Projeto ferroviário atravessa Goiás e Mato Grosso e pretende seguir por Rondônia e Acre até o Peru, criando uma ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico
Trabalhadores e máquinas atuam nas obras da FICO, ferrovia que vai ligar Goiás a Mato Grosso
Foto: Fico

O Brasil olha para o Pacífico há décadas. Desta vez, porém, parte do caminho começa a aparecer sobre o chão.

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Em Goiás, uma ferrovia avança em direção a Mato Grosso. Na Bahia, outro corredor ferroviário pretende chegar ao mesmo ponto de conexão. Mais adiante, estudos desenham trilhos por algumas das maiores regiões produtoras do país, antes de seguirem por Rondônia, Acre e cruzarem a fronteira com o Peru.

No mapa, a linha termina no Porto de Chancay, diante do Oceano Pacífico.

É um projeto de escala continental.

A chamada Ferrovia Bioceânica pretende criar uma ligação ferroviária entre os dois lados da América do Sul. O desenho oficial passa por Bahia, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre, entra no território peruano e segue até a costa.

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Só que existe uma diferença fundamental entre o mapa e a realidade.

Alguns trechos já estão em obras. Outros permanecem em estudo. Enquanto isso, a ligação internacional que efetivamente transformaria o corredor em uma ferrovia entre os oceanos ainda está longe de existir.

Em Goiás, parte do caminho já virou obra

Trecho da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste em obras na região de Mara Rosa, em Goiás
Foto: Fico

Mara Rosa, no norte de Goiás, ocupa uma posição estratégica no desenho ferroviário.

É ali que diferentes corredores deverão se encontrar.

A FICO 1 liga Mara Rosa a Água Boa, em Mato Grosso. O trecho tem cerca de 363 quilômetros, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), e recebeu previsão de R$ 10,2 bilhões em investimentos.

Em janeiro de 2026, dados da Infra S.A. apontavam avanço físico de 37,5% das obras.

Por trás desse avanço, há uma razão econômica clara para os trilhos seguirem nessa direção.

Estudos de demanda da Infra S.A. estimam que aproximadamente 80% das cargas projetadas para o corredor serão granéis sólidos vegetais. A soja responderia por cerca de 46% da movimentação, seguida pelo milho, com 28,5%. Fertilizantes aparecem com 15,3% e farelo de soja, com 6,2%.

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Ou seja, os trilhos que podem um dia chegar ao Pacífico começam a avançar justamente em direção ao coração agrícola brasileiro.

Mato Grosso coloca escala no projeto

Canteiro de obras da FICO mostra avanço da ferrovia que atravessará Goiás e Mato Grosso
Foto: Fico

Depois de Água Boa, o plano segue para Lucas do Rio Verde.

A partir daí, porém, o estágio do projeto muda. A FICO 2 terá aproximadamente 505 quilômetros, mas, ao contrário do primeiro trecho, ainda não está sendo construída. Por enquanto, o projeto básico está concluído, segundo o panorama logístico publicado pela Infra S.A. em 2026.

De Lucas do Rio Verde, o desenho avança novamente.

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O mapa apresentado pelo governo federal prevê outros 646 quilômetros até Vilhena, em Rondônia, trecho classificado como estando em estudos.

É nesse percurso que a dimensão econômica começa a ficar mais clara.

Mato Grosso está distante dos portos marítimos. Por isso, uma parte importante da competitividade da soja, do milho e de outras cargas produzidas no estado depende do custo necessário para percorrer milhares de quilômetros até encontrar um navio.

Uma ferrovia atravessando o estado não resolve automaticamente essa conta. Ainda assim, cria novas possibilidades de saída.

A secretária-adjunta de Agronegócios, Crédito e Energia, Linacis Vogel Lisboa, resumiu a questão ao afirmar que Mato Grosso cresce em ritmo capaz de atender à demanda mundial por alimentos, mas que “a logística é um desafio”.

Depois de Mato Grosso começa a parte mais difícil

Mapa da Ferrovia Bioceânica mostra o caminho do Brasil ao Pacífico, com trechos em construção, subconcedidos, em estudo e ainda conceituais até Chancay, no Peru.
Arte: Agro em Campo

Até aqui, o projeto combina obras, projetos básicos e estudos.

Depois de Vilhena, porém, a situação muda.

O mapa apresentado pelo governo na Mensagem ao Congresso Nacional de 2026 classifica como conceitual o trecho de 1.367 quilômetros entre Vilhena e Assis Brasil, no Acre.

Do lado peruano, a situação é semelhante.

Outros 1.205 quilômetros entre Assis Brasil e Chancay também aparecem como conceituais.

Somando os dois trechos, são aproximadamente 2.572 quilômetros nos quais ainda existe uma distância enorme entre desenhar uma linha no mapa e colocar locomotivas para circular.

E há, porém, um obstáculo impossível de ignorar.

Os Andes.

A partir daí, o desafio muda de escala. Uma ferrovia de carga precisa vencer diferenças de altitude, encontrar corredores tecnicamente possíveis e atravessar regiões ambientalmente sensíveis. Ao mesmo tempo, precisa chegar à costa peruana com um custo que faça sentido.

