Resumo da notícia
- Plantações de eucalipto na Mata Atlântica abrigam maior diversidade de pequenos mamíferos do que culturas de ciclo curto como soja e milho, incluindo espécies endêmicas vulneráveis.
- O estudo no Corredor Cantareira-Mantiqueira mostrou que a estabilidade da paisagem ao longo do tempo é crucial para a presença desses animais em áreas agrícolas.
- Mapas de uso do solo combinados com imagens de satélite revelam que a variação temporal das culturas influencia na biodiversidade, destacando a importância da conservação de ambientes estáveis.
Pesquisadores da Unesp, em colaboração com universidades da Espanha e do Reino Unido, identificaram que plantações de eucalipto abrigam maior diversidade de pequenos mamíferos do que culturas de ciclo curto, como soja e milho. O estudo foi publicado na revista Agriculture, Ecosystems & Environment. E aponta que a estabilidade da paisagem ao longo do tempo é o fator decisivo para a presença desses animais em áreas agrícolas da Mata Atlântica.

A pesquisa ocorreu no Corredor Cantareira-Mantiqueira, região de grande importância ecológica que conecta remanescentes da Mata Atlântica no nordeste do estado de São Paulo e ao sul de Minas Gerais. Os pesquisadores instalaram armadilhas em 63 locais distintos. Foram 35 em áreas florestais, 16 em pastagens, 6 em áreas agrícolas e 6 em eucaliptais. E capturaram 21 espécies de marsupiais e roedores de pequeno porte, entre cuícas, ratos-do-mato e gambás-de-orelha-preta.
Satélites revelam o ritmo oculto das lavouras
Para entender como cada tipo de uso do solo afeta a fauna, a equipe combinou os dados de captura com mapas de cobertura do solo e com índices de vegetação obtidos a partir de imagens de satélite. Essa combinação trouxe uma dimensão até então pouco explorada nos estudos de distribuição de fauna no bioma: a variação temporal das culturas ao longo do ano.
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Os índices de vegetação traduzem em dados quantitativos a luz absorvida ou refletida pelas plantas, revelando informações como saúde, produtividade e composição das lavouras. “Os índices de vegetação conseguem mostrar, por exemplo, o quão produtiva está uma vegetação, se elas são formadas por espécies parecidas ou diferentes, ou como esses espaços variaram ao longo do ano”, explica Viviane Brito Dias, bióloga e pesquisadora principal do artigo, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp no câmpus de São José do Rio Preto.
Dias destaca que os mapas de uso e ocupação do solo, embora fundamentais, não capturam aspectos críticos para a biodiversidade, como a frequência com que a paisagem muda entre um ciclo de colheita e outro, ou a diferença qualitativa entre um pasto bem conservado e uma pastagem degradada. A análise temporal preencheu exatamente essa lacuna.
Instabilidade afasta, eucalipto atrai
Os resultados mostram uma relação direta entre a estabilidade da paisagem e a presença de pequenos mamíferos. “As áreas de mosaico, marcadas pela mudança constante do uso do solo, influenciaram de forma negativa, reduzindo a presença de pequenas espécies”, afirma Dias. O efeito contrário apareceu nos eucaliptais. Com ciclos que variam entre seis e nove anos, essas plantações oferecem estabilidade suficiente para atrair e manter uma diversidade maior de espécies.

A surpresa veio com a qualidade das espécies encontradas nessas áreas. “Nas áreas de eucalipto encontramos inclusive espécies endêmicas da Mata Atlântica, com poucos registros na literatura. Cuícas de solo terrestre, vulneráveis, que nós esperávamos encontrar apenas em áreas florestais. Isso nos surpreendeu”, destaca a pesquisadora.
Os pequenos jardineiros da floresta
Com peso médio de 100 gramas e máximo de dois quilos, esses animais vivem entre o solo e o dossel das árvores. Dependendo diretamente dos recursos imediatos ao seu redor. Roedores terrestres e escansoriais, que se deslocam tanto no chão quanto nos galhos,dependem de uma camada intermediária de vegetação e da serrapilheira para se alimentar e se camuflar.
Qualquer alteração brusca da paisagem os afeta de imediato. “Se a paisagem muda muito, isso afeta imediatamente essas espécies”, ressalta Dias. Ao contrário de aves ou grandes mamíferos, esses roedores não têm capacidade de voar ou percorrer longas distâncias em busca de novos habitats.
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O papel ecológico desses animais vai além de ser presa para carnívoros. Ao se alimentar de frutos e sementes, eles funcionam como agentes ativos da regeneração florestal, regulando quais plantas germinam e evitando que certas espécies dominem o ambiente. Portanto, um serviço ecossistêmico essencial para a integridade da Mata Atlântica.
Produção e conservação no mesmo território
A pesquisa integra o projeto de longa duração Biodiversidade e serviços associados: PELD Corredor Cantareira-Mantiqueira, financiado pela Fapesp, que investiga como as paisagens florestais, agrícolas e urbanas influenciam a distribuição de fauna e flora e os processos ecossistêmicos da região.

Para Dias, os resultados abrem caminhos práticos para o manejo agrícola com foco na conservação. A pesquisadora ressalta que, embora o eucalipto ofereça condições favoráveis agora, ainda não se sabe o que ocorre com a fauna depois do corte, ao final de um ciclo de nove anos. Mesmo assim, o trabalho já indica que é possível intercalar culturas mais estáveis com outras perenes para ampliar o número de espécies que compartilham o espaço com a produção agrícola.
Assim, no estado de São Paulo, onde pastagens degradadas convertem-se rapidamente em áreas agrícolas, compreender esses impactos torna-se urgente. “Esse trabalho busca colaborar para que a gente consiga encontrar formas de equilibrar a necessidade de produção humana com a persistência das espécies. Que também nos prestam serviços ecossistêmicos”, conclui Dias.









