Pesquisadores da UEM concluem estudos que prometem revolucionar a cunicultura nacional
Foto: Jose Alvessa/Flickr

Pesquisadores do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá (DZO/UEM) alcançam um marco histórico para a cunicultura brasileira. Após dois anos de trabalho intenso, a equipe consolidou o primeiro protocolo nacional de ordenha de coelhas e agora avança para a produção experimental de um leite artificial para láparos. Um produto até então inexistente no mercado brasileiro.

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A cunicultura enfrenta um desafio histórico: a perda significativa de animais no período de desmame. Os dados revelam uma situação alarmante: embora uma coelha possa produzir até 12 filhotes por ninhada,chegando, em condições ideais, a cerca de 50 desmamados ao ano,a mortalidade entre 30 e 40 dias de vida atinge aproximadamente 20%.

Na Fazenda Experimental de Iguatemi, onde a UEM mantém um rebanho de cerca de 600 animais, incluindo 100 fêmeas matrizes e 50 machos, as perdas chamaram a atenção dos cientistas. O coordenador da cunicultura da UEM, Leandro Castilha, explica o problema central: uma limitação física impede o fornecimento adequado de leite, já que ninhadas podem ter 12, 14 ou 16 filhotes, mas as fêmeas possuem apenas oito tetas.

A ciência por trás da ordenha de coelhas

O principal obstáculo da pesquisa consistia em obter quantidades suficientes de leite natural para análise. O leite da coelha só é liberado mediante estímulo direto do filhote, que ativa a descida por meio de temperatura, sucção e movimentos da língua. Silvio Leite, professor do Departamento de Zootecnia e autor do protocolo, ressalta a complexidade: os pesquisadores precisavam compreender profundamente esse processo para conseguir não apenas a primeira gota, mas volumes capazes de atender às análises laboratoriais.

A equipe da UEM reproduziu de forma controlada todo o processo biológico natural. O estudo aprofundou a compreensão dos mecanismos comportamentais e fisiológicos envolvidos na amamentação, permitindo alcançar volumes suficientes para análises de lactose, aminoácidos, ácidos graxos e vitaminas.

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Leite artificial: a solução para o setor

A equipe consolidou a técnica e agora formula o primeiro leite artificial para láparos produzido no Brasil. Embora Europa, Estados Unidos e alguns países asiáticos já possuam substitutos comerciais, não há nenhuma formulação disponível no Brasil. A universidade pode, portanto, inaugurar essa produção e até patentear a tecnologia.

Foto: Tiago Cabral/Flickr

Castilha demonstra otimismo. A suplementação deverá proporcionar maior lucro ao produtor e maior bem-estar aos animais, que estarão melhor alimentados, solucionando um problema ético ao garantir que todos os animais nascidos sejam desmamados saudáveis e comercializáveis.

A cunicultura como alternativa sustentável

A cunicultura é reconhecida por ser socialmente justa, economicamente viável e ambientalmente correta. A carne de coelho se destaca pelo alto teor de proteínas e baixos níveis de colesterol, além de gerar diversos subprodutos comercializáveis como pele, patas, vísceras e esterco.

Em pequenas áreas e com poucos insumos, os coelhos transformam resíduos vegetais em carne de alto valor nutricional. O ciclo de vida do animal é de 90 dias, desde o nascimento até o abate, o que facilita ainda mais a atividade produtiva.

Mercado em expansão no Paraná

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Paraná possui o terceiro maior plantel de coelhos do país, com cerca de 33 mil animais. O setor, considerado de nicho mas em expansão, abastece desde o mercado de carne até a pesquisa biomédica.

O Brasil produz aproximadamente 242 mil animais por ano, um número que especialistas acreditam poder aumentar significativamente com inovações como o leite artificial. Estimativas apontam que o Brasil abate oficialmente entre 15 e 20 mil coelhos por mês, quantidade considerada baixa para o potencial do setor.

Os cientistas avançam agora para a formulação final, fabricação experimental e testes de aceitação entre os láparos. A pesquisa conduzida pela UEM pode colocar o Brasil na rota de inovação da cunicultura mundial, unindo tecnologia, bem-estar animal e avanço científico.

O trabalho ganhou destaque nacional e internacional, posicionando a universidade paranaense como referência em pesquisa aplicada à produção animal sustentável.