No coração da Amazônia paraense, uma revolução silenciosa está transformando a vida de comunidades quilombolas. O que antes eram farinhas artesanais produzidas apenas para consumo doméstico, hoje se tornaram produtos de mercado com potencial comercial e alto valor nutricional. A mudança acontece através do Projeto Quirera, uma iniciativa pioneira que prova ser possível unir conhecimento tradicional, tecnologia e sustentabilidade.

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As comunidades quilombolas do nordeste do Pará sempre produziram farinhas diversificadas além da tradicional mandioca. Banana, cará, araruta, pupunha e tucumã eram transformados artesanalmente em alimentos nutritivos. Porém, limitações técnicas restringiam a produção ao âmbito familiar.

“Antes, secar a matéria-prima era um problema, principalmente no inverno. Agora, com os equipamentos, conseguimos manter a produção com menos desperdício”, relata Leiane Nascimento, jovem liderança da agroindústria Atavida.

A transformação começou com a criação da Rede Bragantina de Saberes e Sabores no final dos anos 2000, que reúne agricultores, associações e cooperativas em mais de dez municípios da região Bragantina.

Inovação social: quando a ciência escuta a comunidade

O diferencial do Projeto Quirera, primeira iniciativa de inovação social da Embrapa no Pará, está na metodologia. Ao contrário dos modelos tradicionais de transferência de tecnologia, aqui os saberes locais orientam o desenvolvimento técnico.

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Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

“O conhecimento tradicional teve o mesmo peso da ciência em todo processo. Ouvimos e adaptamos soluções às necessidades locais”, explica Laura Abreu, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e coordenadora do projeto.

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Resultados impressionantes na produção

Os números comprovam o sucesso da abordagem. Onde antes se produziam dez quilos de farinha por semana com altas perdas, hoje são processados até 40 quilos com padrão industrial de qualidade. A produção quadruplicou, as perdas reduziram pela metade e a durabilidade dos produtos aumentou significativamente.

As inovações incluem:

  • Secadores elétricos adaptados com resistências de fritadeiras domésticas
  • Máquinas de fatiar substituindo o corte manual
  • Estufas fechadas, elétricas e solares, desenvolvidas pelas próprias agricultoras
  • Uso de ventiladores e carrinhos de padaria como equipamentos agroindustriais

Farinhas sem glúten com alto valor nutricional

O projeto resgatou cultivos quase extintos como cará e araruta, criando farinhas naturalmente sem glúten com alto valor nutricional. Esses produtos atendem a nichos específicos de mercado e oferecem versatilidade gastronômica, servindo desde panificação até bebidas funcionais.

Para Nazaré Reis, assessora técnica da Rede Bragantina, a mudança de mentalidade foi fundamental: “Se antes pensavam em desmatar, agora plantam e entendem que preservar garante renda e alimentação”.

Modelo replicável para o brasil

O sucesso na região Bragantina demonstra que é possível desenvolver tecnologia social eficiente e de baixo custo. Segundo Mauro Pinto, pesquisador da Embrapa Agrobiologia, “a Embrapa estimula e vem fortalecendo ações que privilegiam a construção coletiva de conhecimentos como estratégia para gerar valor e impactos positivos às comunidades”.

O Projeto Quirera é a primeira iniciativa de inovação social da Embrapa no Pará, desenvolvida em parceria com a Rede Bragantina – Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

O Projeto Quirera exemplifica como a bioeconomia pode funcionar na prática: produtos da floresta agregam valor, comunidades tradicionais mantêm seus territórios preservados e a ciência contribui respeitando conhecimentos ancestrais.

“É possível produzir com tecnologia, sem desmatar, respeitando o tempo das pessoas e da natureza”, reforça Nazaré Reis.

Com os resultados positivos, a Embrapa planeja replicar o modelo em outros territórios tradicionais brasileiros, sempre com adaptações às realidades locais. A meta é multiplicar pequenas agroindústrias comunitárias que garantam dignidade, saúde e conservação florestal.

O projeto prova que inovação não precisa ser cara, mas deve ser útil e replicável. Na Amazônia, uma simples farinha de banana carrega o sabor de uma verdadeira revolução social e ambiental.