Resumo da notícia
- Um produtor de café em Minas Gerais teve prejuízo ao vender sua colheita antes da alta recorde de preços, refletindo a volatilidade inédita do mercado cafeeiro em 2025.
- Três anos seguidos de clima extremo reduziram a produção global, especialmente no Brasil e Vietnã, levando o preço do café a dobrar e estoques mundiais a níveis críticos.
- Fundos de investimento especulam no mercado de café, aumentando a instabilidade e criando incertezas sobre os preços futuros, antes regulados por oferta e demanda tradicionais.
Um produtor de café brasileiro precisou de atendimento hospitalar após descobrir que vendeu sua colheita um dia antes do preço disparar ainda mais. O caso ilustra a volatilidade sem precedentes que domina o mercado cafeeiro mundial em 2025.
Mauri Oliveira, 66 anos, proprietário da fazenda Campestre em Varginha (MG), compartilha a história durante os tradicionais passeios a cavalo sob a lua cheia que reúne cafeicultores da região. As conversas agora giram exclusivamente em torno dos preços extraordinários e suas causas.
“Teríamos preferido não perder 40% da safra por causa da seca e que os preços não estivessem tão altos”, afirma Noemia Oliveira, 36 anos, filha de Mauri e agrônoma responsável pela propriedade. “Um mercado estável com o saco a 2.000 reais já garante bom lucro. A 3.000 reais, não temos café para colher.”
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Três anos de clima adverso esgotam estoques mundiais
O preço do café atingiu US$ 445 por saca de 60 kg na Bolsa de Nova York em maio de 2025. O dobro do valor registrado um ano antes. Especialistas apontam três fatores principais para a alta histórica.
Primeiro, três anos consecutivos de safras ruins esgotaram os estoques globais. A oferta mundial mal conseguiu atender à demanda em 2024. Secas prolongadas, ondas de calor e geadas cada vez mais frequentes reduziram a produção brasileira e vietnamita em 10 milhões de sacas — equivalente a 6% do consumo global.
Brasil e Vietnã respondem juntos por metade da produção mundial de café. O Brasil sozinho abastece um terço do mercado global, posição que mantém há 150 anos.
Na fazenda Campestre, a família Oliveira passou mais de 100 dias sem chuva em 2024. Em janeiro de 2025, ficaram 20 dias sem uma gota d’água. A produção, estimada em 90 sacas por hectare, caiu para 65.
“Antes, chovia na hora certa, a partir de agosto”, explica Mauri. “Agora a chuva vem mais tarde e o sol está muito quente. Em 2021, uma geada atingiu e arruinou muita gente porque todos achavam que não haveria mais geadas.”
Fundos de investimento transformam mercado tradicional
O segundo fator que pressiona os preços representa uma mudança estrutural no setor. Fundos de investimento descobriram o café como ativo especulativo, distorcendo um mercado historicamente regulado por oferta, demanda e estoques.
“Ninguém no mundo sabe o que acontecerá nos próximos meses”, alerta Chico Pereira, 58 anos, gerente de marketing da cooperativa Cocatrel, que movimentou 2,3 milhões de sacas em 2024. “Grandes fundos podem decidir amanhã que outra commodity tem melhor desempenho e migrar para ouro ou petróleo. Isso causaria uma queda muito acentuada.”
Naiara Oliveira, 33 anos, filha mais nova de Mauri e responsável pelas finanças da fazenda, acabou de fazer um curso para entender melhor as flutuações internacionais. “Quem ganha muito dinheiro são os que negociam na bolsa”, observa ela, que acompanha os preços diariamente pelo celular.
Mateo Martínez, fundador da Xorxios, empresa que atua nos principais mercados globais de café especial, confirma a distorção. “Tradicionalmente, a bolsa refletia oferta e demanda, mas isso não acontece mais. Os fundos de investimento estão injetando muito dinheiro no café e distorcendo os preços. Não há justificativa técnica para esses aumentos.”
Guerra comercial adiciona volatilidade extrema
O terceiro fator surgiu em agosto de 2024, quando os Estados Unidos, principal destino do café brasileiro, impuseram tarifas de 50%. As exportações brasileiras para o mercado americano caíram pela metade da noite para o dia. A Alemanha emergiu como alternativa imediata.
Qualquer choque desse tipo repercute por toda a cadeia produtiva, da fazenda da família Oliveira às cafeterias de Madri, Malmö ou Kyoto.
