Resumo da notícia
- A PEC 221/2019, em análise no Senado, propõe reduzir a jornada semanal para 40 horas e garantir dois dias de descanso remunerado sem corte salarial, alterando a escala 6x1.
- A mudança traz mais descanso e convívio familiar para trabalhadores, mas preocupa o agronegócio, que depende de trabalho contínuo para colheitas, ordenhas e cuidados diários.
- Produtores alertam que a nova regra pode exigir mais funcionários ou horas extras, impactando custos e possivelmente os preços dos alimentos, embora isso ainda não seja uma consequência confirmada.
O fim da escala 6×1 pode provocar uma mudança histórica na rotina dos trabalhadores brasileiros e também atingir diretamente as fazendas. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado analisa nesta quarta-feira (2) a PEC 221/2019, que reduz a jornada máxima semanal e garante dois dias de descanso remunerado, sem corte nos salários.
A proposta aparece como primeiro item da reunião marcada para as 9h. O parecer do relator, senador Omar Aziz (PSD-AM), é favorável à aprovação do texto que já passou pela Câmara dos Deputados.
Para milhões de trabalhadores, a mudança representa mais tempo de descanso e convivência familiar. No campo, porém, produtores e entidades do agronegócio questionam como a nova escala será aplicada em colheitas, ordenhas e criações que precisam funcionar todos os dias.
- Barretão 2026 teve shows históricos e decepções; veja o ranking
- PIB cresce 0,5% no trimestre e agropecuária puxa a alta
O que muda com o fim da escala 6×1
Atualmente, a Constituição permite uma jornada de até 44 horas semanais. A PEC reduz esse limite gradualmente para 40 horas e estabelece dois dias de repouso remunerado por semana, sem diminuição do salário.
A primeira etapa começaria 60 dias depois da promulgação, quando a jornada máxima cairia para 42 horas semanais. Após mais 12 meses, o limite chegaria definitivamente às 40 horas.
A mudança não significa que fazendas, frigoríficos e outras empresas precisarão interromper as atividades durante dois dias. Para manter operações contínuas, os empregadores poderão reorganizar turnos e equipes, respeitando as folgas garantidas a cada trabalhador.
Por que a mudança preocupa o campo
A rotina de uma propriedade não segue apenas os dias do calendário. O plantio e a colheita dependem das condições climáticas, enquanto animais precisam receber alimentação, cuidados e acompanhamento diariamente.
Na produção de leite, por exemplo, a ordenha não pode ser adiada porque chegou o fim de semana. O mesmo acontece em granjas, confinamentos, frigoríficos e propriedades que trabalham com frutas e produtos perecíveis.
Em períodos de safra, alguns produtores concentram boa parte do trabalho em poucas semanas. Há ainda culturas colhidas durante a madrugada, quando as temperaturas mais baixas ajudam a preservar a qualidade das frutas.
Com a redução da jornada individual, essas propriedades poderão precisar de mais funcionários ou ampliar o pagamento de horas extras para manter o mesmo ritmo de produção.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defende que a sazonalidade e as particularidades do campo sejam consideradas na implementação da proposta. A entidade afirma que uma mudança dessa dimensão exige planejamento para não comprometer a produção e a competitividade do agronegócio.
Fim da escala 6×1 pode deixar os alimentos mais caros?
O possível aumento no preço dos alimentos é um dos principais alertas apresentados por representantes do setor produtivo, mas não pode ser tratado como uma consequência já confirmada.
O Sistema FAEP estima que a mudança poderia acrescentar R$ 4,1 bilhões aos custos do agronegócio do Paraná. Segundo o levantamento da entidade, seriam necessárias até 107 mil novas contratações no estado para preencher o espaço deixado pela redução da jornada.
A projeção considera salários e encargos necessários para manter as atividades rurais. A entidade avalia que parte desse custo poderia avançar pela cadeia de distribuição e chegar às prateleiras dos supermercados. Os números, porém, representam uma estimativa setorial concentrada no Paraná e não uma projeção oficial para todo o Brasil.
O impacto real dependerá da capacidade de reorganização das propriedades, da disponibilidade de trabalhadores, dos ganhos de produtividade e das regras que serão adotadas durante a transição.
Trabalhadores rurais também podem ser beneficiados
Enquanto produtores analisam os custos da mudança, os trabalhadores rurais poderão ganhar um segundo dia de descanso sem perder parte do salário.
A medida pode ter um efeito importante sobre profissionais que enfrentam atividades fisicamente exigentes, longos deslocamentos e períodos intensos durante as safras. Os defensores da PEC também apontam que jornadas menores podem melhorar a qualidade de vida, reduzir a rotatividade e favorecer a produtividade.