Resumo da notícia
- Escamas descartadas em entreposto pesqueiro de São Luís podem ser usadas para criar biomateriais na medicina, como esponjas para conter sangramentos e materiais para bioimpressão e tratamentos de pele.
- Pesquisa investiga colágeno e hidroxiapatita nas escamas para desenvolver produtos seguros e eficazes para aplicações médicas, ainda em fase inicial de laboratório.
- A iniciativa visa transformar resíduos da pesca em matérias-primas valiosas, agregando valor à cadeia produtiva do pescado e reduzindo o descarte considerado lixo.
Escamas de peixe descartadas em um entreposto pesqueiro de São Luís, no Maranhão, podem se transformar em matéria-prima para produtos utilizados na medicina. Uma pesquisa conduzida por Paulo Ferreira investiga o aproveitamento desse resíduo na produção de esponjas para conter sangramentos, materiais para bioimpressão de tecidos e tratamentos de pele.
O projeto ainda está em fase inicial de laboratório. A proposta é aproveitar substâncias presentes nas escamas para desenvolver biomateriais, nome dado aos materiais projetados para interagir com tecidos e estruturas do organismo.
Entre os componentes que despertam o interesse dos pesquisadores estão o colágeno, proteína presente em diferentes tecidos do corpo humano, e a hidroxiapatita, mineral que também compõe ossos e dentes.
Essas características tornam as escamas uma matéria-prima promissora para estudos na área da saúde. O desafio é transformar os componentes extraídos em produtos que atendam aos requisitos de segurança, qualidade e desempenho exigidos para aplicações médicas.
“Boa parte do que sobra no entreposto ainda é tratada como lixo, mas tem componentes muito úteis para a área da saúde. O nosso trabalho é dar a esse material um destino à altura do que ele pode valer”, afirma o pesquisador.
De escamas descartadas a materiais para cirurgias
Uma das aplicações investigadas envolve a produção de esponjas hemostáticas, materiais utilizados para ajudar a controlar sangramentos durante procedimentos cirúrgicos.
A pesquisa pretende desenvolver versões que também possam receber medicamentos e liberá-los diretamente na região tratada. Essa possibilidade permitiria reunir duas funções em um mesmo material, desde que os testes comprovem sua eficácia e segurança.

Outra frente envolve as biotintas, materiais utilizados na bioimpressão 3D. Diferentemente das impressoras convencionais, essa tecnologia trabalha com formulações que podem conter células vivas e outros componentes para formar estruturas semelhantes a tecidos biológicos.
A terceira aplicação estudada está na dermatologia, com o desenvolvimento de bioestimuladores voltados à regeneração da pele.
As três possibilidades ainda dependem dos resultados da pesquisa.
Pesquisa pode ampliar o aproveitamento de resíduos da pesca
A origem das escamas também chama atenção para uma questão da cadeia produtiva do pescado: o aproveitamento de materiais que sobram após o processamento dos peixes.
Embora tenham pouco ou nenhum valor comercial nas condições descritas pelo pesquisador, esses resíduos contêm substâncias de interesse para diferentes aplicações industriais e científicas.
A possibilidade de extrair componentes destinados à fabricação de biomateriais abre uma linha de investigação para agregar valor ao pescado além da comercialização da carne.
Isso não significa, porém, que as escamas já representem uma nova fonte de receita para os pescadores ou para os estabelecimentos que processam os peixes.
Para que o aproveitamento tenha viabilidade comercial, ainda seria necessário avaliar fatores como volume disponível, coleta, conservação, rendimento da extração, custos de processamento e exigências sanitárias.
“Comecei estudando como certos materiais conversam com o corpo humano. As escamas entraram como uma forma de levar esse conhecimento para a realidade do Maranhão, onde a pesca tem peso econômico e o descarte é um problema”, conta Paulo Ferreira.


