Resíduo tratado fornece matéria orgânica, nitrogênio e fósforo, mas aplicação no campo exige análises e acompanhamento técnico

Durante décadas, grande parte do lodo retirado das estações de tratamento de esgoto seguiu para aterros sanitários. Agora, empresas e pesquisadores tentam transformar esse resíduo em uma fonte de nutrientes para as lavouras.

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Quando tratado e aprovado em análises químicas e microbiológicas, o material passa a ser chamado de biossólido. Ele pode fornecer matéria orgânica, nitrogênio e fósforo ao solo, reduzindo parte da necessidade de fertilizantes minerais.

A alternativa ganhou importância diante da dependência brasileira de insumos importados e dos conflitos internacionais que afetaram preços e entregas. No entanto, especialistas alertam: não basta retirar o lodo da estação e espalhá-lo na propriedade.

O material precisa passar por tratamento, controle de patógenos e avaliação de substâncias potencialmente tóxicas. Além disso, a dose deve considerar as características do biossólido, do solo e da cultura.

Economia pode chegar a 50%, segundo empresa

Uma das companhias que já exploram esse mercado é a Tera Ambiental, especializada na reciclagem de efluentes urbanos e industriais.

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Segundo Lívia Baldo, diretora da empresa, estudos realizados com o fertilizante orgânico produzido pela Tera indicaram redução inicial de aproximadamente 30% na adubação mineral, com a aplicação de cerca de cinco toneladas por hectare.

Com o uso contínuo e o aumento da fertilidade do solo, a economia pode se aproximar de 50%, principalmente em nutrientes como nitrogênio e fósforo, afirma a executiva.

Os percentuais, porém, correspondem aos resultados informados pela própria empresa. O desempenho pode variar conforme a composição do produto, a análise do solo, a cultura, o clima e o histórico de manejo da área.

A companhia mantém uma parceria com a Orizon, administradora do aterro sanitário de Paulínia, no interior de São Paulo. No ecoparque instalado no município, são produzidas cerca de 1,6 mil toneladas mensais de fertilizantes orgânicos.

A empresa também administra efluentes recebidos pela Companhia de Saneamento de Jundiaí e processa resíduos provenientes de outras estações e atividades licenciadas.

Os produtos são destinados a cultivos como cana-de-açúcar, café, citros, frutas e hortaliças, além do paisagismo. A companhia também relata testes em soja, milho, tomate, banana e macadâmia.

Lodo pode fornecer nitrogênio, mas nem sempre repõe potássio

O potencial agronômico varia de acordo com a origem e o tratamento do material. Por isso, não existe uma recomendação única para todas as propriedades.

Cristiano Andrade, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, explica que fontes orgânicas podem substituir totalmente a adubação mineral nitrogenada em determinadas condições. Entretanto, nem todo lodo apresenta quantidade suficiente de potássio.

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No caso do fósforo, o efeito tende a aparecer de forma gradual. Aplicações sucessivas em uma mesma área podem elevar a disponibilidade do nutriente no solo e gerar economia na adubação fosfatada no médio e no longo prazo.

Pesquisas da Embrapa também mostram que o lodo possui composição predominantemente orgânica, mas pode apresentar concentrações variáveis de nutrientes e de elementos potencialmente tóxicos. Dessa forma, a análise de cada lote é indispensável.

O produtor não pode aplicar lodo bruto na lavoura

A Resolução nº 498 do Conselho Nacional do Meio Ambiente, o Conama, estabelece os critérios para transformar o lodo sanitário em biossólido e destiná-lo ao solo.

A norma exige avaliação do potencial agronômico, da presença de substâncias químicas, da qualidade microbiológica e da redução da atratividade de vetores. Também determina análises periódicas e rastreabilidade entre a origem do material e a área que recebeu a aplicação.

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Além disso, cada área deve ter um projeto assinado por profissional habilitado. O documento precisa definir a dose, o modo de aplicação, as medidas de proteção do solo e da água e os cuidados de higiene e segurança.

O lodo que não atender aos limites estabelecidos deve receber outra destinação ambientalmente adequada.

Classe do biossólido determina onde ele pode ser usado

A legislação divide os biossólidos em classes conforme a qualidade microbiológica e o tratamento usado para reduzir patógenos.

O biossólido Classe A possui menos restrições. Mesmo assim, quando aplicado em alimentos consumidos crus cuja parte comestível tenha contato com o solo, deve ser respeitado um intervalo mínimo antes da colheita.

Já o Classe B não pode ser utilizado no cultivo de produtos alimentícios consumidos crus. Para outras culturas, pastagens, forrageiras e árvores frutíferas, existem prazos obrigatórios entre a aplicação, a colheita e o pastejo.

A norma também proíbe o uso de lodo classificado como perigoso ou proveniente de estações que atendem estabelecimentos de saúde, portos e aeroportos.

Resíduo deixa de sair da propriedade

O aproveitamento também começa a avançar dentro de cadeias agroindustriais que geram resíduos e, ao mesmo tempo, compram fertilizantes.

A catarinense Quattro T realizou o desassoreamento de uma lagoa de decantação com 11,5 mil metros quadrados para uma agroindústria do Paraná. Segundo Eduardo Rotta Lovato, diretor de operações da empresa, o processo reduziu em 61% o volume de lodo em poucos dias.

O biossólido obtido permaneceu na propriedade e passou a ser utilizado como insumo em uma área agrícola próxima. Dessa maneira, a agroindústria reduziu tanto o custo de transporte e descarte quanto a compra de fertilizantes.

A técnica combinou dragagem hidráulica com geoformas, bolsas de tecido que separam a água dos sólidos. De acordo com a companhia, o trabalho recuperou 8.886 metros cúbicos de água e evitou a emissão de 1.352 toneladas de gás carbônico equivalente.

Modelo do Chile pode inspirar o Brasil

A francesa Veolia começou a testar uma solução semelhante em Blumenau, em Santa Catarina. O projeto brasileiro ainda opera em pequena escala, mas a empresa enxerga potencial de expansão conforme aumentem a pressão regulatória e o custo de descarte em aterros.

No Chile, a companhia participa da concessionária Águas Andinas, que opera biofábricas na região de Santiago. Nessas unidades, os resíduos do tratamento são aproveitados para produzir água de reúso, energia, biometano e insumos agrícolas.

Um dos fertilizantes feitos com biossólidos tem meta de superar 25 mil toneladas anuais no médio prazo, segundo documentos da Águas Andinas.

Potencial existe, mas adoção depende de controle

O Brasil registrou 33 biofertilizantes desenvolvidos por 17 empresas entre 2019 e junho de 2026, segundo dados atribuídos ao Ministério da Agricultura. O levantamento, contudo, não informa quantos utilizam lodo como matéria-prima.

Portanto, o número mostra o avanço geral dos insumos de base orgânica, mas ainda não permite medir o tamanho específico do mercado de produtos derivados do esgoto.

Para o agricultor, a principal vantagem está na possibilidade de complementar a adubação mineral e melhorar a matéria orgânica do solo. Já para as empresas de saneamento e agroindústrias, o processo transforma uma despesa de descarte em produto ou economia.