Resumo da notícia
- O Fórum de Agricultura Regenerativa em Piracicaba reuniu mais de 3.300 participantes para debater práticas sustentáveis que aliem produção agrícola, preservação ambiental e financiamento adequado ao setor.
- Especialistas destacaram a falta de ensino em ecologia nos cursos de agronomia e a ausência de políticas públicas eficazes para incentivar a adoção da agricultura regenerativa no Brasil e no mundo.
- O Brasil foi apontado como protagonista na produção global de alimentos, com potencial para liderar transformações diante das mudanças climáticas e na dinâmica dos mercados internacionais.
A cidade de Piracicaba (SP) recebeu na última terça-feira (23) o Fórum de Agricultura Regenerativa 2026, que colocou em debate a relação entre produção agrícola, preservação ambiental e financiamento de práticas sustentáveis. O encontro, realizado pela primeira vez no Brasil, reuniu 350 participantes presenciais e mais de 3 mil conectados online, com representantes de mais de 20 países entre produtores rurais, cientistas, investidores e formuladores de políticas públicas.
O evento discutiu caminhos para ampliar a adoção de modelos produtivos baseados na regeneração do solo, conservação da biodiversidade e fortalecimento da segurança alimentar. O tom das falas foi de alerta sobre a necessidade de acelerar a transição no campo, diante de desafios climáticos, econômicos e regulatórios.
Ensino, políticas públicas e lacunas estruturais
Um dos pontos centrais do debate foi a crítica à formação acadêmica e à ausência de políticas públicas mais robustas para incentivar a agricultura regenerativa.
A diretora estratégica para a América Latina na Naia Trust, Analí Bustos, afirmou que há um descompasso entre ensino e prática no setor. “Quando descobri que no meu país e na maior parte do mundo os estudantes de agronomia ou agricultura não estudam ecologia, fiquei espantada. Para mim, não existe agro sem ecologia e não pode existir ensino de agronomia sem ecologia”, disse.
A especialista também defendeu maior participação do poder público na transição. “Faltam políticas públicas e incentivos para uma maior adoção da agricultura regenerativa. É essencial que seja promovido um cenário mais favorável, com benefícios e crédito, para que haja interesse por parte dos produtores”, completou.
Brasil no centro do debate global sobre alimentos
Outro ponto de destaque foi o papel estratégico do Brasil no cenário agrícola internacional. O cientista e ex-CEO do Crop Trust, Geoffrey Hawtin, afirmou que o país tende a ganhar ainda mais relevância na produção de alimentos.
“O Brasil é um dos países agrícolas mais importantes do mundo, e provavelmente se tornará ainda mais importante”, declarou. Segundo ele, mudanças climáticas podem alterar a dinâmica global de produção e consumo. “Podemos ver ao longo do tempo uma necessidade de transformação em parte dos mercados de exportação, destinando menos à pecuária intensiva e mais à alimentação humana direta”, afirmou.
O especialista também reforçou a necessidade de cooperação em diferentes níveis para avançar na agenda sustentável.

Aumento de insumos e desafio da transição
Dados apresentados durante o fórum indicaram preocupações com o uso crescente de defensivos agrícolas no mundo. O cientista-chefe da CABI, Ulrich Kuhlmann, citou aumento de 70% no uso de agrotóxicos entre 2000 e 2023, segundo dados da FAO.
“O aumento do uso de agrotóxicos no mundo de 2000 a 2023 foi de 70%, segundo dados da FAO, e isto é muito preocupante”, afirmou. Para ele, a agricultura regenerativa pode ser uma alternativa viável, mas ainda enfrenta barreiras econômicas e estruturais.
Kuhlmann destacou a falta de retorno financeiro claro ao produtor como um dos entraves à adoção de novas práticas. Ele também citou limitações da extensão rural e sugeriu o uso de ferramentas digitais de assistência técnica como alternativa para ampliar o acesso ao conhecimento.
Mudança de paradigma no campo
A diretora de Sustentabilidade da Daterra, Isabela Pascoal Becker, defendeu uma revisão na forma como a sociedade enxerga o setor agrícola.
“É essencial que enxerguemos a agricultura como parte da natureza, não como um vilão ou algo separado”, afirmou. Para ela, a mudança precisa ser estrutural e envolver toda a cadeia produtiva.
O fórum foi promovido pelo Global Landscapes Forum (GLF), pela Sustainable Agriculture Network (SAN), pelo Imaflora e pelo CABI BioProtection Portal. O encontro teve transmissão em quatro idiomas e contou com apoio institucional e do setor privado.









