu esperasse que vinha notícia boa e eu tava esperando pela notícia. Vamos esperar o primeiro passo, que tudo corra em paz e isso saia logo”, declarou à TV Verdes Mares.

Apesar da descoberta ter ocorrido dentro da propriedade da família, a Constituição Federal determina que o petróleo e os recursos minerais pertencem à União. Isso significa que Sidrônio não poderá vender o petróleo por conta própria.

Ainda assim, a legislação brasileira prevê compensações financeiras para proprietários de áreas exploradas comercialmente. Dependendo das condições técnicas e econômicas do projeto, o percentual pode chegar a até 1% sobre a produção.

Área pode entrar em futuros leilões de exploração

Agora, a ANP iniciará uma nova etapa de estudos técnicos para avaliar o tamanho da jazida, a qualidade do petróleo e a viabilidade econômica da exploração.

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Caso os resultados sejam positivos, a região poderá ser incluída nos chamados blocos de exploração, áreas que são leiloadas para empresas interessadas em operar campos petrolíferos.

Mesmo assim, o processo ainda pode levar anos. Além dos estudos geológicos, será necessário passar por licenças ambientais, avaliações econômicas e possíveis leilões públicos.

Amostra coletada pelo IFCE foi analisada pela ANP, confirmando tratar-se de óleo cru (Foto: Ícaro Dias/IFCE)

Em nota, a ANP informou que abriu um processo administrativo para analisar o contexto geológico da área e estudar a eventual inclusão do local na Oferta Permanente de Concessão, principal modalidade de licitação para exploração de petróleo e gás no país.

Descoberta aconteceu por acaso durante busca por água

A descoberta ocorreu de forma totalmente inesperada. Em novembro de 2024, Sidrônio contratou uma equipe para perfurar um poço artesiano no sítio, localizado a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza.

A intenção era encontrar água para abastecimento doméstico. Porém, durante a perfuração, um líquido escuro começou a emergir do solo.

Inicialmente, o agricultor chegou a comemorar acreditando que havia encontrado água. Somente semanas depois, após análises preliminares do Instituto Federal do Ceará (IFCE), surgiu a suspeita de que o material poderia ser petróleo.

IFCE e ANP confirmam achado de petróleo em Tabuleiro do Norte (CE) — Foto: Marcelo Andrade/IFCE

Os testes laboratoriais apontaram que a substância apresentava características físico-químicas semelhantes às jazidas da região potiguar. A confirmação oficial, entretanto, dependia da análise da ANP.

Enquanto aguardava os resultados, a família continuou enfrentando dificuldades no acesso à água. Após a repercussão do caso, uma antiga adutora voltou a abastecer a propriedade rural.

Exploração ainda depende de viabilidade econômica

Especialistas lembram que encontrar petróleo não significa, necessariamente, que haverá exploração comercial.

Segundo o engenheiro Adriano Lima, fatores como tamanho da reserva, qualidade do óleo, custos operacionais e impactos ambientais influenciam diretamente na decisão das empresas.

“O custo de se montar uma unidade de produção numa região tem que ser equivalente ao retorno que a operação vai ter”, explicou.

Ele acrescenta que algumas áreas liberadas pela ANP acabam sem interessados justamente por não apresentarem retorno financeiro viável.

“O retorno tem que estar relacionado à qualidade do óleo que ele vai extrair e à quantidade, à duração, o tempo que ele vai conseguir produzir”, concluiu.