Pesquisa inédita da Embrapa aplica tecnologia italiana de mapeamento geográfico para identificar fazendas aquícolas com alto risco de contaminação por parasitas
peixes tambaqui em uma rede
Foto: Felipe Rosa/Embrapa

Uma pesquisa inédita no Brasil revelou que pisciculturas localizadas em uma mesma bacia hidrográfica podem contaminar umas às outras por meio da água, mesmo a grandes distâncias. O estudo, conduzido pela Embrapa Pesca e Aquicultura em parceria com um instituto veterinário italiano, aplicou pela primeira vez no país um protocolo baseado em Sistemas de Informação Geográfica (SIG) para mapear o risco de propagação de doenças entre fazendas aquícolas. Os resultados foram publicados na revista científica Frontiers in Marine Science.

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Peixes em uma rede de pesca
Foto: Jefferson Christofoletti/Embrapa

A ferramenta gera mapas que classificam cada propriedade aquícola em nível alto, médio ou baixo de risco sanitário, de acordo com sua posição no curso d’água em relação a focos de infecção conhecidos. O objetivo é viabilizar um sistema de alerta precoce capaz de orientar ações de contenção antes que surtos se alastrem pela cadeia produtiva.

Como funciona o mapeamento

O protocolo foi desenvolvido pelo Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), da Itália. A instituição tem histórico consolidado no controle de emergências sanitárias animais, incluindo a influenza aviária. E foi adaptado para a realidade da aquicultura brasileira em parceria com a Embrapa.

A lógica do sistema é simples, mas poderosa: a água é um vetor natural de transmissão de patógenos. Quando uma propriedade está posicionada a montante de outra e existe conectividade hídrica entre elas, o fluxo do rio pode carregar ovos, cistos, bactérias ou vírus de um viveiro ao seguinte. O protocolo analisa exatamente essa rede de conexões.

“A saúde na aquicultura não depende apenas do que acontece dentro de uma única fazenda. Ela também está ligada à rede hidrográfica, ao fluxo de água e à forma como o espaço de produção é organizado no território”, explica o geógrafo Rodrigo Macario, do IZSVe.

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O mapeamento começa pela identificação e georreferenciamento de todas as propriedades aquícolas em uma bacia hidrográfica. Em seguida, calcula-se a conectividade hídrica entre elas. Com base nessa análise, cada fazenda recebe uma classificação de risco:

  • Alto risco: propriedades a jusante de um foco de infecção confirmado, diretamente conectadas pelo fluxo da água
  • Médio risco: propriedades em áreas de conectividade indireta ou sazonal
  • Baixo risco: propriedades sem conectividade hídrica com focos conhecidos da doença

O parasita escolhido para o teste

A validação do protocolo no Brasil utilizou como objeto de estudo o acantocéfalo, um dos parasitas mais comuns em tambaquis (Colossoma macropomum), principal espécie da piscicultura amazônica. A escolha se deveu à abundância de dados disponíveis e à relevância econômica da enfermidade. Em 2015, houve um surto significativo no estado de Rondônia.

Os pesquisadores conhecem relativamente bem o ciclo de vida do parasita: os peixes infectados eliminam os ovos nas fezes, pequenos crustáceos chamados ostracodes ingerem esses ovos e, em seguida, transmitem o parasita aos peixes saudáveis que se alimentam deles. O ciclo completo dura cerca de dois meses.

O impacto econômico é expressivo. “Peixes parasitados deixam de ganhar até 20% do peso esperado em comparação com animais saudáveis, o que, em escala comercial, representa perda considerável de produtividade”, destaca Marta Ummus, geógrafa da Embrapa Amazônia Oriental e uma das líderes do estudo. Para produtores da Amazônia, que já enfrentam desvantagens logísticas frente a outras regiões, cada ponto percentual de perda pesa no orçamento.

Risco ampliado na Amazônia

Na Bacia do Rio Machado, em Rondônia, área escolhida para o estudo de caso, os pesquisadores identificaram uma particularidade preocupante: produtores da região costumam escavar tanques de piscicultura diretamente no leito dos igarapés. Isso cria uma conectividade hídrica praticamente permanente entre as propriedades, ampliando significativamente o risco de propagação de patógenos.

“Se uma propriedade está a montante de outra e há conectividade hídrica entre elas, o fluxo de água carrega consigo ovos, cistos, bactérias ou vírus”, alerta a pesquisadora Patricia Oliveira Maciel, especialista em sanidade da Embrapa Pesca e Aquicultura.

Obstáculo: falta de dados oficiais

Um dos principais entraves encontrados pela equipe foi a dificuldade de obter dados primários junto aos órgãos estaduais de defesa sanitária animal. Por questões de segurança e de política institucional, os responsáveis não disponibilizaram as informações georreferenciadas sobre a ocorrência de doenças. Os pesquisadores precisaram recorrer a dados secundários extraídos de artigos científicos publicados.

A situação expõe uma lacuna crítica na política de vigilância sanitária do país. “Precisamos de uma política de dados mais transparente”, defende Ummus. “Na Itália, há um controle muito maior no georreferenciamento de pisciculturas e seus problemas de sanidade. Aqui, há muitas criações funcionando na informalidade, o que prejudica o acesso a dados espaciais e sanitários.”

Na União Europeia, as normas sanitárias impõem obrigações específicas aos produtores aquícolas: em casos de mortalidade anormal ou de queda significativa na produção sem causa conhecida, eles devem acionar um veterinário, que pode encaminhar o caso às autoridades oficiais.

Um protocolo universal

Embora os pesquisadores tenham testado o protocolo SIG com foco no acantocéfalo, a ferramenta permanece neutra em relação ao agente infeccioso. A mesma estrutura metodológica permite monitorar qualquer patógeno transmitido pela água, desde que os usuários ajustem parâmetros como tempo de sobrevivência no ambiente, período de incubação e dose infectante mínima.

Peixe Tambaqui fora da agua não mão se uma pessoa
Foto: Alily Melo/Embrapa

“Não se trata de uma solução para um problema específico, mas de uma plataforma metodológica que pode ser empregada continuamente, adaptada a diferentes contextos e patógenos, e incorporada a políticas públicas de sanidade aquícola”, afirma Ummus.

Próximos passos

Para que a ferramenta chegue efetivamente ao campo, os pesquisadores apontam três desafios a superar: o acesso restrito a dados primários dos órgãos estaduais; a informalidade de uma parcela expressiva dos produtores aquícolas amazônicos, que operam sem licenciamento ambiental ou registro oficial; e a fragmentação da cadeia produtiva, que dificulta a rastreabilidade sanitária entre os elos de produção de alevinos, engorda, abate e processamento.

“A aquicultura brasileira tem potencial para crescer de forma sustentável e competitiva, mas isso passa necessariamente pelo fortalecimento dos sistemas de vigilância sanitária. E, nesse campo, a inteligência geográfica pode ser uma aliada poderosa. Desde que haja dados, política pública e vontade institucional para colocá-la em prática”, conclui Ummus.

A revista Frontiers in Marine Science publicou a pesquisa. E resulta de acordo de cooperação técnico-científica entre a Embrapa e o Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), da Itália.