Pesquisadores da Embrapa Instrumentação (SP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram uma tecnologia que aumenta a sobrevivência do fungo Trichoderma harzianum em fertilizantes minerais. A solução utiliza um revestimento biodegradável aplicado diretamente nos grânulos, o que permite a aplicação simultânea de insumos químicos e biológicos no campo.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
Granulos sem e com revestimento
Granulos sem e com revestimento. Foto: Yasmin Nunes/Embrapa

O avanço resolve um dos principais entraves da agricultura moderna: a incompatibilidade entre fertilizantes químicos e microrganismos benéficos. Com a nova formulação, o fungo mantém sua viabilidade durante o armazenamento e passa a ser liberado gradualmente no solo, ampliando sua eficácia agronômica.

Revestimento biodegradável protege microrganismo

A equipe encapsulou o Trichoderma harzianum em uma matriz polimérica à base de carboximetilcelulose, reforçada com nanocristais de celulose. Esse material forma uma película protetora ao redor dos esporos e evita danos causados por fatores como calor, radiação solar e contato direto com fertilizantes.

Testes mostraram que, após três meses em temperatura ambiente, os esporos encapsulados mantiveram alta taxa de sobrevivência. Já os não encapsulados perderam até mil vezes sua vitalidade no mesmo período.

Fungos aumentam produtividade agrícola

Amplamente utilizado como bioinsumo, o Trichoderma harzianum atua no controle de doenças, estimula o crescimento das plantas e melhora a absorção de nutrientes. Apesar do potencial, a baixa resistência fora do ambiente ideal limita seu uso em larga escala.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
EncapsulamentoTrichoderma_Filme de CMC e nanocelulose contendo os esporos de Trichoderma harzianum
Filme de CMC e nanocelulose contendo os esporos de Trichoderma harzianum. Foto: Yasmin Nunes/Embrapa

Substâncias presentes em fertilizantes, como ureia e fosfato monoamônico (MAP), provocam estresse osmótico, alteram o pH e comprometem a sobrevivência dos microrganismos. Isso reduz a eficiência dos inoculantes biológicos e dificulta sua adoção no campo.

Liberação gradual melhora eficiência no campo

O novo revestimento funciona como um “escudo” microscópico e garante a liberação controlada do fungo no solo. Esse processo favorece a colonização da rizosfera, região próxima às raízes, antes da chegada de patógenos, criando uma barreira biológica natural.

Além disso, o revestimento também regula a liberação do fertilizante químico. Com a disponibilidade prolongada de nutrientes, o produtor reduz a necessidade de reaplicações, diminui custos operacionais e minimiza perdas ambientais, como eutrofização e emissão de gases de efeito estufa.

Bioeconomia e escala comercial

A tecnologia utiliza materiais de baixo custo e alinhados à bioeconomia circular. A carboximetilcelulose tem ampla disponibilidade, enquanto os nanocristais de celulose podem ser produzidos a partir de resíduos agrícolas.

Imagem: Embrapa

O próximo passo envolve a validação em diferentes culturas e condições de campo, além da escalabilidade para uso comercial.

Um exemplo prático: em culturas como soja e milho, o uso conjunto de fertilizante e bioinsumo em uma única aplicação pode reduzir operações no campo e aumentar a eficiência nutricional e biológica da lavoura.