A incerteza generalizada provocou mudanças no comportamento do mercado. Produtores correm para enviar cargas às cooperativas em busca de segurança, enquanto multiplicam-se relatos de roubos de café nas fazendas.
China impulsiona demanda global
A descoberta do café pela China, onde o chá dominava o mercado de bebidas, multiplicou a demanda global. O país já figura como sexto maior consumidor mundial, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Na Espanha, o consumo per capita atingiu 550 xícaras anuais, duas por dia. O café registrou o maior aumento de preço entre todas as bebidas no país em 2025: alta de 15% entre janeiro e julho, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).
Apesar dos preços elevados, o consumo continua crescendo. De cada 100 xícaras consumidas na Espanha, 66 acontecem em casa e 34 em bares e cafeterias.
Nova geração moderniza produção brasileira
Nas fazendas brasileiras, a nova geração implementa inovações para enfrentar os desafios climáticos. Noemia Oliveira incorporou práticas de agricultura regenerativa na propriedade da família: fertilizantes naturais, menos pesticidas, plantas intercaladas que fornecem nitrogênio e capturam dióxido de carbono.
“Queríamos ir além do tradicional”, explica a agrônoma. “Agora sabemos que essa mistura de plantas entre as fileiras de cafeeiros nos ajuda a bloquear o vento, evitar danos de pragas e reduzir o risco de doenças.”
A mecanização trouxe ganhos significativos. Uma colheitadeira substitui 50 trabalhadores diaristas na propriedade Pinheiros, de André Casotti Brito, 31 anos. A máquina opera 24 horas por dia em três turnos, descansando apenas aos domingos.
Carlos Henrique de Carvalho, 69 anos, agrônomo da Embrapa (empresa pública de pesquisa agrícola), desenvolve novas variedades de café mais resistentes. O laboratório em Varginha criou, por meio de clonagem, 40 variedades que vivem mais, produzem mais e resistem melhor a fungos.
“Estamos procurando variedades que suportem melhor o estresse térmico”, explica Carvalho. “Mas quando atinge 38 graus Celsius, não há nada que possamos fazer.”
Café especial ganha prestígio na Europa
Do outro lado do Atlântico, o café vive momento diferente. Na Espanha, consumidores aprendem a apreciar a bebida sem açúcar.
“Até pouco tempo atrás, era uma bebida amarga mascarada com açúcar e leite”, observa Marisa Baqué, provadora de café e dona do BB’s Café no País Basco. “Muito desse amargor vem de métodos de preparo ruins e torra excessiva. Agora, mais de 90% da clientela aprende a descobrir as notas do café sem açúcar.”
O segmento de café especial cresceu 15% na Espanha em 2023. Especialistas estimam crescimento anual de 10% nos próximos anos. As vendas online de café personalizado, com rastreabilidade completa da origem, cresceram 20% em 2023 e mantiveram trajetória ascendente em 2024 e 2025.
Marcos Zoya, formador de baristas que já treinou cerca de 700 profissionais desde 2015, acompanhou a sofisticação crescente dos consumidores. “Hoje os jovens perguntam se o café foi fermentado com ou sem oxigênio, por 24 ou 48 horas. Estamos numa fase de descoberta.”
Mercado concentrado, futuro incerto
Na Espanha, dois gigantes ainda dominam o mercado: Nestlé (Nescafé, Nespresso) controla 29,6%; JDE (Jacobs Douwe Egberts), com marcas como Saimaza e Marcilla, detém 9,5%.
O café pronto para beber em todas as variedades — sem açúcar, com proteína, descafeinado — cresce 3,7% ao ano no país.
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Mateo Martínez, da Xorxios, prevê que os preços cairão em dois ou três anos. “A questão é se as pessoas podem continuar pagando mais pelo café de qualidade. O senso comum me diz que já estamos num ponto de ruptura.”
A indústria absorveu quase todo o custo aumentado até agora, mas a crise prolongada pode tornar inevitável que novos aumentos afetem ainda mais os consumidores.
Enquanto isso, na fazenda Campestre, a família Oliveira finaliza os preparativos para a colheita. Milhares de pés de café, mais altos que um adulto, sobem em fileiras sinuosas por colinas suaves ao longo de 150 hectares.
Mauri Oliveira e seus amigos cafeicultores mantêm o ritual mensal: a cada lua cheia, cavalgam pelas trilhas conversando sobre preços, clima e incertezas. A história prova que ninguém deixa de beber café por causa do preço. As pessoas beberão menos, ou de qualidade inferior — mas continuarão bebendo.