Pesquisadores estudam como garantir a segurança da produção agrícola
Foto: Embrapa

As mudanças climáticas devem aumentar a importância da irrigação para o agronegócio brasileiro. A avaliação foi apresentada por pesquisadores durante o Fórum Mais Milho, realizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), em Brasília, nesta quarta-feira (12).

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Segundo os especialistas, a maior frequência de eventos climáticos extremos pode elevar os riscos para produtores que dependem exclusivamente das chuvas para conduzir suas lavouras.

Mudanças climáticas aumentam importância da irrigação

Lineu Rodrigues, pesquisador da Embrapa Cerrados e um dos idealizadores da Rede Nacional de Irrigantes (Renai), afirmou que o cenário da produção agrícola brasileira está mudando.

“O cenário está mudando, vamos ter que irrigar mais”, afirmou.

O pesquisador destacou que, até agora, a produção de grãos em sistema de sequeiro (que depende principalmente das chuvas) manteve a competitividade do Brasil. No entanto, a mudança no comportamento do clima aumenta a necessidade de estratégias para reduzir os impactos da irregularidade hídrica.

“Até hoje, a produção do Brasil em sequeiro era competitiva, mas agora o clima está mudando. A irrigação vai ser cada vez mais importante.”

Para Rodrigues, além da expansão da irrigação, o setor precisa ampliar o monitoramento climático e a geração de dados.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

A medida permitiria aos produtores fazer um planejamento mais preciso das atividades e tomar decisões com maior antecedência diante das condições meteorológicas.

Estresse hídrico aumenta risco para produtores

Ronaldo Torres, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), destacou a relação entre as perdas provocadas pelo clima e o endividamento no campo.

Segundo ele, parte das dificuldades financeiras enfrentadas pelos produtores está relacionada às frustrações de safra causadas pelo estresse hídrico.

“A irrigação pode ser uma solução para problemas decorrentes de estresse hídrico e eventos climáticos, como El Niño e La Niña, cada vez mais recorrentes”, apontou.

A irrigação, nesse contexto, pode funcionar como uma ferramenta para reduzir a dependência exclusiva das chuvas e aumentar a previsibilidade da produção.

Brasil pode ampliar área irrigada

Durante o evento, Durval Dourado Neto, professor da Esalq, afirmou que o Brasil possui potencial para ampliar significativamente a área irrigada.

Segundo ele, o país poderia acrescentar 53,4 milhões de hectares de área irrigada no longo prazo, ultrapassando a marca de 60 milhões de hectares.

O professor também defendeu a expansão da agricultura irrigada como uma estratégia relacionada à segurança alimentar.

De acordo com estudos apresentados por ele, seria possível desenvolver, no médio prazo, um plano nacional de segurança alimentar com o objetivo de ampliar a área irrigada em 15,5 milhões de hectares nos próximos 30 anos.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Desse total, 6,4 milhões de hectares estariam em áreas consideradas mais favoráveis à implantação de projetos de irrigação.

Além disso, o professor também afirmou que seria possível ampliar em 2,1 milhões de hectares a área irrigada a cada quatro anos em regiões próximas aos oito principais polos agrícolas irrigados do país.

Irrigação exige investimento e infraestrutura

Para Dourado Neto, a expansão da irrigação precisa ser acompanhada por planejamento e sustentabilidade.

“É importante ter a ciência norteando a agricultura. O Plano Nacional de Irrigação pode dobrar área adicional irrigável nos próximos anos e fazer isso com sustentabilidade, preservando água e floresta”, disse.

Gustavo Goretti, pesquisador das áreas de irrigação e conservação do solo, avaliou que a expansão potencial da área irrigada exigiria entre R$ 100 bilhões e R$ 150 bilhões em investimentos privados no longo prazo.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Segundo Goretti, alguns dos principais obstáculos para a expansão da irrigação continuam semelhantes aos enfrentados pelo setor há duas décadas.

Entre eles estão:

  • dificuldades relacionadas ao licenciamento ambiental;
  • regras para armazenamento e outorga de água;
  • disponibilidade de energia elétrica;
  • qualidade do fornecimento de energia.

O pesquisador também apontou que a irrigação ainda é tratada, em determinadas situações, como uma atividade sujeita a licenciamento, em vez de ser considerada uma tecnologia capaz de contribuir para a produção agrícola.

Setor defende melhor uso dos recursos hídricos

Bernhard Kiep, diretor da Abramilho e membro da Câmara de Irrigação (CSEI) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), afirmou que o Brasil ainda utiliza de forma limitada seu potencial produtivo e seus recursos naturais.

“Temos 12% da água doce do mundo, usamos menos de 1%. Somos campeões mundiais de desperdício de água doce do mundo. Precisamos usar melhor para o bem da humanidade.”

As discussões realizadas no Fórum Mais Milho mostram que a irrigação tende a ganhar espaço na estratégia do agronegócio brasileiro diante das mudanças no regime de chuvas e do aumento dos riscos climáticos.

Para os pesquisadores, a expansão, porém, depende de investimentos, planejamento, disponibilidade de água, infraestrutura energética, segurança jurídica e uso de dados para orientar as decisões no campo.

Siga o canal do Agro em Campo no WhatsApp e saiba tudo em primeira mão