O Brasil exportou mais de 240 milhões de toneladas de soja para a China entre 2021 e 2025, somando apenas os primeiros sete meses de cada ano. O volume explica como um único grão conecta cozinhas chinesas, fazendas brasileiras e decisões de segurança alimentar em Pequim.

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A China transformou sua economia nas últimas cinco décadas. O país saiu de uma sociedade rural e pobre para se tornar a segunda maior economia do planeta. Mais de 300 milhões de pessoas entraram na classe média, enquanto cerca de 200 milhões deixaram as fazendas e migraram para cidades entre 2007 e 2017.

Essa migração urbana mudou os hábitos alimentares. A população trocou a dieta tradicional de arroz e vegetais por refeições com mais carne, ovos, leite, óleo de soja e alimentos processados. A soja brasileira ocupa papel central nessa transformação.

Cozinha chinesa puxa demanda por óleo e proteína

A China possui mais de 1,4 bilhão de habitantes. Cada refogado diário exige óleo na panela, proteínas e ingredientes processados que dependem da soja.

O país usa soja de duas formas distintas. A produção interna, com grãos de maior teor proteico, atende o consumo direto em óleo de cozinha, tofu, bolinhos secos e receitas tradicionais milenares.

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A soja brasileira segue outro caminho. Indústrias de esmagamento transformam o grão em óleo e farelo. O óleo vai para cozinhas e indústrias, mas o farelo rico em proteína alimenta a cadeia de ração que engorda porcos, frangos e bovinos.

Farelo de soja sustenta 56 milhões de toneladas de carne

A China consome mais de 56 milhões de toneladas de carne por ano. Mais da metade vem apenas da carne suína. Levar um porco até o abate exige cerca de 300 quilos de ração.

Entre 2018 e 2020, a peste suína africana devastou o rebanho chinês. Aproximadamente 225 milhões de porcos morreram, a oferta de carne despencou e os preços dispararam.

O governo chinês respondeu com fazendas verticais. Prédios de vários andares, totalmente automatizados, criam porcos com máximo controle e eficiência. Essas estruturas exigem ração em volume ainda maior e com regularidade absoluta.

O consumo de frango continua crescendo. A carne bovina, antes símbolo de status raramente acessível, passa por expansão com projeções de mercado acima de US$ 120 bilhões até 2030. Em todos os segmentos, o farelo de soja brasileira funciona como elo invisível.

Produção interna não acompanha apetite da classe média

Nos anos 1990, a China se aproximou da autossuficiência em soja. O cenário mudou a partir dos anos 2000, quando o consumo de carne, óleo e alimentos industrializados cresceu mais rápido que a capacidade de plantar.

O país produz entre 20 e 30 milhões de toneladas de soja por ano, mas consome cerca de 120 milhões. Mais de 80% da soja necessária vem de importações, transformando o grão em questão de segurança alimentar nacional.

Guerra comercial muda rotas e consolida Brasil como fornecedor

Os Estados Unidos lideraram o fornecimento de soja para China durante muito tempo. O Brasil cresceu abrindo áreas no Cerrado e investindo em tecnologia, mas a virada veio em 2018.

A guerra comercial entre China e Estados Unidos trouxe tarifas, sanções e desconfiança. A China decidiu reduzir a dependência de um único fornecedor e acelerou compras no Brasil.

Hoje, mais de 70% da soja importada pelos chineses sai de portos brasileiros. A China também busca diversificar com volumes da Argentina, Paraguai, Tanzânia e até retorno gradual às compras nos Estados Unidos, numa tentativa de diluir riscos.

Soja redesenha interior brasileiro e expõe gargalos

A parceria impulsionou o agronegócio brasileiro e redesenhou cidades do interior. Municípios como Canarana, Água Boa e outras cidades do Vale do Araguaia, no Mato Grosso, se fortaleceram como polos de produção, serviços e logística.

Cada safra movimenta caminhões em estradas congestionadas, forma filas em portos e expõe déficit de armazenagem superior a 80 milhões de toneladas. Produtores vendem rápido por falta de espaço para estocar.

O país enfrenta gargalos em ferrovias que deveriam ligar o Mato Grosso a portos como Paranaguá e Barcarena com mais eficiência. A estrutura incompleta aumenta custos internos, pressiona fretes e limita a capacidade de capturar todo o valor possível do grão.

Super ciclo cria dependência bilateral perigosa

O movimento atual se encaixa no super ciclo das commodities. Períodos longos em que demanda elevada e preços altos de matérias-primas como soja, petróleo, minério e cobre impulsionam países produtores.

Foto: Tony Oliveira/Sistema CNA/Senar

Dois terços de toda a soja comercializada no mundo têm como destino a China. A cada três grãos exportados, dois acabam em território chinês. Se uma rota é interrompida, se uma safra quebra ou se uma guerra afeta o caminho entre portos brasileiros e chineses, o impacto atinge o mercado global.

Sem a China, o Brasil exportaria muito menos. Campo, arrecadação e PIB encolheriam. Sem o Brasil, a China produziria menos carne e teria dificuldade para manter estável o consumo de proteína da população urbana.

Brasil precisa agregar valor e reduzir vulnerabilidade

O desafio brasileiro é não se acomodar na posição de fornecedor bruto. Especialistas recomendam investir em logística, armazenagem, ferrovias, portos e tecnologia para reduzir gargalos internos e elevar a margem dos produtores.

Outra frente é agregar valor. Em vez de exportar apenas grão, o país pode ampliar a venda de óleo de soja, farelo e derivados industriais. Fortalecer a produção de carnes e outros produtos que incorporem a soja como insumo captura uma fatia maior da renda que hoje fica na transformação feita em outros países.

Para a China, o objetivo estratégico é garantir que comida nunca se transforme em arma política. Isso explica a busca por novos parceiros e estoques estratégicos, mantendo o Brasil no centro do tabuleiro.