Produtos substituem proteína animal e reduzem custos. Descoberta impulsiona a aquicultura sustentável no Brasil
Foto: Guilherme Maragno/Embrapa

Um avanço científico promete revolucionar a nutrição animal na piscicultura brasileira. Pesquisas realizadas pela Embrapa Meio Ambiente, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), demonstram que as farinhas das folhas de amoreira e ora-pro-nóbis são poderosos ingredientes para reforçar a imunidade de peixes e reduzir a dependência de proteínas de origem animal, como a farinha de peixe e o farelo de soja.

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Os estudos, conduzidos com as espécies pacu e tilápia-do-Nilo, mostram que a inclusão moderada dessas farinhas nas rações resulta em melhor digestibilidade, fortalecimento do sistema imunológico e baixo impacto ambiental, pavimentando o caminho para uma aquicultura mais sustentável e competitiva.

Imunidade reforçada e alta sobrevivência contra doenças

Além do excelente perfil nutricional, os pesquisadores testaram o efeito prático das farinhas na saúde dos animais. Pacus e tilápias alimentados com rações contendo 6% de farinha de amoreira e 32% de ora-pro-nóbis apresentaram uma resposta imunológica superior e maior resistência à bactéria Aeromonas hydrophila, uma das principais causas de perdas na piscicultura mundial.

Os resultados foram expressivos: a taxa de sobrevivência dos pacus desafiados pela bactéria chegou a 100%, enquanto as tilápias do grupo alimentado com a dieta vegetal atingiram 66,7% de sobrevida. “Os peixes também mostraram parâmetros sanguíneos mais equilibrados, redução de estresse e boa condição corporal, indicativos de saúde e nutrição adequada”, explicou Márcia Ishikawa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

Vantagens nutricionais, econômicas e ambientais

De acordo com a doutoranda Patrícia da Silva Dias, autora dos testes, a farinha de ora-pro-nóbis se destacou pela alta digestibilidade de proteína (64,9%). Enquanto a farinha de amoreira teve melhor aproveitamento de lipídios (76,7%). Ambas mantiveram níveis adequados de energia e aminoácidos essenciais.

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“Essas duas plantas oferecem uma alternativa local e econômica para a formulação de rações. Reduzindo a dependência da farinha de peixe e/ou do farelo de soja”, destacou Dias.

A segurança ambiental das farinhas foi atestada em ensaios ecotoxicológicos, sendo classificadas como “praticamente não tóxicas” para organismos aquáticos. Isso segundo padrões da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA).

Futuro sustentável para a piscicultura

Para o professor Fábio Meurer, co-orientador do trabalho, o cultivo da amoreira e do ora-pro-nóbis em pequenas propriedades pode reduzir custos e fortalecer a produção familiar, aproveitando insumos locais.

A inclusão moderada dessas farinhas nas rações comerciais representa, portanto, um marco. “É um avanço na busca por uma piscicultura mais competitiva, sustentável e menos dependente de insumos químicos”, afirma o pesquisador Julio Queiroz, membro da equipe. A descoberta não apenas melhora a saúde dos peixes. Mas também consolida um modelo de produção mais alinhado com as demandas ambientais e econômicas do Brasil.