Resumo da notícia
- A máscara ZELP Sense mede continuamente o metano liberado por bovinos em condições reais, coletando o ar próximo às narinas e transmitindo dados para análise digital.
- O equipamento foi testado por mais de 20 mil horas em campo, permitindo medições precisas e viáveis do metano emitido por cada animal durante suas atividades normais.
- Medições individuais ajudam a entender como genética, alimentação e manejo influenciam as emissões, facilitando estratégias para reduzir o impacto ambiental da pecuária.
Uma espécie de máscara colocada na cabeça dos bois está transformando em números algo que normalmente desaparece no ar: o metano liberado por cada animal.
Chamada de ZELP Sense, a tecnologia mede continuamente as emissões de bovinos em condições reais de criação. O equipamento coleta o ar próximo às narinas, calcula a quantidade de metano e transmite os dados para uma plataforma digital.
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A aparência chama atenção. O dispositivo envolve parte da cabeça do boi e mantém um sistema de coleta próximo às narinas. Apesar disso, foi desenvolvido para permitir que o animal continue comendo e bebendo durante a medição.
Por trás da imagem curiosa existe uma questão importante para pesquisadores e pecuaristas: descobrir quanto cada animal realmente emite e como genética, alimentação e manejo interferem nesse resultado.
Como a máscara mede o metano

O equipamento posiciona um dispositivo de coleta sobre as narinas do bovino. O sistema analisa a concentração de metano presente no ar expelido e também mede o fluxo de ar.
Ao combinar essas informações, consegue estimar as emissões individuais ao longo do dia.
“Essa meia contém um dispositivo de coleta, basicamente um bocal, posicionado acima da narina do animal e que coleta amostras do ar que está saindo”, explicou Hayden Montgomery, diretor do programa de Agricultura do Global Methane Hub, em entrevista à ABC Rural.
O Global Methane Hub é uma organização internacional voltada ao financiamento de soluções para redução das emissões de metano e financiou o desenvolvimento da tecnologia.
Segundo Montgomery, a combinação da concentração do gás com o fluxo de ar permite calcular quanto metano o bovino libera.
Tecnologia passou por mais de 20 mil horas de testes

Antes do lançamento comercial, o sistema acumulou mais de 20 mil horas de utilização em condições reais, segundo dados divulgados pela ZELP, empresa britânica responsável pelo equipamento.
Esse dado vem da própria fabricante e, portanto, deve ser considerado uma informação técnica fornecida pela empresa.
Ainda assim, testar o equipamento no campo é um ponto importante. Medir metano em ambiente controlado é diferente de acompanhar bovinos enquanto caminham, comem, bebem e interagem normalmente.
“Pela primeira vez, podemos medir com precisão as emissões do gado a pasto a um custo que não é proibitivo”, afirmou Montgomery à ABC Rural.
O avanço pode ser especialmente relevante para sistemas extensivos, nos quais acompanhar individualmente as emissões representa um desafio maior.
Por que medir cada boi separadamente?
Nem todos os bovinos produzem a mesma quantidade de metano.
Animais da mesma raça, submetidos a condições semelhantes de criação, podem apresentar diferenças relacionadas à genética, alimentação, eficiência digestiva e outros fatores.
É justamente essa variação individual que interessa aos pesquisadores.
Com medições feitas animal por animal, torna-se possível comparar dietas, sistemas de manejo e estratégias destinadas à redução de metano.
Além disso, os dados podem contribuir para estudos de melhoramento genético que procuram identificar bovinos naturalmente menos emissores.
Adam Coffey, pecuarista em Queensland e vice-presidente da Cattle Australia, entidade que representa produtores de bovinos do país, disse à ABC Rural que ferramentas desse tipo podem ajudar a verificar se mudanças realizadas dentro das propriedades realmente produzem resultados.
Na prática, a tecnologia pode transformar uma estimativa feita sobre o rebanho em informação individual sobre cada bovino.
Metano é produzido durante a digestão
O metano faz parte do processo natural de digestão dos ruminantes.
Microrganismos presentes no rúmen permitem que bovinos aproveitem alimentos ricos em fibras, principalmente as pastagens. Durante a fermentação entérica, entretanto, ocorre a formação do gás.
Grande parte desse metano é eliminada pela boca e pelas narinas.
Segundo a CSIRO, agência nacional de ciência da Austrália e uma das principais instituições de pesquisa do país, ruminantes como bovinos, ovinos e caprinos respondem por mais de 10% das emissões totais de gases de efeito estufa australianas.
Esse peso explica por que o país investe em tecnologias para medir e reduzir o metano produzido pela pecuária.
Alga conseguiu reduzir metano em até 98% em testes
Medir é apenas uma parte dessa corrida tecnológica.
Pesquisadores também estudam mudanças na alimentação capazes de reduzir a formação do gás dentro do rúmen.
Entre as alternativas está a Asparagopsis, uma alga vermelha encontrada na Austrália.
Dados do Departamento de Mudanças Climáticas, Energia, Meio Ambiente e Água do governo australiano mostram que compostos derivados da alga conseguiram reduzir as emissões de metano em até 98% em bovinos confinados sob condições específicas de pesquisa.
O número, entretanto, não deve ser aplicado automaticamente a qualquer sistema de produção.
Em vacas leiteiras mantidas a pasto, os resultados citados pelo governo australiano apontaram redução de aproximadamente 30%.
Essa diferença mostra por que medir os animais em condições reais pode ser importante. O resultado observado em laboratório ou confinamento nem sempre se repete com a mesma intensidade no campo.
A máscara mede, mas não reduz o metano
Há ainda uma distinção importante.
O ZELP Sense apresentado atualmente tem como função medir as emissões. O equipamento, sozinho, não faz o bovino produzir menos metano.
A informação coletada é que pode ajudar pesquisadores e produtores a avaliar se determinada estratégia funciona.
Os dados individuais permitem que pesquisadores e produtores acompanhem os efeitos de uma nova dieta, de suplementos, de mudanças no manejo ou da seleção genética.
Assim, a imagem de um boi usando uma máscara pode parecer apenas uma curiosidade tecnológica. No entanto, o que interessa está nos números produzidos pelo equipamento.
Quanto mais precisa for a medição, maior será a capacidade de descobrir quais soluções realmente funcionam fora dos laboratórios.
E a pecuária começa a conseguir responder individualmente a uma pergunta que durante muito tempo foi difícil medir no pasto: afinal, quanto metano cada boi produz?