Resumo da notícia
- O ataque conjunto dos EUA e Israel matou o líder supremo do Irã, causando instabilidade e a proibição imediata das exportações agrícolas iranianas, impactando mercados globais além do petróleo.
- O Irã responde por 18% da produção mundial de pistache, um produto estratégico que sofre com bloqueios, ciclo bienal de baixa produção em 2026 e já enfrenta restrições desde janeiro.
- A proibição das exportações e a instabilidade logística elevaram os preços globais do pistache, afetando mercados consumidores importantes na Ásia, Oriente Médio e regiões de reexportação.
Quando se fala em conflito entre Estados Unidos e Irã, o primeiro pensamento é quase sempre o petróleo. Mas há outro produto que merece atenção de quem acompanha mercados agrícolas globais: o pistache.
Na manhã do último sábado (1º de março), EUA e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã. Os bombardeios mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país por quase quatro décadas, mergulhando a nação em instabilidade e acendendo um alerta em mercados que vão muito além do petróleo.
Em resposta ao conflito, o governo iraniano anunciou a proibição das exportações de todos os produtos alimentícios e agrícolas “até novo aviso”, priorizando o abastecimento interno, segundo a agência de notícias semi-oficial Tasnim. A medida bloqueia embarques de “todos os alimentos e produtos agrícolas”, de acordo com comunicado governamental.
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Por que o pistache importa nessa equação
O Irã não é um fornecedor qualquer de pistache. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o país responde por cerca de 18% da produção global da oleaginosa. Na safra 2025/2026, a produção iraniana deve atingir 200 mil toneladas.
O Irã é um dos três países que dominam a produção mundial de pistache, ao lado de EUA e Turquia. Nos últimos anos, os EUA, liderados quase inteiramente pela Califórnia, se distanciaram dos concorrentes em volume e respondem hoje por aproximadamente metade de toda a oferta global.
O conflito chega em um momento já delicado para o mercado. Desde pelo menos janeiro de 2026, exportadores iranianos já enfrentavam restrições ligadas à instabilidade interna e bloqueios de internet e comunicações que dificultavam o contato com compradores internacionais, afetando a atividade exportadora antes mesmo da escalada militar.
Há ainda um fator de ciclo agrícola que complica o quadro: a produção de pistache segue um padrão bienal de alternância. Em 2026, a expectativa é que tanto EUA quanto Irã entrem em ano de baixa produção, o que já tornaria a oferta global mais apertada independentemente do conflito.
Cadeia global em alerta
O pistache iraniano abastece alguns dos maiores mercados consumidores do mundo. Entre setembro de 2024 e março de 2025, o Irã exportou 64% de seu estoque total, sendo 26% destinados a mercados de reexportação como Emirados Árabes Unidos e Turquia, outros 26% ao Leste Asiático, 19% ao Sul da Ásia e 10% ao restante do Oriente Médio.
O impacto já começa a aparecer nos preços. Um atacadista de frutas secas e castanhas no estado indiano de Madhya Pradesh relatou à imprensa local que os preços do pistache subiram quase 26% na semana seguinte ao início das hostilidades.
Especialistas apontam que o maior risco não está nas lavouras em si, mas na logística. Segundo Louise Ferguson, professora do Departamento de Ciências Vegetais da Universidade da Califórnia em Davis, a cadeia de abastecimento do pistache é mais vulnerável a interrupções causadas pelo conflito, especialmente no Estreito de Ormuz, do que a produção propriamente dita.
A exportação do pistache movimenta cerca de US$ 1,5 bilhão por ano para o Irã e gera 350 mil empregos diretos no país. Entre 70% e 80% da produção é destinada ao mercado externo, tornando o produto uma das principais fontes de receita não ligada ao petróleo.
Uma rivalidade com raízes históricas
A disputa entre Irã e EUA no mercado de pistache não é nova. Toda a produção americana de pistache descende de uma única semente iraniana. Na década de 1970, consumidores norte-americanos consumiam cerca de 9 mil toneladas anuais de pistaches importados do Irã. A crise dos reféns em 1979 e o embargo comercial subsequente abriram espaço para que os produtores californianos ocupassem o mercado, e nunca mais saíssem.

Juntos, EUA e Irã respondem por mais de 70% das exportações globais de pistache. Os principais campos de batalha comercial entre os dois países são a Europa Ocidental e a China, onde a demanda é forte e crescente.
O Brasil no meio da crise
O Brasil não produz pistache, pois as condições climáticas do país inviabilizam o cultivo. Mas o consumo tem crescido de forma expressiva nos últimos anos. Em 2022, as importações foram de 352 toneladas; saltaram para 601 toneladas em 2023 e atingiram 1.100 toneladas em 2024, segundo o governo federal.
Os Estados Unidos são o principal fornecedor do país, seguidos pelo Irã. Nos primeiros meses de 2026, o Brasil importou 49 toneladas de pistache iraniano, volume superior às 35,5 toneladas adquiridas dos americanos no mesmo período, segundo o sistema Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
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Em 2025, o país também importou cerca de 1.400 toneladas de uva-passa iraniana, além de nozes, amendoins e tâmaras. Contudo, nenhum desses produtos representa insumo essencial da cadeia alimentar brasileira, o que limita o impacto imediato da crise sobre o abastecimento doméstico.
O risco para o consumidor brasileiro é de outra natureza: pressão de preços. Com a oferta iraniana bloqueada e o ciclo agrícola desfavorável nos EUA em 2026, o mercado global pode enfrentar um aperto de oferta que se reflete nas prateleiras, do snack saudável ao sorvete gourmet de pistache.