Resumo da notícia
- Os EUA realizaram ataques aéreos na Venezuela, capturando Nicolás Maduro, o que gerou estado de emergência no país e reações internacionais, incluindo pedido de reunião da ONU e condenações na América Latina.
- A ofensiva ameaça o agronegócio brasileiro, que teve mais de US$ 1 bilhão em exportações para a Venezuela entre 2021 e 2022, especialmente em óleo de soja, açúcar, milho e fertilizantes.
- A instabilidade pode interromper contratos e comprometer cadeias de suprimentos regionais, gerando incertezas sobre quem controlará a Venezuela e a capacidade de pagamento por produtos brasileiros já negociados.
Na madrugada deste sábado, os Estados Unidos realizaram ataques aéreos contra múltiplas instalações na Venezuela, incluindo a capital Caracas, em uma escalada sem precedentes na região. O presidente Donald Trump afirmou ter capturado Nicolás Maduro e sua esposa, retirando-os do país. A operação militar atinge em cheio os interesses brasileiros, com potenciais impactos que vão desde o agronegócio até a estabilidade regional.
A ofensiva ocorreu após semanas de tensão crescente, quando os EUA intensificaram operações no Caribe sob a justificativa de combater o narcotráfico. Washington acusa o governo venezuelano de liderar o chamado Cartel de los Soles, classificado como organização terrorista. Pelo menos sete explosões foram ouvidas por volta das 2h da manhã em Caracas, acompanhadas de aeronaves militares voando em baixa altitude.
A Venezuela respondeu declarando estado de emergência e convocando mobilização nacional. O presidente colombiano Gustavo Petro pediu reunião imediata da ONU e da OEA, enquanto Cuba e outros países latino-americanos condenaram veementemente a ação americana.
Impactos diretos no agronegócio brasileiro
A Venezuela, embora represente uma parcela modesta das exportações brasileiras totais, tornou-se nos últimos anos um comprador significativo de produtos do agronegócio nacional. Entre 2019 e 2022, o Brasil faturou US$ 517 milhões apenas com exportações de óleo de soja para a Venezuela, superando os 15 anos anteriores.
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Os venezuelanos compraram do Brasil principalmente fertilizantes, alumínio, álcoois e derivados, enquanto o Brasil exportou açúcares, produtos alimentícios preparados, óleos vegetais, milho e arroz. Em 2021 e 2022, o fluxo comercial ultrapassou US$ 1 bilhão anuais, com destaque para óleo de soja, preparações alimentícias, açúcar e milho.
Com a instabilidade causada pela intervenção militar, o risco de calote aumenta dramaticamente. A Venezuela já enfrenta grave falta de divisas devido à queda na produção de petróleo, situação que tende a se agravar com a destruição de infraestrutura e eventual mudança de governo.
Incerteza nas cadeias de suprimentos
A crise afeta não apenas as exportações diretas, mas toda a logística regional. Em 2024, o comércio bilateral totalizou US$ 1,6 bilhão, sendo que as importações venezuelanas ficaram em US$ 422 milhões. A instabilidade pode interromper contratos já firmados e comprometer planejamentos de safra de produtores brasileiros que dependem desse mercado.
Empresas brasileiras do setor agrícola enfrentam agora um cenário de total imprevisibilidade. Não está claro quem controlará o país nas próximas semanas, qual será a política econômica adotada, e se haverá capacidade de pagamento por produtos já embarcados ou em negociação.
O dilema do petróleo e dos fertilizantes
O Brasil mantém uma relação complexa com a Venezuela no setor energético. A Venezuela vendeu ao Brasil principalmente fertilizantes (45%), alumínio (22%), álcoois e derivados (16%) e produtos residuais de petróleo (8%).
A interrupção desses fluxos pode impactar o custo de produção agrícola no Brasil, especialmente considerando que:
- Fertilizantes: com dependência histórica de importações, qualquer restrição no fornecimento venezuelano pressiona os custos de produção do agronegócio brasileiro.
- Petróleo: embora a Venezuela tenha perdido relevância como fornecedora direta, o país se tornou o terceiro maior exportador de petróleo para os EUA em 2024, com média de 295 mil barris por dia. Qualquer choque na oferta venezuelana pode afetar preços globais de combustíveis, impactando a logística do agronegócio brasileiro.
Consequências geopolíticas para o Brasil: crise humanitária e imigração
O governo brasileiro teme que uma ação militar cause instabilidade na Venezuela e leve a uma nova crise humanitária na fronteira, em Roraima. Desde 2018, a Operação Acolhida já recebeu mais de 125 mil imigrantes venezuelanos. Uma escalada do conflito pode multiplicar esse número exponencialmente, sobrecarregando a estrutura de assistência.
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Estados do Norte do Brasil, particularmente Roraima, podem enfrentar um êxodo massivo, com impactos diretos em serviços públicos, segurança e economia local. O agronegócio da região pode ser afetado pela necessidade de realocação de recursos públicos e pela tensão social decorrente.
