Bloqueio do Estreito de Ormuz retira ureia do mercado global e acende alerta para a safra 2026/2027 no Brasil
Bloqueio do Estreito de Ormuz retira ureia do mercado global e acende alerta para a safra 2026/2027 no Brasil — (Imagem gerada por IA)

O conflito no Oriente Médio parou de ser apenas um problema geopolítico e já bate na porta do campo, nos estoques de insumos e no prato de bilhões de pessoas ao redor do mundo.

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A interrupção do fornecimento de fertilizantes causada pela guerra no Irã pode custar até 10 bilhões de refeições por semana em todo o mundo, segundo o CEO da Yara, uma das maiores produtoras de fertilizantes do planeta. O número impressiona, mas o mecanismo por trás dele é direto: sem fertilizante nitrogenado, a produção agrícola cai.

O estrangulamento começa em Ormuz

Tudo passa pelo Estreito de Ormuz: cerca de um terço dos fertilizantes do mundo, incluindo ureia, potássio, amônia e fosfatos, normalmente transita por essa via marítima. Com as hostilidades no Golfo bloqueando o tráfego, a cadeia de suprimentos global trava.

Svein Tore Holsether, CEO da Yara, foi direto ao ponto em entrevista à BBC: “Até meio milhão de toneladas de fertilizante nitrogenado não estão sendo produzidas no mundo no momento devido à situação em que estamos. O que isso significa para a produção de alimentos? Eu estimaria até 10 bilhões de refeições que deixarão de ser produzidas a cada semana como resultado da falta de fertilizantes.”

Mesmo que o estreito reabrisse amanhã, os preços elevados tendem a persistir, já que parte da produção e das matérias-primas já foi perdida.

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Queda de até 50% na produtividade das lavouras

O impacto vai além dos números abstratos. Não aplicar fertilizante nitrogenado reduziria a produtividade de algumas culturas em até 50% já na primeira safra. Isso significa menos grãos, menos colheita e menos comida chegando ao mercado, tudo ao mesmo tempo.

Os principais destinos afetados seriam Ásia, Sudeste Asiático, África e América Latina, regiões onde o impacto imediato seria mais visível. Holsether ainda alertou que áreas da África subsaariana, onde já há subfertilização crônica, poderiam registrar “quedas significativas” na produção agrícola.

Para o agronegócio brasileiro, o cenário exige atenção redobrada. O Brasil importou 43,3 milhões de toneladas de fertilizantes no ano passado, enquanto a produção nacional ficou em 7,2 milhões de toneladas, com a importação ainda responsável por 85% do abastecimento interno.

O Ministério da Agricultura identificou o risco com urgência. Notas técnicas da secretaria-executiva apontam “alto risco real de um déficit de volume estimado entre 1 e 3 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados em 2026, suficiente para comprometer a produtividade das safras 2026/2027.”

Os mais vulneráveis pagam a conta mais alta

O CEO da Yara foi enfático ao alertar os países europeus sobre um detalhe que costuma passar despercebido nos debates sobre segurança alimentar: “Se há uma disputa por alimentos e uma que a Europa é robusta o suficiente para lidar, o que precisamos ter em mente é: nessa situação, de quem estamos tirando comida ao comprarmos? Essa é uma situação em que as pessoas mais vulneráveis pagam o preço mais alto, em nações em desenvolvimento que não podem se dar ao luxo de acompanhar.”

O Programa Mundial de Alimentos da ONU estima que as consequências combinadas do conflito no Oriente Médio poderiam levar 45 milhões de pessoas a mais à fome aguda em 2026. Na Ásia e no Pacífico, a insegurança alimentar deve crescer 24%, o maior aumento relativo de qualquer região.