Estudo publicado na "Global Change Biology" revela que o Código Florestal, sozinho, evitaria apenas metade do desmatamento futuro. Especialistas defendem a expansão do acordo para o Cerrado

A Moratória da Soja da Amazônia, um dos mais bem-sucedidos acordos ambientais do mundo, enfrenta sua maior crise desde a criação, em 2006. No início de 2026, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), que reúne as maiores processadoras e exportadoras do grão do país, anunciou sua saída do pacto voluntário.

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O movimento esvazia o acordo que, desde 2008, impede a compra de soja de áreas desmatadas no bioma Amazônia. A decisão ocorre na contramão de evidências científicas que comprovam a eficácia da Moratória e em meio a pressões políticas que visam restringir seus benefícios.

Sucesso comprovado e risco iminente

Dados do monitoramento oficial mostram que, entre 2009 e 2022, a área plantada de soja na região amazônica cresceu mais de 300%, enquanto o desmatamento vinculado à cultura caiu 69%. O mecanismo também criou um sistema robusto de rastreabilidade da cadeia produtiva.

Apesar do sucesso, o governo do Mato Grosso editou um decreto para limitar benefícios fiscais a empresas que adotem critérios além da lei, como os da Moratória. A justificativa é que o Código Florestal seria suficiente para garantir a sustentabilidade. A ciência, no entanto, contesta essa visão.

Ciência mostra que código florestal é insuficiente

Um estudo de modelagem publicado na revista Global Change Biology demonstra que a aplicação rigorosa do Código Florestal evitaria apenas 50% do desmatamento total projetado para a expansão agropecuária até 2050.

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“Os resultados são claros. Precisamos e devemos implementar o Código Florestal. Mas ele sozinho não garante uma produção livre de desmatamento e alinhada com mercados exigentes, como o europeu”, afirma o pesquisador líder do estudo. O desmatamento zero também é crucial para que o Brasil cumpra o Acordo de Paris e a Declaração de Glasgow.

Expansão para o cerrado é o caminho, não o fim

Em vez de abandonar a Moratória, especialistas defendem sua ampliação. Uma simulação publicada na Science Advances projetou os efeitos da extensão do acordo para o bioma Cerrado. Os resultados indicam que, mesmo com a moratória em ambos os biomas, a produção brasileira de soja continuaria a atender à demanda global até 2050, com uma redução de apenas 2% na área plantada.

“Proteger a vegetação nativa é o melhor seguro para a agricultura contra os impactos das mudanças climáticas”, ressalta o especialista. “Secas prolongadas e eventos extremos já afetam a produtividade, confirmando a vulnerabilidade do setor.”

O esvaziamento da Moratória da Soja representa um risco reputacional e ambiental desnecessário para o agronegócio brasileiro. A ciência aponta que o caminho para a sustentabilidade e a liderança global do país passa pelo fortalecimento de acordos multissetoriais, não pelo seu abandono.

Diante das crises climática e de biodiversidade, a decisão final entre desmantelar um mecanismo de comprovada eficácia ou expandi-lo para proteger outros biomas críticos não é técnica, mas política.