Vale do Ribeira conquista primeira indicação geográfica da palmeira do país e fortalece produção

O Brasil consolida sua posição como maior produtor, consumidor e exportador de palmito do mundo, com cerca de 20 mil hectares cultivados. A pupunheira transformou a cadeia produtiva nacional ao substituir o modelo extrativista predatório por um sistema agrícola sustentável que beneficia milhares de famílias.

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A produtividade média brasileira alcança 4.000 hastes por hectare, com preço médio da haste em torno de R$ 3,70. Nos últimos 20 anos, a área cultivada com pupunheira cresceu exponencialmente no país, impulsionada pela transferência de conhecimento científico e pelas características favoráveis da espécie.

O consumo de palmito de pupunha cultivado no mercado nacional aumentou de 19,5% para 24%, enquanto na região Sul o crescimento atingiu 78%. Entre os principais estados produtores destacam-se São Paulo, Paraná e Bahia, que juntos concentram a maior parte da produção nacional.

Benefícios nutricionais do palmito pupunha

O palmito pupunha oferece alto teor de vitamina A, quantidades significativas de vitamina C e diversos antioxidantes que estimulam o sistema imunológico. Além disso, o alimento se destaca por seu perfil nutricional equilibrado e baixo teor calórico.

O produto contém ótimas quantidades de fibras, potássio e zinco, nutrientes com propriedades sacietogênicas, hipotensivas e estruturais. Entre os principais benefícios estão o auxílio no emagrecimento, prevenção da pressão alta, fortalecimento capilar e promoção da recuperação muscular.

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O ferro e a vitamina C presentes no palmito formam uma combinação fundamental para aumentar a absorção de ferro e prevenir anemia, especialmente importante para vegetarianos. A versatilidade culinária permite que o alimento seja consumido em saladas, massas, lasanhas, risotos e diversas outras preparações.

Palmito pupunha do Vale do Ribeira recebe selo inédito

São Paulo alcança 12 Indicações Geográficas reconhecidas, das quais nove pertencem ao setor agropecuário. A mais recente conquista é a Indicação Geográfica do palmito pupunha do Vale do Ribeira, que destaca o protagonismo regional dois meses após o reconhecimento oficial. Os 22 municípios da área receberam o selo de Identificação Geográfica para o cultivo do palmito pupunha.

O registro posiciona São Paulo entre os principais polos nacionais do produto. A Associação dos Produtores de Pupunha do Vale do Ribeira (Apuvale) representa cerca de 1.800 famílias produtoras e 70 agroindústrias beneficiadas pela certificação.

Claudio de Andrade e Silva, ex-presidente e atual diretor de marketing da Apuvale, destaca que a certificação marca o desenvolvimento regional. “Esta é a única indicação de procedência para palmito no mundo e ratifica um trabalho de longo prazo para uma cultura que transformou a produção local. A região abandonou o extrativismo predatório da palmeira juçara e adotou o manejo agrícola de uma espécie promissora, a pupunheira”, afirma.

A certificação contempla palmito in natura e processado. Com o registro, produtores podem comercializar o produto em diferentes formatos: tolete, rodelas, estirpe, picado, bandas e espaguete, desde que atendam aos critérios estabelecidos pela legislação específica.

Produtor celebra ganhos de credibilidade

Jefferson Souza, produtor de Jacupiranga, vê a Indicação Geográfica como fortalecimento da confiança mercadológica. “A IG trará mais credibilidade e confiança ao produtor, expandindo nossas possibilidades comerciais. Representa um avanço para toda a cadeia produtiva”, destaca.

Jefferson Souza em seu sítio em Jacupiranga, no interior paulista. Foto: Divulgação

O agricultor viveu grande parte da vida na capital paulista. Após a pandemia de Covid-19, ele decidiu recalcular sua trajetória. “Depois da pandemia, minha esposa e eu decidimos mudar nossa forma de viver. Temos um filho que, na época, tinha seis anos, e buscávamos algo além da rotina de apartamento. Pesquisei diferentes culturas e encontrei um sítio à venda que produzia palmito pupunha”, relembra.

O produtor iniciou a produção em 2020 e consolidou o empreendimento Simplesmente Roça, voltado principalmente ao palmito in natura. “Nossa agricultura é familiar e o foco é o palmito in natura, o mais consumido. Minha esposa, nutricionista, sempre comenta que o alimento vai muito além da torta e da salada. Dá para fazer lasanha, espaguete e arroz; tudo com baixo teor de carboidrato, fibras e minerais”, destaca Jefferson.

Produção estadual

Os produtores extraem o palmito do interior da haste de palmeiras como pupunha, juçara e palmeira-real. O miolo macio e comestível tornou São Paulo referência nacional na cadeia produtiva. O Vale do Ribeira concentra cerca de 80% do cultivo estadual, o que representa aproximadamente 7 mil hectares.

Rogério Sakai, engenheiro agrônomo da Diretoria de Assistência Técnica Integral (CATI) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, ressalta as condições ideais que fizeram da região um polo produtivo. “Pequenos e médios produtores conduzem o cultivo do palmito pupunha. Os plantios ocorrem principalmente em terras altas, com terreno levemente ondulado e sem necessidade de irrigação, devido à incidência de chuvas bem distribuídas durante o ano, favorecendo o desenvolvimento da planta”, esclarece Sakai.

Desafio ambiental persiste

A exploração ilegal da juçara, palmeira nativa da Mata Atlântica, ainda representa ameaça ambiental e econômica, especialmente em unidades de conservação. “No passado, a região explorava o palmito juçara. Com a proibição, as fábricas migraram para a pupunha, porque já detinham expertise no processamento. Como a pupunheira perfilha, os produtores aderiram ao cultivo”, acrescenta Sakai.

O Instituto Agronômico (IAC-APTA/SAA) trouxe as primeiras sementes de pupunheira ao estado em 1940. A adaptação positiva levou, a partir dos anos 1970, ao tratamento da cultura como atividade comercial em ascensão. Na década de 1980, estudos do IAC identificaram o Vale do Ribeira como área ideal devido ao clima tropical úmido e solo favorável, consolidando novas bases para o desenvolvimento regional.

Hoje, o IAC mantém programa de melhoramento genético voltado à obtenção de variedades com maior produtividade e qualidade de palmito. “O IAC possui ainda uma coleção de palmeiras que conta com mais de 400 espécies, nativas e exóticas, com potencial para uso ornamental ou produção de palmito. Esta coleção está em estudo pois diferentes espécies de palmeiras, com distintas características de cultivo, podem produzir palmito com sabor, cor e textura inerentes a cada uma delas”, afirma a pesquisadora do IAC, Valéria A. Modolo.