Resumo da notícia
- As chinampas, antigas ilhas agrícolas pré-astecas, ganharam destaque durante a pandemia ao impulsionar a agricultura local na Cidade do México, resistindo à urbanização e modernização.
- Esse sistema sustentável utiliza técnicas manuais e naturais, como sedimentos férteis e controle biológico de pragas, preservando biodiversidade e solos há mais de mil anos.
- Hoje, apenas 2,5% das chinampas são usadas para cultivo, mas produtores locais lutam para conservar esse método ancestral que garante segurança alimentar e diversidade agrícola.
Durante décadas, as antigas chinampas, sistemas agrícolas criados pelos povos pré-astecas há mais de mil anos, perderam espaço para a urbanização e para as cadeias modernas de abastecimento. No entanto, a pandemia da COVID-19 mudou esse cenário e ajudou a impulsionar a retomada dessas fazendas históricas nos arredores da Cidade do México.
O que são as chinampas?
As chinampas são ilhas artificiais criadas pelos povos astecas há mais de mil anos para ampliar áreas de cultivo em regiões alagadas. O nome vem da palavra nauatle “chinamitl”, que significa “cercado feito de juncos”.
Construídas com madeira, sedimentos e matéria orgânica, essas estruturas permitiam o cultivo de alimentos em solos altamente férteis e são consideradas um dos sistemas agrícolas mais avançados da antiguidade.

Agricultura ancestral resiste ao avanço da urbanização
Antes da chegada dos colonizadores espanhóis, as chinampas eram a base da segurança alimentar da antiga capital asteca. Com o crescimento da Cidade do México e a modernização do sistema agrícola, grande parte dessas áreas foi abandonada.

Atualmente, existem cerca de 2 mil hectares de chinampas, mas apenas 2,5% da área ainda é utilizada na agricultura tradicional. A área é mais conhecida como uma atração turística popular.
Mesmo assim, agricultores locais seguem preservando técnicas centenárias. Entre eles está Miguel de Valle, que cultiva hortaliças utilizando métodos praticamente inalterados ao longo das gerações.
“Temos que proteger esse modo de agricultura”, afirma o produtor. “Meu objetivo é conservar o que as pessoas fazem aqui há centenas de anos.”

Técnicas agrícolas que atravessaram séculos
O diferencial das chinampas está no sistema produtivo. Os agricultores retiram sedimentos férteis dos canais para formar canteiros ricos em nutrientes. O cultivo ocorre manualmente, sem mecanização pesada, preservando a estrutura do solo.
Além disso, os produtores utilizam métodos naturais de proteção das plantas, como cobertura vegetal para conservar a umidade e preparados à base de pimenta para auxiliar no controle de pragas.
Segundo os agricultores, essas práticas permitem manter uma produção diversificada de alface, milho, abóboras, ervas e hortaliças, ao mesmo tempo em que preservam a biodiversidade local.
“Essas técnicas já estão desaparecendo. Mas isso é muito eficaz”, destaca De Valle. “É a maneira mais local de alimentar as pessoas.”
COVID-19 fortaleceu a agricultura local
O renascimento das chinampas ganhou força durante a pandemia. Com as interrupções nas cadeias de suprimentos e as restrições de circulação, muitos moradores passaram a buscar alimentos produzidos mais perto de casa.
Assim, agricultores de Xochimilco ampliaram a venda direta ao consumidor, utilizando aplicativos de mensagens, redes sociais e sistemas de entrega em domicílio.
As vendas praticamente dobraram durante alguns meses da crise sanitária. Algumas propriedades ampliaram suas áreas cultivadas para atender ao aumento da demanda por alimentos frescos e locais.

Para especialistas, a pandemia evidenciou a importância da produção regional na construção de sistemas alimentares mais resilientes.
“Temos uma tradição de cultivo de alimentos de centenas ou milhares de anos. Não há nada de alternativo sobre isso. É o legado histórico. Isso é o normal”, afirma David Monachon, pesquisador da Universidade Nacional Autônoma do México.
Produção agrícola e conservação ambiental
Além da produção de alimentos, as chinampas desempenham papel importante na preservação ambiental. A área abriga espécies nativas e ajuda a regular a temperatura da Cidade do México por meio de sua extensa rede de canais.

O sistema também serve de refúgio para o axolote, anfíbio ameaçado de extinção e conhecido mundialmente por sua capacidade de regeneração.

Especialistas alertam que o abandono dessas áreas pode trazer impactos ambientais significativos, incluindo aumento das temperaturas locais e redução das chuvas.
Jovens no campo
Outro efeito positivo observado após a pandemia foi o retorno de jovens à atividade agrícola. Muitos enxergaram nas chinampas uma oportunidade de trabalho ligada à produção sustentável, ao turismo rural e à valorização dos alimentos locais.
A renovação geracional tem ajudado a recuperar áreas antes abandonadas e a fortalecer iniciativas voltadas à agricultura de proximidade.
Embora as chinampas não tenham capacidade para abastecer toda a metrópole como no passado, pesquisadores estimam que elas poderiam fornecer até 20% das hortaliças consumidas na Cidade do México em condições ideais.
Mais do que produzir alimentos, o sistema representa um patrimônio agrícola vivo, que combina tradição, conservação ambiental e segurança alimentar em uma das maiores cidades do planeta.
Com dados de National Geographic e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento








