Pesquisa da Unesp analisa sete anos de dados e propõe novos critérios para passagens de fauna
Tamanduá-bandeira. Foto: Miguel Rangel Jr/Wikimedia Commons.

Pastagens e lavouras ao redor de rodovias aumentam o risco de atropelamento de mamíferos silvestres, incluindo espécies ameaçadas de extinção em São Paulo. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp às margens da Rodovia Dom Pedro I, uma das principais vias do estado.

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Para chegar a esse resultado, a equipe reuniu sete anos de dados de atropelamentos. Em seguida, cruzou as ocorrências com o tipo de ocupação da terra no entorno da rodovia. Dessa forma, foi possível identificar padrões que hoje não entram no planejamento das estruturas de proteção à fauna.

O que já se sabia e o que surpreendeu os pesquisadores

Áreas com remanescentes florestais próximos à via já eram associadas a maior risco de atropelamento. Isso acontece porque espécies que dependem desses habitats tendem a cruzar a rodovia com mais frequência nesses trechos.

Por outro lado, os cientistas se surpreenderam ao constatar que pastagens e áreas de produção agrícola também representam risco elevado. Nesses locais, circulam sobretudo espécies generalistas, ou seja, animais que não dependem de um habitat específico para sobreviver.

Assim, o estudo amplia o entendimento sobre quais trechos de rodovia merecem atenção. Além disso, reforça que a proteção da fauna precisa considerar diferentes tipos de paisagem, e não apenas as áreas florestadas.

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Como as passagens de fauna são decididas hoje

Atualmente, a instalação de cercas e passagens de fauna prioriza dois critérios principais: a proximidade de áreas florestais e os trechos com maior número de atropelamentos registrados. Por isso, os autores do estudo defendem a revisão desses parâmetros.

Segundo os pesquisadores, incorporar o tipo de uso do solo no entorno das rodovias pode tornar as medidas de proteção mais eficazes. A proposta ganha relevância especialmente na Mata Atlântica, bioma marcado pela fragmentação e pela diversidade de usos da terra.

Dessa forma, a inclusão de dados sobre agricultura e pecuária no planejamento viário poderia reduzir mortes de animais em trechos hoje considerados de baixo risco.

Atropelamento de fauna é ameaça à conservação no Brasil

O atropelamento de animais em rodovias está entre as principais ameaças à conservação da fauna brasileira. Estimativas indicam que cerca de 9 milhões de vertebrados morrem atropelados no país todos os anos, embora a escassez de dados de monitoramento dificulte um cálculo mais preciso.

Em São Paulo, o Departamento de Estradas e Rodagem (DER) contabiliza milhares de atropelamentos de animais silvestres por ano nas rodovias sob sua administração. Além do impacto ambiental, as colisões com médios e grandes mamíferos também colocam em risco a vida de motoristas e passageiros.

Dom Pedro I liga polos econômicos e corredor ecológico

A Rodovia Dom Pedro I tem 145 km de extensão e liga os municípios de Jacareí e Campinas. Por ela, circulam cerca de 450 mil veículos por dia.

Além da relevância econômica, a via atravessa o Corredor Cantareira-Mantiqueira, iniciativa que busca conectar fragmentos de Mata Atlântica entre o Parque Estadual da Cantareira e a Serra da Mantiqueira. Para o levantamento, os pesquisadores utilizaram dados de atropelamentos fornecidos pela concessionária responsável pela rodovia, a Rota das Bandeiras. O estudo foi publicado na revista científica Wild.

Capivara lidera ranking de atropelamentos

Ao todo, mais de 24 espécies diferentes de mamíferos de médio e grande porte foram vítimas de atropelamento na rodovia durante o período analisado. Entre elas, estão espécies ameaçadas ou vulneráveis no estado, como o tamanduá-bandeira, a jaguatirica, o lobo-guará e a onça-parda.

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Já a capivara, espécie que não corre risco de extinção, respondeu sozinha por 60% de todas as ocorrências registradas. O dado reforça como espécies generalistas, adaptadas a diferentes ambientes, também merecem atenção nas estratégias de mitigação.