Resumo da notícia
- Pesquisadores da Unesp desenvolvem o HVO, óleo vegetal hidrotratado chamado de "diesel verde", que pode ser usado puro em motores de caminhões e ônibus sem precisar de adaptações.
- O projeto foca no transporte pesado, que consome quase metade do combustível líquido no Brasil, e recebe R$ 5 milhões da Fapesp para produzir diesel verde a partir de biomassa sustentável, sem competir com alimentos.
- Além da biomassa, a equipe busca catalisadores mais baratos que substituem metais nobres, e testa o combustível em motores reais no ITA para comparar desempenho e emissões com diesel comum e biodiesel.
Pesquisadores do Instituto de Química (IQ) da Unesp, em Araraquara, avançam em uma alternativa ao diesel fóssil. A equipe testa o HVO, (óleo vegetal hidrotratado), já apelidado de “diesel verde” pelo setor.
O combustível funciona puro, sem misturas. Por isso, a indústria o classifica como combustível drop-in: ele abastece caminhões e ônibus sem exigir qualquer alteração no motor. Essa característica o diferencia do biodiesel tradicional, que só pode ser usado em mistura com o diesel comum.
Por que o transporte pesado é o alvo
Caminhões e ônibus representam apenas 5% da frota brasileira. Ainda assim, consomem quase metade do combustível líquido usado no país. Isso acontece por causa das longas distâncias percorridas e da potência exigida pelos motores.
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Por isso mesmo, encontrar um substituto direto para o diesel fóssil ganha peso estratégico. É esse o foco do projeto liderado pela professora Sandra Pulcinelli, batizado “Materiais aplicados na transformação de biomassa em diesel verde: do laboratório ao piloto”. A iniciativa recebe R$ 5 milhões da Fapesp, valor que vai usar ao longo de cinco anos.
A origem da matéria-prima
O termo “verde” remete à origem do óleo usado na produção. Ele pode vir de fontes vegetais, como soja e carnaúba. Também vem de resíduos, como óleo de cozinha usado em frituras, ou ainda de gordura animal.
Escolher a fonte certa, porém, não é simples. Segundo Pulcinelli, o desafio é encontrar uma matéria-prima viável tecnicamente, mas que não entre em disputa com a produção de alimentos no país.
Catalisadores mais baratos entram em cena
Além da biomassa, a equipe testa catalisadores alternativos para conduzir as reações químicas do processo. Essa frente conta com o apoio do Grupo de Pesquisa em Catálise (GPCat), coordenado pelo professor Leandro Martins.
Atualmente, o mercado depende de metais caros, como paládio e platina os mesmos usados pela indústria do petróleo. Em contrapartida, a equipe da Unesp aposta em alternativas mais acessíveis. Conforme os pesquisadores, níquel e cobalto podem cumprir a mesma função a um custo menor.
Da bancada ao motor real
Depois de validar biomassas e catalisadores, os cientistas produzem o HVO em pequena escala, com reatores de bancada de até 750 mililitros. Os resultados dessa etapa orientam a fase seguinte.
Na sequência, a equipe produz o combustível em um reator piloto de 50 litros, comprado com recursos da Fapesp. Depois, ele segue para o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em parceria com o professor Pedro Lacava.
No Laboratório de Combustão, Propulsão e Energia (LCPE) do ITA, os pesquisadores testam o diesel verde em um motor real. Assim, o teste permite comparar diretamente suas emissões e seu desempenho aos do diesel comum e do biodiesel.
Projeto também forma novos pesquisadores
Além dos resultados técnicos, o projeto forma novos cientistas. A equipe reúne docentes da Unesp e do ITA, além de pós-doutores, doutorandos, mestrandos e alunos de iniciação científica. A equipe ainda planeja novas contratações ao longo do projeto.
Para Pulcinelli, formar mão de obra especializada é parte essencial do trabalho. Segundo ela, os primeiros artigos científicos produzidos pelos alunos devem consolidar a área como estratégica para o país.