Modelo considera a ocorrência conjunta de diferentes herbicidas nos recursos hídricos e muda a estimativa da pegada hídrica na cultura
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Foto: Fernando Valicente/Embrapa

Um novo método desenvolvido pela Embrapa amplia a forma de calcular o impacto de herbicidas na água. A abordagem considera a ocorrência conjunta de diferentes produtos nos recursos hídricos, enquanto o cálculo tradicional analisa cada substância de forma isolada.

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O pesquisador Lourival Paraíba, da Embrapa Meio Ambiente, desenvolveu o estudo com foco na cana-de-açúcar. A pesquisa avaliou 17 herbicidas distribuídos em sete grupos de classificação do Comitê de Ação contra a Resistência a Herbicidas (HRAC).

O cálculo utiliza a chamada pegada hídrica cinza, indicador que estima o volume hipotético de água necessário para diluir poluentes até concentrações consideradas seguras.

Na prática, o método considera o que pode ocorrer depois da aplicação dos produtos no campo. A chuva pode carregar parte dos resíduos para rios e córregos. Além disso, os herbicidas podem infiltrar no solo e alcançar águas subterrâneas.

Paraíba explica que “A pegada hídrica cinza é, em essência, a conta que a natureza paga para limpar a água supostamente contaminada pela agricultura”.

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Novo método soma os efeitos de herbicidas do mesmo mecanismo

O modelo proposto combina a classificação dos herbicidas segundo seus mecanismos de ação com conceitos usados na avaliação dos efeitos de misturas.

Quando diferentes substâncias atuam sobre o mesmo mecanismo biológico, o método considera que seus efeitos podem se somar. Já quando os produtos apresentam mecanismos diferentes, a análise aplica o princípio da ação independente.

Paraíba explica que “quando duas substâncias atacam o mesmo mecanismo biológico, seus efeitos se somam. Quando apresentam mecanismos diferentes, agem de forma independente – e o efeito total é determinado pelo mais tóxico, não pela soma”.

Essa abordagem diferencia o novo método do cálculo tradicional, que avalia cada herbicida separadamente.

Além disso, os pesquisadores usaram simulações de Monte Carlo para incorporar as incertezas presentes nos cálculos. O procedimento permite trabalhar com diferentes combinações de valores e obter uma faixa de resultados, em vez de depender de uma única estimativa.

Segundo Paraíba, “Isso é muito mais honesto do que um número pontual”.

Novo cálculo chega a 116 vezes a estimativa tradicional

Na comparação apresentada pela Embrapa, o novo modelo chegou a uma estimativa até 116 vezes maior para a pegada hídrica cinza dos 17 herbicidas avaliados.

O método tradicional, conhecido como H-model, chegou a 49,5 bilhões de metros cúbicos. Já o modelo proposto na pesquisa alcançou 5,74 trilhões de metros cúbicos.

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A diferença não resulta apenas da inclusão de vários produtos no cálculo. O novo método também considera a ocorrência conjunta dos herbicidas e seus mecanismos de ação.

Nas simulações apresentadas pela Embrapa, a diferença entre os dois métodos variou de 69 a 195 vezes em 95% dos casos.

É importante interpretar esses números corretamente. A pegada hídrica cinza representa uma estimativa teórica de diluição. Portanto, os 5,74 trilhões de metros cúbicos não significam que esse volume de água esteja efetivamente contaminado nem que o setor precise utilizar essa quantidade para descontaminar rios e córregos.

Grupo com seis herbicidas domina as simulações

Outro resultado importante envolve a quantidade de produtos pertencentes ao mesmo grupo de mecanismo de ação.

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Nas simulações, o grupo formado pelos herbicidas ametrina, diurom, hexazinona, metribuzim, tebutiurom e amicarbazona predominou em 99,7% dos casos.

Paraíba destaca que “O fato de a pegada hídrica cinza ser governada pelo tamanho do grupo HRAC, e não pela toxicidade individual de cada herbicida, parece contraintuitivo à primeira vista”.

Assim, o número de herbicidas que pertencem ao mesmo grupo de mecanismo de ação pode influenciar fortemente o resultado do modelo.

Esse resultado ajuda a explicar por que a avaliação conjunta produz uma estimativa diferente daquela obtida quando os pesquisadores analisam cada produto separadamente.

Pesquisa aponta alternativas para o manejo

A pesquisa também apresenta recomendações para reduzir a pegada hídrica cinza associada ao uso de herbicidas na cana-de-açúcar.

Uma delas é priorizar, quando houver viabilidade agronômica, produtos pertencentes a grupos menores ou isolados. O estudo cita glifosato, isoxaflutol e clomazona entre os produtos avaliados nessa condição.

Outra orientação consiste em evitar, sempre que possível, a combinação de diferentes herbicidas pertencentes ao mesmo grupo de mecanismo de ação.

O produtor, porém, precisa avaliar o manejo das plantas daninhas, a eficiência de cada produto e as recomendações agronômicas para cada situação.

“Essas três regras têm o potencial de reduzir substancialmente a pegada hídrica cinza sem comprometer o controle de plantas daninhas

desde que o manejo integrado seja feito com critério e com orientações agronômicas”, afirma Paraíba.

O pesquisador também destaca a importância do indicador para sistemas de certificação. Segundo ele, “Para os produtores de cana, isso é relevante porque as certificações internacionais inclusive as que habilitam a exportação de etanol já começam a exigir esse cálculo”.

Método pode chegar a outras culturas

Embora a pesquisa tenha usado a cana-de-açúcar como referência, os pesquisadores podem aplicar a metodologia a outras culturas que utilizam diferentes herbicidas.

Entre os exemplos estão soja, milho, algodão e café.

A proposta também amplia a discussão sobre os critérios usados para avaliar o impacto potencial dos defensivos agrícolas sobre os recursos hídricos.

Nesse sentido, o método pode ajudar pesquisadores e produtores a comparar estratégias de manejo e identificar situações em que a escolha dos produtos altera a estimativa de impacto ambiental.

Paraíba resume a importância dessa avaliação ao afirmar: “A água é um bem compartilhado. O herbicida que o produtor aplica em sua lavoura hoje pode estar no rio que abastece uma cidade a quilômetros de distância amanhã. Isso não é uma acusação – é uma realidade física”.

A metodologia abre espaço para novas avaliações em diferentes culturas e sistemas agrícolas. Ao mesmo tempo, os resultados precisam permanecer dentro dos limites da modelagem e não devem ser tratados como uma medição direta da contaminação de rios ou águas subterrâneas