Resumo da notícia
- Dois cavalos Crioulos no Rio Grande do Sul foram infectados por Halicephalobus gingivalis, nematoide raro que causa infecção neurológica fatal, com sintomas graves e rápida evolução.
- Pesquisadores da UFRGS confirmaram a infecção por análise molecular e realizaram a primeira caracterização genética do agente no Brasil, identificando a linhagem 3 do parasita.
- Os casos ocorreram em propriedades diferentes em 2021 e 2023, com sintomas neurológicos semelhantes e diagnóstico confirmado após necropsia, descartando raiva como causa dos quadros.
Dois cavalos da raça Crioula desenvolveram uma infecção neurológica rara causada pelo nematoide Halicephalobus gingivalis no Rio Grande do Sul. Os casos ocorreram em 2021 e 2023, em propriedades diferentes, e foram investigados por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de outras instituições.
O estudo, publicado em 29 de setembro de 2026 na revista Veterinary Research Communications, confirmou a presença do agente por análise molecular e identificou os isolados brasileiros na Linhagem 3. A pesquisa representa a primeira análise filogenética de H. gingivalis no Brasil.
A descoberta, porém, não significa que o agente tenha surgido recentemente no país. Pesquisadores já haviam registrado a infecção em equinos brasileiros. A novidade do trabalho está na caracterização genética dos isolados encontrados nos dois cavalos do Rio Grande do Sul.
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Dois cavalos apresentaram sinais neurológicos
O primeiro caso envolveu uma égua Crioula de 11 anos, atendida em julho de 2021. O animal vinha de uma propriedade em Capivari do Sul, no Rio Grande do Sul.
Já o segundo caso ocorreu em maio de 2023, em um cavalo Crioulo de 12 anos criado em Garibaldi. Apesar da distância entre as propriedades e do intervalo de quase dois anos, os dois animais chegaram ao Hospital de Clínicas Veterinárias da UFRGS com sinais semelhantes.
Segundo os proprietários, os sintomas haviam começado entre três e cinco dias antes do atendimento. Os animais apresentavam sinais neurológicos, como apatia, sonolência, falta de coordenação, redução da propriocepção, ranger de dentes, diminuição da motilidade intestinal e pressão da cabeça contra superfícies.
Diante da evolução rápida dos quadros e do prognóstico desfavorável, os veterinários submeteram os dois animais à eutanásia entre 24 e 48 horas após a internação.
Exames encontraram o agente no sistema nervoso
As necropsias ajudaram a esclarecer a causa das alterações. No primeiro animal, os pesquisadores observaram pequenas áreas avermelhadas no hemisfério cerebral esquerdo. No segundo, o exame macroscópico não mostrou lesões evidentes no cérebro.
A microscopia, entretanto, revelou inflamação associada à presença de estruturas parasitárias. Os nematoides apareciam próximos aos vasos sanguíneos e também no tecido nervoso.
Os pesquisadores combinaram os achados da necropsia com exames histopatológicos e análise molecular para confirmar a infecção. Além disso, os testes realizados para investigar raiva deram resultado negativo nos dois animais.
Análise do DNA revelou a linhagem
A principal novidade do estudo veio da análise genética. Os pesquisadores examinaram uma região do gene 28S rRNA e confirmaram a presença de Halicephalobus gingivalis.
As sequências obtidas apresentaram 100% de cobertura e identidade com registros do agente encontrados em cavalos dos Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão e Itália, além de amostras ambientais.
Na análise filogenética, os dois isolados brasileiros ficaram na Linhagem 3. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram posicionar geneticamente os casos brasileiros em relação a amostras já estudadas em outros países.
Esse resultado amplia a base de dados sobre o nematoide no país. Por outro lado, a identificação da linhagem não permite determinar onde os cavalos adquiriram a infecção nem reconstruir uma rota específica de transmissão.
Nematoide vive no ambiente e raramente infecta mamíferos
O H. gingivalis apresenta uma característica diferente de muitos parasitas que afetam cavalos. Trata-se de um nematoide de vida livre, encontrado no ambiente e associado a matéria orgânica.
Em situações raras, o organismo consegue infectar mamíferos. Quando alcança o sistema nervoso central, pode provocar inflamação grave e levar à morte.
