Resumo da notícia
- O cultivo de cacau avança para novas regiões do Nordeste e Cerrado, como Ceará, Piauí, Alagoas e Oeste da Bahia, diversificando além dos polos tradicionais do sul da Bahia e Amazônia.
- Produtores adotam técnicas adaptadas, como cultivo a pleno sol e irrigação, para superar desafios climáticos e ambientais nas novas áreas de cultivo.
- Projetos em Piauí e Oeste da Bahia promovem sistemas agroflorestais e expansão da produção, com apoio de universidades e políticas públicas para viabilizar o investimento.
O cacau avança para novas áreas do Nordeste e do Cerrado, além dos tradicionais polos do sul da Bahia e da Amazônia. Ceará, Piauí, Alagoas, Sergipe, Oeste da Bahia e Vale do São Francisco já registram experiências com a cultura.
Segundo o professor George Sodré, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), as novas áreas ainda são incipientes, mas mostram que a cultura pode se adaptar a diferentes ambientes.
“A cacauicultura está espalhada. Cada região tem uma história de por que o cacau chegou lá, os aspectos de qualidade, produção e produtividade, as limitações e as potencialidades”, afirma.
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Cultivo exige adaptação
No sul da Bahia, o cacau tradicionalmente cresce no sistema cabruca, sob a Mata Atlântica. Nas novas áreas, porém, produtores adotam principalmente o cultivo a pleno sol, associado à irrigação e a técnicas específicas de manejo.
O pesquisador Maurício Coelho, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, explica que o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), publicado em 2019, ampliou as possibilidades de acesso a crédito, Proagro e seguro agrícola para o cultivo fora das zonas tradicionais.
“Viabilizou o investimento nessas áreas fora das áreas tradicionais com irrigação”, explica.
Além disso, o cacaueiro é sensível à falta de água, ao vento, à radiação solar e às temperaturas elevadas. Por isso, cada região precisa de um sistema de produção adequado às condições locais.
Ceará e Piauí ampliam cultivo
No Ceará, experiências iniciadas há décadas ganharam escala. Segundo Sodré, o Estado caminha para uma área de 800 a 1.000 hectares de cacau.
Os produtores também testam a integração da cultura com o coco e desenvolvem atividades relacionadas à produção de chocolate.
No Piauí, pesquisadores testaram 11 linhagens de cacau em 18 municípios, abrangendo áreas de semiárido, Cerrado e transição. A partir dos resultados, foi estruturado um projeto que prevê 10 mil hectares em cinco anos, prioritariamente com agricultores familiares.
“O cacau aqui nós tratamos não como um cultivo solto. Nós desenvolvemos um sistema agroflorestal do cacau”, explica Luiz Alberto Santos, presidente da Coopercau Piauí.
O sistema combina o cacau com culturas como feijão, milho, abóbora, melancia e macaxeira. Segundo Santos, cerca de 300 agricultores já estavam cadastrados e as primeiras colheitas estão previstas para fevereiro do próximo ano.
Oeste da Bahia testa produção no Cerrado
O Oeste da Bahia também amplia o cultivo de cacau em áreas de Cerrado. Segundo Sodré, uma propriedade citada na região possui 500 hectares irrigados e utiliza pivô central.
O Ministério da Agricultura e Pecuária considera o Oeste baiano uma área com potencial de expansão. Em 2026, a Ceplac firmou acordo com a Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) para estudar o cultivo do cacaueiro em sistemas agroflorestais no Cerrado.
Dados citados pela Secretaria de Agricultura da Bahia indicam que propriedades tecnificadas da região alcançam entre 3 mil e 3,5 mil quilos por hectare, enquanto a média nacional mencionada pelo órgão fica entre 330 e 400 quilos.
Esses resultados, entretanto, dependem de condições específicas de solo, clima, água, genética e manejo.
Outras áreas ainda estão no início
Alagoas e Sergipe também registram experiências com cacau, mas ainda estão em estágio inicial. Em Alagoas, há plantios na Zona da Mata, inclusive em áreas de coqueirais.
Em Sergipe, os primeiros cultivos remontam a 2008 e ganharam impulso a partir de 2012. Os produtores associam o cacau a culturas como banana, mamão e cajá.
A consolidação dessas áreas dependerá de assistência técnica, água, organização dos produtores, pós-colheita e comercialização.
Pesquisa acompanha expansão
O Plano Inova Cacau 2030, instituído pelo Ministério da Agricultura em 2026, prevê superar 400 mil toneladas anuais e ampliar em 120 mil hectares a área de produção até 2030.
O plano prevê expansão em áreas já antropizadas ou consolidadas, sem conversão de vegetação nativa.
Para Maurício Coelho, os estudos mostram que o cacau pode avançar para zonas não tradicionais, desde que os produtores adaptem o sistema às condições locais.
“O direcionamento e interesse de produção nessas zonas não tradicionais existem, e a pesquisa mostra exemplos práticos de que pode se cultivar nessas zonas com alto rendimento”, afirma.