Resumo da notícia
- Pesquisadores transferem filhotes rejeitados de araracanga para ninhos de casais selvagens na Amazônia peruana, aumentando a chance de sobrevivência dos mais jovens.
- A técnica aproveita o cuidado natural das aves e, em três temporadas, 28 filhotes foram adotados, com 89% deles chegando a voar pela floresta.
- Antes da adoção, apenas 17% dos filhotes sobreviviam até a fase de voo; após a implementação, a taxa de sucesso aumentou significativamente.
Pesquisadores estão testando uma estratégia para aumentar a sobrevivência dos filhotes mais jovens de araracanga (Ara macao) na Amazônia peruana. Em vez de criar as aves durante todo o período de desenvolvimento, a equipe transfere os filhotes rejeitados para ninhos de outros casais selvagens.
Além disso, a técnica aproveita o comportamento natural das aves e permite que os filhotes cresçam na floresta. Em três temporadas de reprodução, 28 filhotes foram transferidos para ninhos adotivos. Como resultado, todos foram aceitos pelos novos pais e 89% conseguiram deixar o ninho voando.
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Por que os filhotes mais jovens são abandonados
A pesquisadora Gabriela Vigo-Trauco acompanha as araracangas há mais de duas décadas. Durante esse período, sua equipe observou que os pais nem sempre conseguem alimentar todos os filhotes de uma mesma ninhada.
As araracangas podem colocar até quatro ovos por estação. No entanto, normalmente apenas um ou dois filhotes conseguem chegar à fase de voo.
A diferença de idade entre os irmãos ajuda a explicar esse comportamento. Por exemplo, apenas quatro ou cinco dias podem separar o nascimento de dois filhotes, mas essa diferença já cria necessidades distintas de alimentação e temperatura.
Assim, os pais concentram os cuidados nos filhotes mais desenvolvidos. Consequentemente, os mais jovens podem deixar de receber alimento e morrer de fome.
Segundo dados da The Macaw Society, 27% dos segundos filhotes, 81% dos terceiros e todos os quartos filhotes observados morreram de fome em determinadas ninhadas.

Como funciona a adoção na floresta
Diante desse problema, os pesquisadores passaram a procurar casais selvagens que pudessem receber os filhotes rejeitados.
Um dos casos acompanhados pela equipe foi o de Parker, retirado de um ninho em 2018. Naquele momento, o filhote ainda era muito jovem e precisava de alimentação frequente.
Enquanto isso, durante cerca de três semanas, os pesquisadores cuidaram de Parker na estação de campo. Paralelamente, procuraram um ninho que apresentasse condições adequadas para receber a ave.
Em 22 de dezembro daquele ano, a equipe colocou Parker em um novo ninho. A partir daí, a fêmea adotiva, chamada Tambo, passou a cuidar dele.
Meses depois, Parker deixou o ninho e começou a viver na floresta. Segundo os pesquisadores, ele foi o primeiro quarto filhote observado em décadas de acompanhamento de ninhos selvagens em Tambopata a chegar à fase de voo.
Depois desse resultado, a equipe repetiu a estratégia com outros filhotes. Ao todo, 28 aves foram transferidas para ninhos adotivos durante três temporadas. Nesse grupo, todas foram aceitas pelos novos pais e 89% chegaram a voar.
Técnica aumentou a sobrevivência
Além dos casos individuais, os pesquisadores observaram mudanças nos resultados gerais dos ninhos.
Entre 1999 e 2016, cerca de 17% dos filhotes por ninho disponível chegaram à fase de voo. Já entre 2017 e 2019, período em que a adoção foi utilizada, essa taxa subiu para 25%.
Ao mesmo tempo, a mortalidade por fome caiu de 19% para 4%, segundo dados apresentados pela The Macaw Society.
Por isso, a transferência para ninhos adotivos passou a ser considerada uma alternativa à criação manual de filhotes que seriam abandonados.
Por que não criar os filhotes em cativeiro
A criação manual pode salvar uma ave, mas, por outro lado, também apresenta limitações.
Um filhote criado longe da floresta precisa aprender a encontrar alimento, reconhecer ameaças e interagir com outros indivíduos. Além disso, aves criadas em cativeiro podem apresentar dificuldades quando retornam ao ambiente natural.
A adoção resolve parte desse problema porque mantém o filhote junto de aves selvagens. Dessa maneira, ele recebe alimento e, ao mesmo tempo, permanece exposto às condições naturais do ambiente.
Ainda assim, a técnica exige rapidez e planejamento. Os pesquisadores precisam encontrar um ninho adequado, localizar filhotes com idade compatível e avaliar as condições do novo grupo familiar.
Além disso, o trabalho exige equipes, equipamentos e deslocamentos pela floresta. Portanto, nem sempre será possível repetir a estratégia em regiões com poucos recursos.
Conservação vai além do resgate
A adoção de filhotes representa apenas uma das ferramentas disponíveis para proteger as araracangas.
Ao mesmo tempo, a espécie enfrenta ameaças relacionadas à perda de habitat e à captura ilegal em diferentes áreas de sua distribuição. Por isso, proteger a floresta continua sendo uma das principais medidas para garantir a sobrevivência das populações selvagens.
Na Costa Rica, por exemplo, projetos de proteção de ninhos, educação ambiental e instalação de ninhos artificiais ajudaram a recuperar populações da espécie.
Enquanto isso, Vigo-Trauco testa uma nova adaptação da técnica desde 2020. A proposta consiste em transferir os filhotes para outros ninhos logo após o nascimento, reduzindo ou eliminando a etapa de criação manual.
O método exige monitoramento mais intenso. Em compensação, pode diminuir os cuidados necessários com os recém-nascidos e reduzir os custos da operação.
Dessa forma, a experiência na Amazônia peruana pode contribuir para outros projetos de conservação que enfrentam dificuldades semelhantes. O objetivo é aumentar a sobrevivência dos filhotes sem afastá-los do ambiente em que precisarão viver depois de deixar o ninho.