Resumo da notícia
- A cacauicultura baiana, marcada por sua história com coronéis e jagunços, busca se reinventar com foco em ciência e sustentabilidade para garantir futuro promissor.
- A vassoura-de-bruxa devastou a produção de cacau na Bahia entre 1990 e 2000, reduzindo drasticamente a produção e impactando a economia local.
- O uso de bioinsumos como biofungicidas e práticas agroecológicas tem ajudado a combater doenças, preservar o solo e garantir qualidade na produção sustentável.
Todo 26 de março, o Brasil celebra o Dia Nacional do Cacau. E a data é uma oportunidade para olhar tanto para o passado glorioso quanto para o futuro incerto de um fruto que construiu cidades, inspirou literatura e forjou identidades no sul da Bahia. O cacau foi, por décadas, o coração econômico da região. Sua posição no ranking nacional de culturas já não é a mesma, mas o peso simbólico e histórico permanece intacto.
Entre 1901 e meados dos anos 1920, o Brasil ocupou o posto de maior produtor mundial de cacau. No sul baiano, aquele período gerou uma cultura própria, marcada pela luta por terras, pelos jagunços e pelo luxo dos coronéis do cacau. Só entre 1890 e 1920, a Bahia chegou a produzir cerca de 370 mil toneladas do fruto em um único ano. Ilhéus e outras cidades da região prosperaram rapidamente, com investimentos em infraestrutura e na construção de prédios luxuosos.
A queda veio de onde menos se esperava. Em 1989, o fungo Moniliophtora perniciosa, responsável pela vassoura-de-bruxa, apareceu na região de Ilhéus-Itabuna e se alastrou com velocidade, atacando frutos, brotos e flores dos cacaueiros. Entre 1990 e 2000, a produção baiana despencou de 356 mil para 98 mil toneladas. O colapso trouxe efeitos socioeconômicos e ambientais graves para toda a região. E o Brasil, que chegou a ser o segundo maior produtor mundial, caiu para o sexto lugar. Apenas em 2015, mais de 20 anos depois, a Bahia retomou as exportações.
- Campeonato Brasileiro de Cup Tasters 2026 tem novo campeão
- Projeto inédito une indústria, bancos e pesquisa para transformar a cadeia do açaí no Pará
Solo saudável, chocolate de qualidade
O cacaueiro é uma planta exigente: precisa de solos profundos e ricos, clima quente e úmido, temperatura média de cerca de 25°C e precipitação anual entre 1.500 e 2.000 milímetros, sem períodos secos prolongados. Qualquer desequilíbrio nutricional compromete diretamente a produtividade e a renda do produtor.
“Nutrientes como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e micronutrientes são essenciais para processos fisiológicos vitais. A deficiência ou o excesso de alguns deles pode prejudicar o processo fotossintético e, consequentemente, a produtividade e a qualidade da produção agrícola”, explica Fellipe Parreira, responsável por Portfólio e Acesso no Grupo GIROAgro.
Hoje, os produtores cultivam o cacaueiro majoritariamente de forma agroecológica: além de preservar espécies florestais nativas, a produção contribui para a retenção de água, a manutenção dos recursos hídricos e a conservação da fauna local. É uma cultura que já nasceu sustentável.
Bioinsumos entram em campo contra a vassoura-de-bruxa
Para enfrentar as principais doenças da cultura, o setor aposta nos bioinsumos. Biofungicidas à base de Trichoderma spp. reduzem a infecção por vassoura-de-bruxa em até 99% no solo e 57% na copa, sem deixar resíduos químicos. Bioinseticidas complementam o manejo ao reforçar o controle biológico por predadores e parasitoides, diminuindo os riscos de resistência e surtos de pragas.

No Dia Nacional do Cacau, o recado que fica é simples: sem solo bem nutrido e manejo adequado, não há chocolate. E sem chocolate, perde-se muito mais do que um alimento; perde-se um pedaço da história do Brasil.








