Resumo da notícia
- A 4ª Vara Cível de Sinop deferiu a recuperação judicial do Grupo Soyagro, que acumula dívidas de R$ 205,1 milhões entre sete empresas e três produtores rurais ligados ao grupo.
- O Grupo Soyagro, fundado em 2014 em Sorriso/MT, expandiu-se para nove unidades no norte de MT e Pará, atuando na revenda de insumos agrícolas e produção rural.
- A decisão judicial permite tramitação unificada do processo e apresentação de um único plano de recuperação, devido à gestão concentrada e operações integradas do grupo.
A 4ª Vara Cível da Comarca de Sinop, em Mato Grosso, deferiu o processamento da recuperação judicial do Grupo Soyagro. O conglomerado empresarial e familiar, sediado em Sorriso/MT, atua na revenda de insumos agrícolas e na produção rural no norte do Estado.
A decisão judicial abrange sete sociedades empresárias e três produtores rurais que operam sob a mesma marca. O grupo acumula dívida total estimada em R$ 205.104.855,71, entre créditos concursais e extraconcursais.
Como o Grupo Soyagro nasceu e cresceu no norte de Mato Grosso
O Grupo Soyagro surgiu em Sorriso/MT em 2014, com a fundação da Bocchi e Fabian Ltda. A partir daí, o grupo expandiu suas operações pela região. Em abril de 2015, a empresa inaugurou sua primeira filial em Porto dos Gaúchos/MT, com a Comércio de Insumos Agrícolas Soyagro Ltda. Em 2021, o grupo chegou a Alta Floresta/MT, com a BFF Insumos Agrícolas Ltda, e reforçou sua presença em Matupá/MT, com a FB Comércio Agrícola Ltda. Já em 2022, a Soyagro ultrapassou as fronteiras de Mato Grosso e abriu uma unidade em Novo Progresso/PA, além de inaugurar uma loja em Marcelândia/MT.
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Atualmente, o grupo opera seis lojas no norte de Mato Grosso e uma no Pará, todas sob a marca única “Soyagro“. A empresa atua no comércio atacadista de defensivos agrícolas, adubos, fertilizantes e corretivos de solo. Em 2019, diante da crescente inadimplência de clientes que quitavam dívidas com maquinário agrícola por meio de dação de pagamento, os sócios Artêmio Junior Fabian e Flávio José Bocchi decidiram diversificar as atividades do grupo e ingressar na produção agrícola. Junto com a produtora rural Ana Paula Valdameri Fabian, esposa de Flávio, os sócios arrendaram uma área de 1.530 hectares em Alta Floresta/MT, hoje a Fazenda Maju, destinada ao cultivo de soja e milho.
Quem são as empresas e os produtores beneficiados pela decisão
A Justiça deferiu a recuperação judicial em favor de sete sociedades: Bocchi e Fabian Ltda, BF Comércio de Insumos Agrícolas Ltda, Comércio de Insumos Agrícolas Soyagro Ltda, BFF Insumos Agrícolas Ltda, FB Comércio Agrícola Ltda, BFDT Insumos Agrícola Ltda e BFC Insumos Agrícolas Ltda. A decisão também beneficia os produtores rurais Flávio José Bocchi, Artêmio Junior Fabian e Ana Paula Valdameri Fabian.
O juízo também autorizou a consolidação processual e substancial do grupo. Isso permite a tramitação unificada do processo e a apresentação de um único Plano de Recuperação Judicial para todas as recuperandas. A decisão justifica essa medida pela administração e gestão concentradas do grupo, pela identidade de credores e fornecedores, pelo caixa centralizado, pelas garantias cruzadas e pela atuação conjunta no mercado sob a marca única Soyagro. Fatores que, segundo o Juízo, comprovam a intensa interconexão entre os ativos e passivos das requerentes.
Os motivos da crise financeira que levaram o grupo à recuperação judicial
Segundo a petição inicial, a revenda de insumos agrícolas exige capital intensivo e opera com margens líquidas reduzidas, entre 0,5% e 3,5%. Essa característica torna o negócio altamente sensível a oscilações de custo e de crédito. O Grupo Soyagro atribui sua crise econômico-financeira à combinação de diversos fatores:
- a elevação expressiva das taxas de juros, com a Selic atingindo 14,75% ao ano, o maior patamar em 19 anos;
- as variações cambiais e o encarecimento de insumos, agravado pelo conflito entre Rússia e Ucrânia;
- a queda nos preços de commodities como soja, milho, feijão e algodão;
- as quebras de safra, que reduziram a capacidade de pagamento dos produtores rurais atendidos pelas revendas.
