Após picadas de carrapato, pecuarista desenvolveu síndrome que provoca reação à carne de mamíferos e encontrou no avestruz uma alternativa ao bife
Brent Williams com avestruz criado pela Alpha Roost Farms, no Kentucky
Reprodução: Herald Leader

Durante décadas, Brent Williams trabalhou com gado e nutrição animal. A ligação era tão forte que, desde a quinta série, ganhou o apelido de “Beef”, palavra em inglês para carne bovina.

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Até que uma picada de carrapato mudou sua relação com um dos alimentos que mais faziam parte de sua vida.

Williams desenvolveu a síndrome alfa-gal, uma alergia que pode provocar reações após o consumo de carne de mamíferos. O diagnóstico veio em 2019 e obrigou o americano a mudar radicalmente a alimentação.

Anos depois, porém, ele encontrou uma saída inesperada: o avestruz.

Hoje, a Alpha Roost Farms, no Kentucky, nos Estados Unidos, mantém mais de 400 aves. A expectativa é chegar a aproximadamente 700 no próximo ano.

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Carrapato mudou a vida do pecuarista

Avestruz em fazenda nos Estados Unidos
Reprodução: Herald Leader

Antes do diagnóstico, Williams passou meses tentando entender o que acontecia com seu corpo. Ele sofria com urticária e outras reações depois de comer.

A explicação estava na síndrome alfa-gal, condição associada a picadas de carrapatos. A reação envolve uma molécula encontrada em grande parte dos mamíferos.

Com isso, alimentos como carne bovina, suína e de cordeiro podem desencadear sintomas em pessoas sensibilizadas.

Para Williams, o impacto foi ainda maior por causa de sua história profissional. Ele passou a vida trabalhando justamente com pecuária e nutrição animal.

“Desde que consigo me lembrar, a carne bovina faz parte da minha vida, tanto pessoal quanto profissionalmente”, contou Williams em entrevista ao Lexington Herald-Leader.

A situação chegou ao ponto de ele precisar adotar uma dieta extremamente rígida.

Avestruz virou alternativa ao bife

Carne de avestruz produzida pela Alpha Roost Farms como alternativa à carne bovina
Reprodução: Herald Leader

A solução apareceu porque o avestruz guarda uma particularidade.

Apesar de ser uma ave, produz uma carne escura que visualmente se aproxima muito mais de um bife do que de um peito de frango. Além disso, aves não apresentam a alfa-gal da mesma forma que os mamíferos.

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Quando experimentou a carne, Williams percebeu outra semelhança.

“Para alguém com síndrome alfa-gal, o avestruz é o que mais se aproxima da carne bovina em sabor e sensação na boca”, afirmou ao jornal americano.

A experiência pessoal acabou encontrando uma oportunidade de negócio.

Williams, a esposa Kandice e os parceiros W.D. King e Morgan Hayes desenvolveram a Alpha Roost Farms, perto de Danville. A propriedade passou a apostar na criação de avestruzes para produção de carne.

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Ideia começou quase como brincadeira

Curiosamente, o negócio nasceu durante uma conversa entre Williams e King.

King havia trabalhado durante anos com nutrição de aves e já mantinha atividades agropecuárias. Em 2022, enquanto conversava com Williams sobre o futuro, brincou com a possibilidade de começar a criar avestruzes.

A justificativa resumiu bem a peculiaridade do animal: seria algo “no meio do caminho entre uma galinha e uma vaca”.

Williams gostou da ideia e decidiu entrar no projeto.

Desde então, a operação cresceu.

A fazenda já ultrapassou 400 avestruzes, construiu uma nova instalação para os filhotes e pretende alcançar cerca de 700 aves no próximo ano.

Ave por fora, carne vermelha por dentro

A aparência do produto também cria uma situação curiosa para quem trabalha com os animais.

Morgan Hayes, engenheira agrícola e uma das responsáveis pela operação, explicou ao Lexington Herald-Leader que o avestruz desafia a percepção comum sobre carnes.

“O avestruz é um produto muito interessante porque entra como ave e sai como carne vermelha”, afirmou.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Agricultura classifica avestruzes dentro das regras aplicadas às aves para fins de inspeção. No prato, entretanto, a carne apresenta coloração vermelha e características bastante diferentes das encontradas no frango.

Agora, essa particularidade também começa a abrir mercado.

Outros produtores americanos relatam aumento na procura por carne de avestruz, especialmente entre consumidores que não podem mais comer carne de mamíferos. A atividade, porém, continua pequena: existem aproximadamente 10 a 15 grandes criadores de avestruzes no país.

Para Williams, a transformação foi ainda mais pessoal.

Depois de passar boa parte da vida trabalhando com gado e descobrir que não podia mais comer carne bovina, ele encontrou na maior ave do planeta uma maneira inesperada de colocar algo parecido com um bife de volta ao prato.