Um estudo realizado pelo Centro de Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (GCCRC), em parceria com a Embrapa, a Unicamp e a Fapesp, solucionou um mistério genético que persistia há décadas sobre o número cromossômico das espécies do gênero Vellozia, vegetações icônicas dos Campos Rupestres. Publicado na revista Brazilian Journal of Botany, o trabalho determinou, com precisão inédita, que essas plantas possuem nove pares de cromossomos, encerrando um debate científico que se arrastava desde os anos 1980.
Campos Rupestres: biodiversidade e desafios
Os Campos Rupestres, localizados em afloramentos rochosos do Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga, são considerados um dos ecossistemas mais biodiversos e ameaçados do Brasil. As espécies de Vellozia se destacam pela resistência à seca e solos pobres, características que têm atraído estudos moleculares voltados para possíveis aplicações biotecnológicas em culturas agrícolas diante das mudanças climáticas.
Controvérsia cromossômica resolvida
Desde os anos 1980, o número básico de cromossomos das Vellozias era motivo de divergências científicas, com estudos apontando números variados, como sete, oito ou nove pares. A confusão era causada pela interpretação de estruturas satélites como partes acessórias dos cromossomos principais. Utilizando uma abordagem inovadora com anticorpos contra proteínas do centrômero – região essencial para a divisão celular –, os pesquisadores demonstraram que essas estruturas satélites são, na verdade, cromossomos reais.
“Se há centrômero, há um cromossomo. Com essa abordagem, confirmamos que as espécies analisadas possuem nove pares cromossômicos”, explicou Guilherme Braz, especialista em citogenética e autor principal do estudo. A pesquisa determinou o número de cromossomos em seis espécies de Vellozia, sendo que quatro delas tiveram essa informação revelada pela primeira vez.
Estratégia inovadora para contagem cromossômica
A contagem precisa de cromossomos nas Vellozias enfrentava desafios técnicos devido ao crescimento lento das plantas e à dificuldade em obter células na fase de metáfase – momento ideal para análise microscópica. Para superar esse obstáculo, os pesquisadores aplicaram hormônios em sementes para gerar calos vegetais, estruturas com alta taxa de divisão celular. Isso permitiu a obtenção de mais células em metáfase e facilitou a contagem cromossômica.

“Combinamos a indução de divisão celular e a identificação de proteínas do centrômero para alcançar uma contagem precisa. Esse método pode ser aplicado futuramente a outras espécies com características similares”, afirmou Ricardo Dante, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e coautor do estudo.
Impactos científicos e biotecnológicos
A descoberta tem implicações importantes para a evolução e conservação das Vellozias. Segundo Isabel Gerhardt, pesquisadora do GCCRC e da Embrapa Agricultura Digital, o número cromossômico pode revelar eventos como poliploidia (duplicação do genoma) ou fusões cromossômicas que influenciaram a adaptação dessas plantas ao ambiente extremo dos Campos Rupestres.
Além disso, o estudo contribui para a definição de espécies e linhagens evolutivas únicas, auxiliando na preservação de populações ameaçadas. Em termos biotecnológicos, compreender os genes responsáveis pela resistência à seca nas Vellozias pode inspirar estratégias agrícolas para mitigar os impactos das mudanças climáticas.
Valorização da biodiversidade brasileira
Os Campos Rupestres abrigam cerca de 15% da diversidade vegetal brasileira e concentram muitas espécies exclusivas dessa região. Apesar dos desafios ambientais e da necessidade urgente de conservação, o ecossistema apresenta um potencial científico ainda pouco explorado. A resolução desse mistério genético reforça a importância da pesquisa voltada para valorização da biodiversidade brasileira e suas aplicações práticas no enfrentamento das mudanças climáticas.
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