Posição diplomática delicada
A situação representa um dos maiores desafios para a política externa do presidente Lula, cuja diplomacia baseia-se na estabilidade regional e no diálogo. Lula orientou o Planalto que ataques ao continente sul-americano não podem ser tolerados, defendendo a América do Sul como zona de paz.

O Brasil encontra-se em posição estratégica, mas delicada:
- Mantém contato com ambos os lados do conflito
- Não reconheceu a reeleição de Maduro em 2024
- Defende solução política e diplomática
- Enfrenta pressões domésticas de diferentes espectros políticos
Uma eventual mudança de governo na Venezuela, com ascensão de forças de direita apoiadas por Washington, poderia criar tensões adicionais com o Brasil, considerando o histórico de aproximação do PT com o chavismo.
Impactos no mercado de commodities
A intervenção americana na Venezuela terá repercussões além das fronteiras sul-americanas. O país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com cerca de 300 bilhões de barris. Qualquer interrupção prolongada na produção pode:
- Elevar preços internacionais do petróleo
- Aumentar custos de transporte e insumos agrícolas
- Impactar a competitividade das exportações brasileiras
- Criar oportunidades para o Brasil aumentar exportações de petróleo
Efeito cascata em commodities
O conflito pode gerar volatilidade nos mercados de:
- Grãos: interrupção de exportações brasileiras para a Venezuela e possível necessidade de buscar mercados alternativos
- Carnes: a Venezuela era importante compradora de carne bovina e de frango brasileiras
- Açúcar: mercado venezuelano absorvia volumes significativos da produção brasileira
Vamos analisar os cenários possíveis e suas consequências
Cenário 1: colapso institucional venezuelano
Se a queda de Maduro resultar em vácuo de poder ou guerra civil, o Brasil enfrentará:
- Paralisação total do comércio bilateral
- Pressão migratória extrema na fronteira Norte
- Necessidade de intervenção humanitária
- Perdas econômicas estimadas em centenas de milhões de dólares
Cenário 2: governo de transição Pró-EUA
Ascensão de María Corina Machado ou figura alinhada a Washington pode:
- Reconfigurar relações comerciais, com redução de protagonismo brasileiro
- Favorecer empresas americanas em detrimento de brasileiras
- Criar tensões políticas regionais
- Abrir oportunidade para renegociação de acordos comerciais
Cenário 3: resistência prolongada
- Manutenção de conflito de baixa intensidade resultaria em:
- Instabilidade crônica na fronteira brasileira
- Interrupção intermitente de fluxos comerciais
- Dificuldade em recuperar valores de exportações realizadas
- Pressão sobre Brasil para tomar partido no conflito
Oportunidades em meio à crise
Apesar dos riscos, o conflito pode criar algumas oportunidades para o agronegócio brasileiro:
- Diversificação forçada: necessidade de buscar novos mercados pode acelerar abertura de novos destinos de exportação
- Petróleo: redução da oferta venezuelana pode beneficiar exportações brasileiras de petróleo
- Mediação diplomática: papel de mediador pode fortalecer posição do Brasil na região e abrir portas comerciais
- Reconstrução futura: Brasil pode se posicionar para participar de eventual reconstrução venezuelana
Recomendações para o setor
Diante deste cenário de alta incerteza, empresas do agronegócio brasileiro devem:
- Revisar exposição: avaliar imediatamente contratos e exposição ao mercado venezuelano
- Garantias: exigir pagamentos antecipados ou garantias robustas para novas operações
- Diversificação: acelerar estratégias de diversificação de mercados
- Monitoramento: acompanhar desdobramentos políticos e econômicos diariamente
- Planejamento de cenários: desenvolver planos de contingência para diferentes desdobramentos
- Diálogo com governo: buscar apoio do Itamaraty e do MDIC para proteção de interesses
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela representa um ponto de inflexão histórico para a América do Sul e coloca o Brasil diante de desafios complexos e interconectados. Para o agronegócio brasileiro, os impactos são multifacetados: desde a perda direta de um mercado que vinha crescendo significativamente até efeitos indiretos em cadeias de suprimentos, custos de insumos e logística.
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A situação exige resposta coordenada entre setor privado e governo, com foco em proteger interesses comerciais já estabelecidos, preparar-se para eventuais choques de oferta de insumos críticos, e posicionar-se estrategicamente para o cenário pós-crise.
O desenvolvimento dos próximos dias será crucial. A confirmação ou não da captura de Maduro, a reação das forças armadas venezuelanas, o posicionamento de potências regionais e globais, e as decisões do governo brasileiro definirão não apenas o futuro da Venezuela, mas terão consequências duradouras para toda a região. E particularmente para o agronegócio brasileiro, pilar fundamental da economia nacional.