Resumo da notícia
- Frutas vermelhas transformam pequenas propriedades em polos de renda na Serra Catarinense
- Serra Catarinense aposta em frutas vermelhas para diversificar produção e atrair turismo
- Propriedades familiares encontram no cultivo de frutas de clima temperado uma fonte de renda anual e previsível
- Clima favorável e apoio técnico impulsionam cultivo de mirtilo, amora e framboesa, diversificando a economia regional e fortalecendo um novo modelo de desenvolvimento no campo
Pequenas no tamanho, mas gigantes no impacto econômico e social. As frutas vermelhas conquistam cada vez mais espaço no agronegócio catarinense e, na Serra Catarinense, representam uma alternativa concreta para diversificar a produção e gerar renda.

Mirtilo, framboesa e amora adaptaram-se perfeitamente ao clima de altitude. Encontraram na amplitude térmica da região o ambiente ideal para se desenvolver, ocupando áreas que antes dependiam de ciclos produtivos mais longos, como o da madeira. O resultado é um movimento que integra produção, agroindústria, turismo rural e até mesmo um novo estilo de vida para quem decide deixar os grandes centros urbanos.
A expansão da cultura ocorre graças ao planejamento, ao conhecimento acumulado e ao suporte técnico constante, principalmente da Epagri e da Embrapa, que acompanham de perto os produtores em diversos municípios da região.
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Do consumo nas cidades ao cultivo na serra
O interesse pelas frutas vermelhas começa nos centros urbanos. Em Florianópolis, uma sorveteria na Praia dos Ingleses utiliza cerca de 35 quilos por semana durante o verão para atender à demanda dos clientes. O sabor campeão de vendas? Iogurte com mirtilo.
Na Serra Catarinense, o cultivo ganhou escala. Em Urubici, o empreendedor Sandro Tasqueto iniciou a produção em 2008, após uma viagem à Patagônia. A adaptação das frutas de clima temperado à região despertou seu interesse. Ele explica que o sucesso da lavoura depende da amplitude térmica: madrugadas frias seguidas de tardes mais quentes aumentam o teor de açúcar natural das frutas.
“Quanto maior a diferença entre a temperatura da madrugada e a do dia, melhor o chamado ‘brick’, que representa o açúcar natural da fruta”, detalha. Além disso, variedades como a framboesa necessitam de 400 a 500 horas anuais com temperaturas abaixo de 7 graus para garantir uma boa frutificação no verão.
A propriedade de Tasqueto evoluiu ao longo dos anos. Hoje, envolve de 20 a 25 famílias parceiras na produção e comercializa cerca de 150 toneladas por ano em todo o Brasil. O sistema de recebimento inclui identificação e rastreabilidade das frutas, armazenamento em câmaras frias a temperaturas entre -21º e -22º e posterior embalagem.
A agroindústria instalada no local também agrega valor com geleias, sobremesas e derivados. A cheesecake de frutas vermelhas tornou-se carro-chefe da propriedade, reforçando a integração entre a produção agrícola e a gastronomia.
Diversificação produtiva surge como alternativa à madeira
Para muitos municípios serranos, as frutas vermelhas apresentam-se como uma alternativa estratégica diante da fragmentação das propriedades e do longo ciclo da madeira.
“O mirtilo vem como uma alternativa de renda, uma renda boa para pequenas áreas. Então, é uma outra alternativa, uma diversificação da propriedade e isso leva a uma melhoria da questão ambiental, da questão de qualidade de vida no interior, para as famílias que permanecem no campo, que moram no campo”, explica Andreia Andrade, extensionista da Epagri.
Enquanto o pinus leva oito anos para o primeiro corte seletivo, o mirtilo garante renda anual previsível. A produção do empreendedor João Carlos Junior, que começou em 2016, alcança seis variedades e chega a Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Entre 70% e 80% seguem para a indústria; o restante é comercializado como orgânico, fresco ou congelado.
A Epagri utiliza propriedades como a dele como unidades de referência para demonstrar a viabilidade técnica e econômica a outros agricultores. Em Otacílio Costa, outro exemplo reforça essa estratégia.
O casal Clebs Peixoto e Edna Luz implantou cinco cultivares de amora e três de framboesa para testes de adaptação ao microclima local. A propriedade tornou-se unidade de referência técnica, mantendo troca constante com pesquisadores da Embrapa de Pelotas, Bento Gonçalves e Vacaria.
O trabalho inclui avaliações de manejo, produtividade e adaptação climática, além do planejamento de expansão com foco em práticas ambientais responsáveis. Edna projeta a ampliação baseada em conceitos de sustentabilidade – ESG (Environmental, Social, and Governance) – e afirma: “Nós vamos trabalhar em alguns conceitos do ESG. Nós vamos trabalhar com a questão ambiental, corporativa, vamos trabalhar com responsabilidade social com a comunidade.” A proposta inclui uso de insumos naturais, energias renováveis e coleta consciente de água da chuva.
Turismo, gastronomia e o movimento de retorno ao campo
A produção de frutas vermelhas também impulsiona o turismo rural e o chamado “neorruralismo”. Em Urubici, visitantes colhem frutas diretamente no pomar, degustam geleias e sobremesas e vivenciam a experiência do campo.
Sandro Tasqueto relata que, quando chegou à região, Urubici ainda era pouco conhecida. O investimento cresceu ao longo dos anos e hoje inclui hospedagem, passeios e loja própria. Em São Joaquim, jovens produtores investiram na produção e transformação das frutas, desenvolvendo geleias com combinações criativas e ampliando a distribuição para o litoral catarinense.
A produção abastece confeitarias locais, como em Otacílio Costa, onde as frutas frescas facilitam a rotina e elevam a qualidade dos produtos. Da cheesecake servida em Urubici à torta preparada em Otacílio Costa, o que chega à mesa carrega muito mais do que sabor.
Carrega a aprendizagem construída na tentativa e erro, as horas de frio acumuladas na madrugada serrana e o trabalho coletivo que começa no pomar. As frutas vermelhas podem ser pequenas, mas sustentam famílias, movimentam o turismo e redesenham a economia de municípios inteiros.