A inadimplência estrutural entre os produtores clientes das empresas do grupo agrava ainda mais o cenário. Ela ultrapassa 10% do faturamento anual e atinge picos superiores a 25% em determinadas regiões e culturas. Essa inadimplência gerou um efeito cascata sobre o caixa do Grupo Soyagro, que hoje acumula mais de R$ 60 milhões em endividamento bancário e possui R$ 115 milhões em recebíveis de clientes inadimplentes. Parte relevante desses créditos permanece travada justamente por processos de recuperação judicial ajuizados pelos próprios produtores devedores. O grupo figura como credor em 14 processos dessa natureza em diferentes comarcas do país, com cerca de R$ 40 milhões em créditos a receber sem perspectiva imediata de recebimento.
Valor total da dívida e os maiores credores do Grupo Soyagro
A relação de credores apresentada no processo aponta um valor total sujeito à recuperação judicial (créditos concursais) de R$ 177.020.694,41, somado a US$ 5.308.915,18 em créditos denominados em dólar, distribuídos entre 215 credores. Ao somar o passivo extraconcursal, o valor total da dívida do Grupo Soyagro chega a R$ 205.104.855,71.
Entre os credores sujeitos à recuperação judicial, destacam-se pelo volume de crédito:
- Longping High-Tech Biotecnologia Ltda
- CTVA Proteção de Cultivos Ltda (grupo Corteva)
- Caixa Econômica Federal
- Tecnomyl Brasil Distribuidora de Produtos Agrícolas Ltda
- FAR – Fator Administração de Recursos Ltda
- Banco Safra S.A.
- Stine Seed Sementes do Brasil Ltda
A dívida extraconcursal do grupo
Além dos créditos sujeitos à recuperação judicial, o Grupo Soyagro possui R$ 4.437.660,84 em créditos extraconcursais. São valores não abrangidos pelo processo, que a empresa deve pagar normalmente, fora do plano de recuperação. Essa dívida está distribuída entre o Estado de Mato Grosso, credor de tributos estaduais, a Stara Financeira S.A., a Central Sicredi Centro Norte do Brasil e o Banco do Brasil S.A.
O processo de recuperação judicial do Grupo Soyagro tramita sob o número 1018772-58.2026.8.11.0015, na 4ª Vara Cível da Comarca de Sinop, em Mato Grosso. A empresa Ex Lege Administração Judicial Ltda assume a administração judicial do processo.
Os desafios do agronegócio e do Grupo Soyagro na recuperação judicial
O caso do Grupo Soyagro reflete um cenário mais amplo enfrentado pelo agronegócio brasileiro, especialmente pelas revendas de insumos e pelos produtores rurais de Mato Grosso. A combinação de juros elevados, câmbio instável, queda de preços de commodities e inadimplência crescente entre produtores tem impulsionado uma onda de pedidos de recuperação judicial no setor. Um fenômeno que a imprensa econômica tem noticiado amplamente nos últimos meses. E que expõe a fragilidade financeira de empresas historicamente lucrativas, mas dependentes de capital de giro intensivo e de crédito bancário para sustentar suas operações.
Para o Grupo Soyagro, o principal desafio ao longo da recuperação judicial será equacionar, em um único plano, os interesses de 215 credores concursais e das diferentes sociedades consolidadas. Ao mesmo tempo, o grupo busca reequilibrar seu fluxo de caixa, hoje pressionado por dezenas de milhões de reais em recebíveis travados em processos de recuperação judicial de seus próprios clientes produtores rurais. A complexidade operacional do grupo, com unidades distribuídas em dois Estados e atuação simultânea na revenda de insumos e na produção agrícola, deverá exigir fiscalização intensa por parte da administração judicial e disciplina rigorosa no cumprimento das obrigações assumidas.
A recuperação judicial se apresenta, por fim, como instrumento legal para viabilizar a superação da crise econômico-financeira, nos termos do art. 47 da Lei nº 11.101/2005, e para preservar a fonte produtora, os empregos gerados e a função social exercida pelo Grupo Soyagro na cadeia produtiva do agronegócio regional. O sucesso da reestruturação, contudo, dependerá da capacidade do grupo de renegociar seus débitos, reconquistar a confiança de fornecedores e instituições financeiras e adaptar seu modelo de negócio a um cenário de crédito mais restritivo e de inadimplência estrutural entre seus clientes.
Com informações de Empresas em Crise.Com

Correção: A versão inicial desta reportagem foi ilustrada com fotografias de uma unidade da Soyagro localizada em Mato Grosso do Sul, que não pertence ao Grupo Soyagro citado na matéria. As imagens não tinham relação com o processo de recuperação judicial nem retratavam seus efeitos. O material foi substituído após a identificação do erro.