Resumo da notícia
- Proteína tarina, extraída do inhame, mostrou efeitos promissores contra células de câncer de mama e glioblastoma em experimentos com nanotecnologia, indicando potencial antitumoral.
- Pesquisadores da UFRJ, Instituto Oswaldo Cruz e UFF desenvolveram formulações com nanolipossomos para estudar como a tarina influencia apoptose e autofagia em células tumorais.
- Estudos publicados em 2023 e 2025 destacam a importância da tarina, uma lectina capaz de reconhecer carboidratos, para futuras estratégias de tratamento oncológico usando nanotecnologia.
Uma proteína extraída do inhame está sendo investigada por pesquisadores brasileiros por seu possível uso no desenvolvimento de novas estratégias contra o câncer. Em experimentos laboratoriais, a substância, chamada tarina, apresentou efeitos sobre células de câncer de mama e glioblastoma, um tipo agressivo de tumor cerebral.
A proteína foi isolada do taro (Colocasia esculenta), planta conhecida popularmente como inhame em algumas regiões do Brasil. Para avaliar suas propriedades, os cientistas desenvolveram formulações com nanotecnologia, buscando compreender como a substância atua sobre as células tumorais.
Os resultados foram publicados em 2023 e 2025 na revista International Journal of Nanomedicine. A primeira autora dos dois trabalhos é Raiane Vieira Cardoso, vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Já Vania Margaret Flosi Paschoalin aparece como autora correspondente das pesquisas.
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Pesquisadores de diferentes instituições participam dos estudos
O artigo de 2023 reuniu pesquisadores da UFRJ, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) e da Universidade Federal Fluminense (UFF). Entre os autores estão Raiane Vieira Cardoso, Patricia Ribeiro Pereira, Cyntia Silva Freitas, Érika Bertozzi de Aquino Mattos, Anna Victoria De Freitas Silva, Victor do Valle Midlej, Mauricio Afonso Vericimo, Carlos Adam Conte-Júnior e Vania Margaret Flosi Paschoalin.
Por sua vez, o trabalho de 2025 contou com Raiane Vieira Cardoso, Patricia Ribeiro Pereira, Cyntia Silva Freitas, Anna Victoria De Freitas Silva, Victor Midlej, Carlos Adam Conte-Júnior e Vania Margaret Flosi Paschoalin. As afiliações institucionais informadas nesse artigo incluem a UFRJ e o Instituto Oswaldo Cruz.
Proteína vegetal interfere na atividade das células tumorais
A tarina pertence ao grupo das lectinas, proteínas capazes de reconhecer e se ligar a determinados carboidratos. Por essa característica, os cientistas investigam suas propriedades biológicas e sua possível aplicação no desenvolvimento de compostos com atividade antitumoral.
No estudo publicado em 2023, a equipe avaliou nanolipossomos contendo tarina em células humanas de adenocarcinoma mamário, um tipo de câncer de mama. Os resultados indicaram efeitos sobre a proliferação e a migração celular, além de alterações em mecanismos associados à apoptose e à autofagia.
Esses processos desempenham funções diferentes. Enquanto a apoptose corresponde à morte celular programada, a autofagia permite que as células degradem e reciclem componentes internos. Ao analisar essas alterações, os pesquisadores procuram entender como a formulação experimental interfere no funcionamento das células tumorais.
Nanotecnologia ajuda a transportar a proteína
Um dos desafios no desenvolvimento de medicamentos contra o câncer é fazer com que as substâncias alcancem as células-alvo. Ao mesmo tempo, os pesquisadores buscam reduzir possíveis efeitos indesejados sobre tecidos saudáveis.
Para investigar essa questão, a equipe utilizou nanolipossomos, estruturas microscópicas formadas por lipídios que podem transportar substâncias. A formulação estudada contém tarina encapsulada em lipossomos peguilados, desenvolvidos para modificar suas características de transporte e distribuição.
Dessa forma, os cientistas conseguem avaliar o comportamento da proteína encapsulada e seus efeitos nas células estudadas. Essa estratégia também permite investigar possibilidades para futuras formulações terapêuticas.
Estudo também investiga células de glioblastoma
Em 2025, os pesquisadores ampliaram a investigação para células humanas de glioblastoma, um tumor cerebral agressivo que apresenta desafios importantes para o tratamento.
Além de observar efeitos sobre a migração celular e alterações associadas à apoptose e à autofagia, a equipe avaliou se a formulação conseguiria atravessar um modelo laboratorial da barreira hematoencefálica. Essa estrutura protege o cérebro e dificulta a passagem de muitas substâncias presentes no sangue.
Nos experimentos, a formulação atravessou o modelo in vitro. O resultado fornece informações para novas investigações sobre o transporte de substâncias até o sistema nervoso central, embora não demonstre, por si só, que a proteína consiga alcançar e tratar tumores cerebrais em pacientes.
Resultados ainda dependem de estudos clínicos
Apesar dos achados promissores, as pesquisas estão em fase pré-clínica, ou seja, avaliam a substância em modelos experimentais. Até o momento, não há comprovação de que a tarina seja eficaz ou segura como tratamento contra o câncer em seres humanos.
Antes de uma possível aplicação médica, serão necessárias avaliações adicionais de segurança, dosagem e eficácia. Se os resultados sustentarem essa possibilidade, a investigação poderá avançar para ensaios clínicos, mediante as autorizações éticas e regulatórias necessárias.
Consumir inhame não equivale ao tratamento experimental
É importante distinguir a proteína purificada e preparada em laboratório do alimento consumido na alimentação cotidiana. Os estudos analisaram uma substância isolada, incorporada a formulações específicas e utilizada sob condições controladas.
Por isso, comer inhame não demonstrou prevenir ou curar o câncer. Os resultados não justificam substituir tratamentos médicos por alimentos ou preparações caseiras.
A pesquisa amplia o conhecimento sobre as propriedades da tarina e abre caminhos para novas investigações. No entanto, somente estudos posteriores poderão determinar se os efeitos observados em laboratório poderão contribuir para o desenvolvimento de futuras terapias.