Resumo da notícia
- A safra 2026/27 enfrentará um El Niño muito forte, com pico entre novembro e janeiro, aumentando riscos climáticos para o plantio e desenvolvimento das lavouras no Brasil.
- O atraso no plantio da soja, especialmente no Centro-Oeste, Norte e Matopiba, pode comprometer também o calendário do milho e afetar outras culturas como café, citros e cana-de-açúcar.
- O aquecimento global tem intensificado a frequência e força dos episódios de El Niño, elevando a probabilidade de eventos climáticos extremos e impactos diferentes em cada região do país.
Na safra 2026/27, agricultores brasileiros devem enfrentar um El Niño de intensidade muito elevada — um dos mais fortes já vistos, na verdade. A previsão considera os fenômenos registrados desde 1950 e aumenta a preocupação com o clima durante o período de plantio e desenvolvimento das lavouras.
O último episódio classificado como “muito forte” ocorreu na safra 2015/16. Na ocasião, 16 culturas diferentes registraram perdas de produtividade.
O fenômeno começou em junho de 2026 e está evoluindo rapidamente. A expectativa é que o pico ocorra entre novembro e janeiro de 2027, embora ainda não exista uma previsão exata para o fim do evento.
- Congresso do Agro terá Alckmin, Michel Temer e propostas para o próximo governo
- El Niño forte pode levar 49 milhões à fome aguda
El Niño pode atrasar o plantio da soja
Um dos principais pontos de atenção está no calendário da soja, especialmente nas regiões Centro-Oeste, Norte e no Matopiba.
Especialistas avaliam que a combinação de pouca chuva e temperaturas elevadas pode atrasar o início da semeadura. Caso isso aconteça, o calendário do milho, normalmente plantado entre fevereiro e março, também poderá ser afetado.
Além disso, o risco existe também para outras culturas. Café e citros podem enfrentar dificuldades durante a floração, enquanto a cana-de-açúcar pode ser beneficiada por um aumento das precipitações no Sudeste.
Segundo Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o aquecimento global tem contribuído para uma maior frequência e intensidade dos episódios de El Niño.
O especialista destaca que, nas últimas décadas, houve mais ocorrências do fenômeno e episódios de maior intensidade.
O que é o Niño 3.4?
O Niño 3.4 é uma região do Oceano Pacífico utilizada pelos meteorologistas como uma das principais referências para medir a intensidade do El Niño e da La Niña.
Ela fica entre 5 graus ao norte e 5 graus ao sul da linha do Equador, entre os meridianos 170° e 120° a oeste.
Na última atualização mencionada no material-base, a temperatura na região chegou a 1,3 °C, nível associado a um El Niño moderado naquele momento.

Para a agrometeorologista Ana Maria Heuminski de Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, a velocidade de aquecimento do Pacífico aumentou a expectativa de um fenômeno mais intenso.
Ela ressalta, porém, que um El Niño mais forte aumenta a probabilidade de eventos extremos, mas não significa que todas as regiões brasileiras serão afetadas da mesma maneira.
Soja concentra uma das maiores preocupações
A soja está entre as culturas que mais preocupam os especialistas por causa da possibilidade de alterações no calendário agrícola.
Eduardo Martins, diretor do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), considera que os danos podem ser maiores caso a falta de chuva se intensifique em áreas mais vulneráveis.
“Se a falta de chuva for ampliada, pegar o Matopiba [confluência entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que é mais exposto ao clima, tem solos mais arenosos, e o Centro-Oeste, há possibilidade de 20% de perda a nível nacional, pegando a safra 2015/16 como base”, estima Martins, que foi presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no governo Fernando Henrique Cardoso.
Chuvas podem beneficiar o Sul
Os efeitos do El Niño não serão iguais em todo o território brasileiro.
No Sul do Brasil, o fenômeno costuma estar associado a volumes de chuva acima da média. Por isso, a preocupação durante a implantação das lavouras de verão é justamente o excesso de precipitação.
Para Ana Maria Heuminski de Ávila, do Cepagri, a chuva pode até favorecer a produtividade de soja e milho no Rio Grande do Sul, desde que não seja excessiva.
O excesso de precipitação, como observado em 2024, pode provocar problemas para as lavouras.
Manejo do solo é uma das estratégias
Diante de um cenário de maior variabilidade climática, o planejamento passa a ter papel importante na preparação das propriedades.
O seguro rural é, sem dúvidas, uma ferramenta que pode ajudar os produtores a enfrentar possíveis perdas. No entanto, outra estratégia está relacionada ao manejo do solo.
Marco Antonio dos Santos, agrometeorologista da Rural Clima, destaca a importância de manter uma boa cobertura vegetal e uma estrutura adequada do solo.
“Ele (produtor) tem que primeiro fazer o que a gente chama de lição de casa: manter uma boa palhada, o solo com uma boa cobertura vegetal, com boa estrutura química e física, para que, quando chover, a água consiga penetrar em todo o solo e formar uma camada maior de água.”
Assim, diante da possibilidade de um El Niño intenso na safra 2026/27, produtores precisam considerar não apenas o calendário de plantio, mas também o manejo do solo, o planejamento da propriedade e mecanismos de proteção contra perdas.
O impacto, porém, dependerá da intensidade do fenômeno e, principalmente, de como chuva e temperatura vão se comportar em cada região produtora do país.
Siga o canal do Agro em Campo no WhatsApp clicando nesse link e saiba tudo primeiro.