Resumo da notícia
- Uma nova espécie de cobra-cega, Siphonops maria, foi descoberta no Rio de Janeiro e nomeada em homenagem a uma mulher escravizada que ajudou no reflorestamento da Floresta da Tijuca no século 19.
- A espécie pertence aos anfíbios chamados cecílias, que vivem enterrados e têm visão reduzida, sendo identificada por análises genéticas e exames detalhados, inclusive de um exemplar de 1902.
- O nome Maria simboliza uma homenagem às mulheres brasileiras, popularmente associadas ao nome, buscando aproximar o público desses animais pouco conhecidos e valorizar a história local.
Uma nova espécie de cobra-cega identificada no Rio de Janeiro recebeu o nome de Maria.
Batizada cientificamente de Siphonops maria, ela homenageia uma mulher escravizada que participou do reflorestamento da Floresta da Tijuca, no século 19, e também as milhões de brasileiras que carregam esse nome.
O animal pertence ao grupo das cecílias, anfíbios que passam a maior parte da vida debaixo da terra.

- “Gelou o corpo”: fotógrafo flagra três sucuris gigantes em Bonito
- Família de ratões-do-banhado visita agricultor todos os dias em SP
A escolha de um nome tão familiar foi uma maneira encontrada pelos pesquisadores de aproximar o público desses animais, pouco observados até por especialistas.
“Eu mesmo só vi no campo uma vez”, contou Luís Felipe Toledo, especialista em anfíbios e professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp). Apoiado pela FAPESP, ele é um dos coautores do estudo.
A descrição da espécie foi publicada no Zoological Journal of the Linnean Society.
Para reconhecê-la, os cientistas combinaram análises genéticas, comparações das características do corpo e exames do crânio. Também encontraram, em uma coleção científica, um exemplar coletado em 1902 que havia sido identificado como outra espécie.
Quem foi a Maria que inspirou o nome?
A homenagem começou com uma personagem da história da Floresta da Tijuca. Maria integrou um grupo de 11 pessoas escravizadas que participou do plantio de mais de 100 mil árvores entre 1861 e 1874.
A área passou a integrar o Parque Nacional da Tijuca, reconhecido por abrigar a maior floresta urbana replantada do mundo.
Ao escolher o nome, os autores ampliaram a homenagem para outras mulheres brasileiras, explicou Adriano Oliveira Maciel, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém, e primeiro autor do estudo.
“Acabou sendo também uma homenagem às mulheres do Brasil, uma vez que é o nome mais popular do país e um dos mais utilizados no mundo. Aqui há mais de 12 milhões de Marias. Todo mundo conhece uma; por exemplo, a minha mãe e quase todas as minhas tias se chamam Maria”, disse.
Uma cobra-cega que pertence ao grupo dos anfíbios
🐍 Apesar do nome popular, a cecília é um anfíbio, não uma cobra. Ela tem hábitos fossoriais, ou seja, vive principalmente debaixo da terra. Seus olhos são reduzidos e a visão é limitada, mas órgãos sensoriais na cabeça ajudam a perceber o ambiente.
O próprio nome “cecília” faz referência a essa característica: deriva do latim caecus, que significa “cego”.
Reconhecer as diferentes espécies desse grupo, porém, exige observar detalhes que nem sempre aparecem a olho nu.
Muitas cecílias têm características corporais muito semelhantes, o que dificulta separar uma espécie da outra apenas pela aparência.
Nos últimos anos, ferramentas genéticas e exames de microtomografia têm ajudado os pesquisadores a entender melhor as diferenças e a evolução desses anfíbios. Ainda assim, é necessário reunir vários exemplares para comparação, um processo que pode levar anos.
Exemplar coletado em 2015 levou à investigação
Um dos passos importantes para identificar a Siphonops maria foi a análise de um animal coletado em 2015, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. Depositado no Museu Goeldi, ele se tornou o holótipo da nova espécie.
🧬 O que é um holótipo? É o exemplar escolhido como referência na descrição de uma espécie. Ele fica associado ao nome científico e permite que outros pesquisadores consultem e comparem suas características em estudos posteriores.