Os pesquisadores ainda não conhecem completamente o ciclo de infecção. Uma das hipóteses discutidas na literatura indica que as larvas podem entrar no organismo por lesões na pele ou pelas mucosas oral e nasal. Depois disso, elas poderiam alcançar outros tecidos pelas vias sanguínea e linfática.
Nos cavalos analisados, a presença dos parasitas próxima aos vasos sanguíneos é compatível com essa possibilidade. Ainda assim, o estudo não permite afirmar que os animais tenham adquirido a infecção dessa maneira.
Segundo cavalo também apresentou lesões nos rins
No segundo animal, os pesquisadores encontraram alterações fora do sistema nervoso. Os rins apresentavam nódulos firmes, de coloração branca a amarelada, que mediam entre 2 e 7 centímetros.
Os linfonodos ilíacos também estavam aumentados. O exame microscópico mostrou intensa reação inflamatória e numerosas larvas nessas estruturas.
Os achados indicaram uma infecção multissistêmica, com comprometimento de diferentes órgãos. Mesmo assim, os pesquisadores não conseguiram determinar a sequência em que os tecidos foram atingidos.
Diagnóstico da doença é difícil
A halicefalobose pode passar despercebida porque os sinais neurológicos não são exclusivos dessa infecção. Alterações de comportamento, perda de coordenação e problemas de propriocepção também aparecem em outras doenças que afetam o sistema nervoso dos cavalos.
Por isso, o diagnóstico exige investigação veterinária detalhada. Nos casos estudados, a equipe precisou reunir os resultados da necropsia, da histopatologia e da análise molecular para identificar o agente.
O tratamento também apresenta dificuldades. Embora a literatura registre tentativas com medicamentos antiparasitários, o comprometimento do sistema nervoso limita a ação de alguns fármacos. A barreira hematoencefálica, por exemplo, dificulta a chegada de determinadas substâncias ao cérebro.
Nos dois casos, o prognóstico era desfavorável e os animais foram submetidos à eutanásia entre 24 e 48 horas após a internação.
Casos não indicam maior risco para cavalos Crioulos
A presença do parasita em dois cavalos Crioulos chama atenção, mas os resultados não permitem afirmar que a raça tenha maior predisposição à doença.
Os animais pertenciam a propriedades diferentes e os casos ocorreram com quase dois anos de intervalo. Além disso, os pesquisadores não realizaram uma comparação entre raças para avaliar o risco de infecção.
O Brasil já tinha registros da doença em equinos. Portanto, a pesquisa atual não representa a primeira identificação do H. gingivalis no país. O avanço está na caracterização filogenética dos isolados brasileiros.
Essa distinção é importante porque evita interpretar dois casos isolados como sinal de expansão da doença entre cavalos Crioulos.
Infecção humana é rara
O H. gingivalis também pode infectar seres humanos. A literatura científica registra casos raros de meningoencefalite associados ao nematoide em outros países.
No entanto, os pesquisadores não identificaram casos humanos no Brasil, e o estudo não demonstrou transmissão direta entre cavalos e pessoas.
Além disso, a pesquisa não aponta os animais estudados como fonte de infecção para seres humanos. O parasita possui ciclo ambiental, e os mecanismos que permitem sua entrada e disseminação no organismo ainda precisam de investigação.
O que os casos mostram para criadores
Para quem trabalha com cavalos, o principal ponto de atenção está no reconhecimento de alterações neurológicas. Perda de coordenação, mudanças de comportamento, alterações de consciência e pressão persistente da cabeça contra superfícies exigem avaliação veterinária.
Esses sinais podem ter várias causas. Por isso, a presença deles não significa que o animal esteja infectado pelo H. gingivalis. Cabe ao médico-veterinário avaliar o histórico, os sinais clínicos e a necessidade de exames complementares.
Por enquanto, o estudo não sustenta mudanças gerais nos programas de vermifugação nem recomenda medidas extraordinárias nos criatórios. Também não identifica uma ação específica capaz de impedir a infecção.
Para a ciência veterinária, entretanto, os dois casos fornecem novas informações genéticas sobre o parasita no Brasil. Além disso, reforçam a necessidade de investigar como o H. gingivalis circula no ambiente, como chega aos animais e quais fatores favorecem o desenvolvimento das formas neurológicas da doença.