Estudo identifica vocalizações inéditas na natureza e revela uma forma pouco conhecida de comunicação entre os grandes felinos no Parque Nacional do Iguaçu
onça com filhote
Foto: D Walters/Flickr

As onças-pintadas (Panthera onca) podem emitir sons semelhantes a miados em situações que envolvem possíveis tentativas de contato entre mães e filhotes. Pesquisadores registraram três episódios desse comportamento no Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, e investigaram as possíveis funções dessas vocalizações.

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O estudo Unusual jaguar vocalizations: first recorded meowing in females associated with maternal behaviour in southeastern Brazil, publicado em 2025 na revista científica Behaviour, descreve os registros de duas fêmeas e discute a possível relação dos sons com o comportamento materno.

As gravações revelaram vocalizações curtas e agudas, semelhantes aos miados de gatos domésticos. Para interpretar os registros, os cientistas consideraram o contexto em que cada animal emitiu os sons e sua possível relação com outros indivíduos.

A descoberta amplia o conhecimento sobre a comunicação animal e mostra como o monitoramento acústico pode revelar comportamentos que as imagens, isoladamente, não conseguem explicar.

Três episódios revelam um comportamento pouco conhecido

Os pesquisadores analisaram três episódios registrados em 2022 e 2023. Duas fêmeas participaram das ocorrências, que apresentaram contextos distintos.

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Em abril de 2022, uma fêmea vocalizou em uma trilha onde os pesquisadores haviam registrado um filhote de aproximadamente seis meses no dia anterior. Essa proximidade temporal levou os cientistas a considerar a possibilidade de que a mãe estivesse tentando localizar o jovem animal.

Em dezembro daquele ano, a mesma fêmea voltou a emitir sons nas proximidades do parque. A equipe havia observado a onça com um filhote mais novo alguns dias antes, mas não registrou o animal junto dela no momento da vocalização.

O terceiro episódio ocorreu em outubro de 2023 e envolveu uma fêmea jovem, com cerca de um ano de idade. Como os pesquisadores acompanhavam sua associação com a mãe, levantaram a hipótese de que os sons pudessem representar uma tentativa de contato.

Embora os três episódios apresentassem características semelhantes aos miados, os contextos observados não permitem determinar com certeza a função das vocalizações. Por isso, os autores tratam a possível comunicação entre mães e filhotes como uma hipótese científica.

Miados podem facilitar o contato entre os animais

Quando mães e filhotes ficam temporariamente separados, a emissão de sons pode ajudar os indivíduos a perceber a presença uns dos outros. Essa é uma das explicações consideradas pelos pesquisadores para as vocalizações registradas.

Entretanto, a equipe precisa de mais observações para confirmar essa interpretação. Os três episódios oferecem indícios, mas não demonstram que as onças-pintadas utilizem esses sons exclusivamente para chamar os filhotes.

Além disso, as vocalizações podem exercer outras funções sociais. Novos registros poderão ajudar os cientistas a identificar em quais situações os animais emitem esses sons e como outros indivíduos respondem.

A pesquisa também evidencia a importância de combinar imagens e gravações de áudio no estudo da fauna silvestre. Enquanto as câmeras mostram os movimentos dos animais, os sons acrescentam informações sobre possíveis interações e formas de comunicação.

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Monitoramento contribui para a conservação da espécie

O monitoramento com armadilhas fotográficas permite acompanhar animais em seu ambiente natural sem exigir a presença constante de pesquisadores. Quando os equipamentos também gravam áudio, ajudam a documentar comportamentos que poderiam passar despercebidos.

O Projeto Onças do Iguaçu utiliza esse tipo de acompanhamento para estudar a população de onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu e em seu entorno. Os registros contribuem para ampliar o conhecimento sobre a presença, os deslocamentos e o comportamento dos felinos.

Essas informações também ajudam os especialistas a compreender como os animais utilizam o habitat e quais condições favorecem sua sobrevivência.

A conservação da onça-pintada depende, entre outros fatores, da proteção da floresta, da disponibilidade de presas e da manutenção de áreas naturais que permitam o deslocamento dos indivíduos. Na Mata Atlântica, preservar esses ambientes é fundamental para a biodiversidade.

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Os miados registrados representam, portanto, uma nova oportunidade para investigar o comportamento dos grandes felinos. Embora os cientistas ainda precisem confirmar a função desses sons, o estudo mostra como o monitoramento contínuo pode revelar aspectos pouco conhecidos da vida das onças-pintadas.