A princípio, o animal havia sido associado à Siphonops hardyi, uma espécie já conhecida. Maciel percebeu, no entanto, diferenças que justificavam uma investigação mais detalhada.
“Inicialmente, pensava-se que se tratava da espécie Siphonops hardyi. Quando o recebi, porém, notei que o número de anéis corporais e a dentição eram diferentes do que era conhecido para aquela espécie. Ao sequenciarmos alguns genes usados para diferenciar espécies, confirmamos que se tratava de uma linhagem diferente”, explicou o pesquisador.
Com o avanço do trabalho, outros colaboradores, entre eles Toledo, conseguiram mais indivíduos com características externas muito semelhantes às daquele exemplar.
Animal já estava em coleção desde 1902
A investigação também levou Maciel a consultar exemplares preservados em museus. Em 2018 e 2022, ele visitou o Museu de História Natural de Paris e o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, para comparar outras cecílias do mesmo gênero com a possível nova espécie.
Foi nessas coleções que encontrou animais cuja identificação precisava ser revista.
“Foi então que encontrei exemplares identificados como S. hardyi, mas que tinham as características de S. maria, um deles coletado em 1902 na Serra dos Órgãos”, relatou.
Além de comparar os genes e a aparência externa, os cientistas usaram tomografia computadorizada de alta resolução para examinar o esqueleto dos animais. As imagens revelaram diferenças sutis no crânio que também ajudaram a distinguir a nova espécie de suas parentes próximas.
O conjunto de resultados sustentou a descrição da Siphonops maria, que, até onde indicam os registros conhecidos, ocorre exclusivamente no estado do Rio de Janeiro.
Estudo mudou a classificação de outras três espécies
As comparações também levaram os pesquisadores a revisar a organização de outros animais da mesma família.
O estudo concluiu que não havia fundamento para manter o gênero Luetkenotyphlus separado de Siphonops, ao qual pertence a cecília-maria. Por isso, os autores passaram a tratar Luetkenotyphlus como sinônimo de Siphonops.
Na prática, as espécies antes classificadas no primeiro gênero foram transferidas para o segundo.
Durante a pesquisa, surgiram ainda duas linhagens que podem representar outras espécies desconhecidas pela ciência. Ambas se parecem com S. hardyi: uma foi identificada em exemplares de Ubatuba, no litoral paulista, e a outra em animais coletados em Castelo e Domingos Martins, no Espírito Santo.
A confirmação depende de novas comparações, inclusive com materiais de Porto Real (RJ), localidade de origem do holótipo de S. hardyi.
Material guardado em Londres dificulta a comparação
Parte dos exemplares necessários para esclarecer essas diferenças está fora do Brasil.
Segundo Toledo, a equipe tentou obter uma pequena amostra de material preservado no Museu de História Natural de Londres, mas não recebeu autorização.
“No entanto, não temos amostras de Porto Real [RJ], localidade do holótipo de S. hardyi, nem o holótipo em si, para confrontar com esses exemplares de Ubatuba e Domingos Martins. Além disso, pelo menos mais dois espécimes de Porto Real estão depositados no Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido. Esses espécimes foram coletados no Brasil no século 19 e levados para a Inglaterra. Pedimos para retirar um pequeno pedaço de tecido que pudesse ser sequenciado por técnicas modernas que extraem DNA de amostras degradadas, mas o museu não deu autorização.”
A dificuldade faz parte de uma discussão mais ampla sobre o acesso a coleções científicas. A retirada de materiais de países do Sul Global, para armazenamento em instituições do Norte Global, começou no período colonial e continua a ocorrer.
Essa concentração pode dificultar o estudo da biodiversidade pelos próprios países de origem.
Entre as soluções defendidas por cientistas estão a facilitação do acesso às coleções e a repatriação, que consiste na devolução dos exemplares.
Para investigar as linhagens de São Paulo e do Espírito Santo, os pesquisadores também podem buscar novos animais com as mesmas características em outros pontos da Mata Atlântica, o que deve levar alguns anos.


