A crescente entrada de alho importado no mercado brasileiro tem pressionado os produtores nacionais e levado à redução dos investimentos na cultura. Diante desse cenário, representantes do setor pretendem solicitar ao governo federal a adoção de medidas para restringir as importações oriundas da China e da Argentina, países que, segundo produtores, comercializam o produto no Brasil por valores inferiores aos custos de produção nacionais.
De acordo com a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa), a situação já afeta diretamente o planejamento da próxima safra. Como consequência, os agricultores projetam uma redução de 21% na área plantada, que deverá cair para aproximadamente 11 mil hectares neste ano.
Setor pede revisão das regras para importação
Nesta semana, a Anapa deverá apresentar ao Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex) um pedido para extinguir o compromisso de preço atualmente aplicado ao alho chinês exportado por quatro grandes empresas do país asiático.
As companhias Shandong Trans-High Imp & Exp Co. Ltd., Jining Foreign Trading Co. Ltd., Jining Freen Agri-Produces Co. Ltd. e Shandong Goodfarmer International Trading Co. Ltd. operam com preço mínimo fixado em US$ 15,80 por caixa de 10 quilos. Para os demais exportadores chineses, permanece em vigor uma tarifa antidumping de US$ 7,80 por caixa.
Segundo Rafael Corsino, presidente da Anapa, a medida tem prejudicado a competitividade da produção nacional.
“O nosso custo de produção é de US$ 25 por caixa. Esse compromisso de preço desestimulou o plantio no Brasil”, afirma.
Além disso, a entidade pretende solicitar que a sobretaxa antidumping seja aplicada a todas as importações de alho provenientes da China.
Alho argentino também entra na mira
Paralelamente, a Anapa deve protocolar ainda em junho um pedido para abertura de investigação antidumping sobre o alho argentino.
Segundo Corsino, os valores praticados pelo país vizinho indicariam concorrência desleal. “A Argentina exporta o alho abaixo do custo de produção. O custo na Argentina é de US$ 18 por caixa e o alho chegou no Brasil a US$ 12,50”, diz.
Além disso, a associação sustenta que a Argentina teria realizado subfaturamento das exportações destinadas ao Brasil ao longo dos últimos seis anos.
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Produção nacional não atende toda a demanda
O mercado brasileiro consome cerca de 320 mil toneladas de alho por ano, enquanto a produção nacional alcança aproximadamente 170 mil toneladas, segundo dados da Anapa.
A maior parte da produção está concentrada em Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Até o ano passado, cerca de 60% do alho importado tinha origem na Argentina, enquanto 36% vinham da China.
Por outro lado, os números mais recentes mostram mudanças importantes nesse fluxo comercial.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) indicam que as importações de alho somaram 62,4 mil toneladas entre janeiro e abril, volume 5,4% menor que o registrado no mesmo período de 2025.
Em valor, a retração foi ainda maior. As compras externas totalizaram US$ 77 milhões, queda de 15,9%, o equivalente a uma média de US$ 12,34 por caixa.
Argentina amplia participação no mercado brasileiro
Apesar da redução geral nas importações, a participação da Argentina cresceu significativamente.
Entre janeiro e abril, 92,7% do alho importado veio do país vizinho, enquanto apenas 5,6% teve origem chinesa.
As importações da China recuaram 82,3%, totalizando 19,9 mil toneladas. Em contrapartida, as compras da Argentina avançaram 26,7%, alcançando 45,7 mil toneladas no período.
Para os produtores brasileiros, esse aumento tem provocado perdas financeiras expressivas.
“Esse aumento da importação culminou em prejuízo de R$ 5,50 por quilo vendido. O antidumping é necessário já”, defende Franchielli Motter, presidente da Associação dos Produtores de Alho do Rio Grande do Sul.
Segundo ela, a área cultivada no estado deverá cair de 850 hectares para 750 hectares em 2026.
Agricultores reduzem investimentos diante dos prejuízos
No Sul do Brasil, a colheita do alho plantado entre junho e julho ocorre no final do ano. Posteriormente, a comercialização acontece no primeiro semestre, período em que a concorrência com o alho argentino é mais intensa.
Já os produtores do Sudeste e do Centro-Oeste abastecem o mercado no segundo semestre, enfrentando principalmente a concorrência do alho chinês.
Em São Marcos (RS), o produtor Jaime Menegon decidiu reduzir drasticamente sua área cultivada.
“Tive prejuízo de R$ 5 por quilo. Já vi várias crises, mas nunca como esta”, lamenta.
Após cultivar 14 hectares em 2025, ele pretende plantar apenas 4 hectares neste ano. Além disso, planeja concentrar a produção em terras próprias e devolver áreas arrendadas.
Situação semelhante ocorre em Curitibanos (SC). O produtor Everson Tagliari afirma que precisou vender sua última safra abaixo dos custos de produção.
“Um hectare de alho custa de R$ 120 mil a R$ 130 mil para ser produzido. Tivemos R$ 80 mil de receita por hectare”, conta.
Diante desse cenário, ele reduzirá sua área de cultivo de 10 hectares para 4 hectares. Nos demais 6 hectares, pretende implantar pastagens e arrendar as áreas para pecuaristas.
Santa Catarina prevê nova retração
A Associação Catarinense dos Produtores de Alho estima que a área cultivada no estado recuará de 850 hectares em 2025 para 700 hectares neste ano.
Segundo Tagliari, medidas de proteção comercial tornaram-se essenciais para garantir a viabilidade econômica da atividade.
“O antidumping sobre o alho da Argentina é vital para nós. Também é importante que derrubem o compromisso de preço com o alho chinês. Sobra produto no mercado, é uma situação alarmante para o produtor”, afirma.









