Espécie Millepora braziliensis perdeu toda cobertura viva em Pernambuco. Três das quatro espécies presentes no país existem apenas em águas brasileiras
Foto: Ralf Cordeiro/UFRPE

Especialistas alertam que os corais-de-fogo brasileiros podem estar caminhando para uma “extinção silenciosa”. A conclusão integra estudo apoiado pela FAPESP e publicado na revista científica Coral Reefs, que analisou o impacto do branqueamento de corais durante a onda de calor de 2024.

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O Instituto Coral Vivo, com apoio da Petrobras, conduziu o monitoramento após o primeiro evento severo de branqueamento que atingiu o Brasil em 2019. Os pesquisadores acompanharam as colônias antes, durante e depois da mais recente crise térmica, provocada pelo fenômeno El Niño-Oscilação Sul no início de 2024.

Espécie endêmica perde todas as colônias monitoradas

Os resultados revelam um cenário alarmante para a Millepora braziliensis, espécie que existe apenas no Brasil. A pesquisa registrou branqueamento de 100% e perda total da cobertura viva nas colônias monitoradas em Tamandaré (PE). O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) já classificam a espécie como criticamente ameaçada de extinção.

Outra espécie endêmica, a Millepora nitida, apresentou 40% de branqueamento, mas não registrou perdas significativas de cobertura durante o mesmo período.

“Os resultados reforçam que precisamos adotar medidas urgentes de conservação para proteger os corais, principalmente as populações de M. braziliensis, que enfrentam risco elevado de extinção”, afirma Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador do estudo.

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O pesquisador destaca que as ondas de calor provocadas pelo El Niño, combinadas com o aquecimento global causado pela emissão de gases de efeito estufa, intensificam a ameaça sobre essas espécies.

Negligência histórica compromete conservação

Os cientistas historicamente negligenciaram os corais-de-fogo em monitoramentos. Diversas razões explicam essa lacuna: o difícil acesso às colônias, sua localização nas bordas dos recifes e a menor abundância de três das quatro espécies brasileiras em comparação aos corais verdadeiros.

“No entanto, os corais-de-fogo possuem importância ecológica comparável aos corais verdadeiros, uma vez que contribuem para a complexidade do ecossistema e oferecem abrigo para outras espécies animais”, explica Mies, que também dirige cientificamente o Instituto Coral Vivo.

O estudo tem como primeiros autores Laura Marangoni, do Instituto Coral Vivo, e Tarciso Roberto Sena da Silva, mestrando da UFRPE sob orientação de Ralf Cordeiro, que coordenou o monitoramento.

Branqueamento global atinge 84% dos recifes

O branqueamento representa a maior ameaça aos recifes de coral mundialmente. O fenômeno ocorre quando a temperatura da água sobe e as zooxantelas — microalgas que vivem dentro do esqueleto dos corais e fornecem alimentos — passam a produzir compostos danosos. Os corais expelem essas algas, ficam brancos e podem morrer por falta de energia.

O evento de 2023-2024 marcou a quarta ocorrência global do tipo e também afetou os corais verdadeiros da costa brasileira, como relata outro estudo do grupo publicado em setembro de 2025. Em Maragogi (AL), o branqueamento atingiu 96% dos corais; em Porto de Galinhas (PE), 84%. Mundialmente, 84% dos recifes sofreram com o fenômeno no mesmo período.

Quatro espécies, três endêmicas

Os pesquisadores monitoraram a M. nitida em três pontos do Recife de Fora, em Porto Seguro (BA). A M. braziliensis teve suas colônias analisadas em Tamandaré (PE), dentro da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, que se estende até Maceió (AL).

Outras duas espécies de coral-de-fogo habitam águas brasileiras. A M. alcicornis, presente também no Caribe, recebe mais atenção dos pesquisadores e apresenta maior abundância, embora também inspire preocupação.

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A M. laboreli, terceira espécie endêmica do Brasil, restringe-se ao Parcel do Manuel Luís, na costa do Maranhão. O difícil acesso ao local gera enorme lacuna de informações sobre seu estado de conservação.

“As últimas notícias que tivemos, de um grupo que esteve ali em 2022, indicam que havia poucas colônias vivas. A situação pode ter piorado após a onda de calor de 2023-2024. Porém, não temos dados suficientes para afirmar com precisão”, conta Mies.

Extinção pode ocorrer em poucos anos

O pesquisador não hesita em afirmar que essas espécies podem desaparecer nos próximos anos, caso novos eventos de branqueamento ocorram — o que considera inevitável. Por enquanto, qualquer solução imediata parece impossível sem que haja redução da emissão de gases de efeito estufa que aquecem o planeta e favorecem as ondas de calor.

Iniciativas de restauração, nas quais cientistas cultivam corais em laboratório e os introduzem na natureza, ainda não se mostraram bem-sucedidas. A prática demanda altos investimentos, competindo por recursos com outras iniciativas de conservação, e os corais introduzidos morrem em ondas de branqueamento subsequentes.

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No entanto, os pesquisadores lembram que estudos já demonstraram que corais em unidades de conservação tendem a sofrer menos com o branqueamento do que aqueles fora dessas áreas protegidas.

“Diferentemente do branqueamento de 2019, quando não estávamos preparados, documentamos bem o que está ocorrendo agora, a fim de subsidiar políticas públicas. Precisamos fortalecer as ações de conservação e aumentar a conscientização sobre a importância de conter as mudanças climáticas”, conclui Mies.

André Julião | Agência FAPESP