É justamente nesse ponto que a promessa de uma ligação entre os dois oceanos enfrenta sua maior prova.

O Pacífico encurta o mar, mas não necessariamente a conta

Obras da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste, a FICO, em trecho entre Goiás e Mato Grosso
Foto: Fico

Chegar ao outro lado do continente tem uma vantagem geográfica evidente.

Um navio que parte da costa peruana em direção à Ásia não precisa primeiro navegar pelo Atlântico e contornar a América do Sul, atravessar o Panamá ou seguir pela rota africana.

Só que distância marítima não é a única variável do frete.

Antes de embarcar no Pacífico, uma tonelada produzida no Centro-Oeste precisaria atravessar milhares de quilômetros por ferrovia até chegar ao Peru.

É nesse ponto que surge uma divergência importante entre o discurso institucional e parte do setor produtivo.

Aprosoja-MT questiona a conta

Uma ferrovia pode ser competitiva para levar grãos de Mato Grosso aos portos brasileiros e, ao mesmo tempo, não ser competitiva para continuar por milhares de quilômetros até o Pacífico.

Por isso, só os estudos completos de demanda, engenharia, tarifa ferroviária e custo logístico poderão responder se a travessia continental fecha a conta.

O Acre quer ser a porta brasileira para o Pacífico

Estrutura ferroviária em construção na FICO, parte do corredor planejado entre o Brasil e o Pacífico
Foto: Fico

 

Se Mato Grosso concentra boa parte da carga potencial, o Acre ocupa uma posição geográfica diferente.

É a fronteira.

Por isso, o governo acreano tenta transformar essa localização em vantagem econômica e vem participando das discussões sobre a integração com o Peru.

Só que até mesmo o caminho pelo estado ainda é motivo de discussão.

O Acre já defendeu alternativas de integração pelo eixo do Alto Acre e também pelo Juruá, em direção à região peruana de Ucayali.

Em setembro de 2025, a vice-governadora Mailza Assis levou diretamente ao governo peruano a defesa de uma passagem pelo eixo Juruá–Ucayali.

Na prática, isso mostra quanto ainda falta definir.

Não se discute apenas quando construir.

Ainda se discute por onde passar.

Entre os trilhos e o Pacífico está a Amazônia

Ferrovia em construção no Centro-Oeste integra projeto de ligação ferroviária do Brasil ao Pacífico
Foto: Fico

Qualquer traçado entre Rondônia, Acre e Peru também coloca a floresta no centro da discussão.

A escolha do corredor poderá determinar impactos sobre vegetação, comunidades, áreas protegidas e territórios indígenas.

Por isso, o projeto precisará passar por estudos ambientais e processos de licenciamento antes que uma eventual obra possa avançar.

A questão ambiental também interfere diretamente na engenharia e no custo.

Desviar de uma área sensível pode aumentar quilômetros. Túneis, pontes e grandes obras de arte elevam investimentos. Ao mesmo tempo, mudanças de traçado alteram a distância e, consequentemente, a tarifa necessária para remunerar a infraestrutura.

Nesse caso, meio ambiente e viabilidade econômica não são discussões separadas.

O que existe e o que ainda está no mapa

Construção da FICO avança no Centro-Oeste com implantação da infraestrutura ferroviária
Foto: Fico

A melhor maneira de entender o projeto é separar suas etapas.

No lado brasileiro, a FIOL 1, entre Ilhéus e Caetité, foi subconcedida. A FIOL 2, entre Caetité e Barreiras, está em construção. Depois disso, a continuação até Mara Rosa permanece em estudos.

De Goiás para Mato Grosso, a FICO 1 está em construção. Já a continuação para Lucas do Rio Verde e, depois, para Vilhena permanece em diferentes etapas de estudo.

A partir de Vilhena, o grau de maturidade muda novamente.

Vilhena–Assis Brasil: conceitual.

Assis Brasil–Chancay: conceitual.

É justamente essa separação que impede que a Ferrovia Bioceânica seja tratada hoje como uma obra contínua de um oceano ao outro.

Há trilhos sendo construídos.

Há projetos sendo desenvolvidos.

Ao mesmo tempo, existem milhares de quilômetros que ainda precisam provar que podem — e devem — existir.

Uma linha de quase um continente

No papel, ligar os oceanos parece simples.

Ilhéus. Goiás. Mato Grosso. Rondônia. Acre. Peru. Pacífico.

No terreno, a história é outra.

Essa linha precisa atravessar algumas das maiores regiões produtoras do país, avançar pela Amazônia, cruzar uma fronteira internacional e encontrar uma passagem economicamente viável pelos Andes.

A escala explica por que a ideia atravessa governos e reaparece há décadas.

Desta vez, porém, existe uma diferença: uma parte dos trilhos que compõem esse caminho já está sendo construída.

Isso ainda não significa que o trem chegará ao Pacífico.

Entre Mara Rosa e Chancay existem obras, estudos, decisões ambientais, bilhões em investimentos e milhares de quilômetros ainda sem ferrovia.

Por enquanto, o Brasil começou a construir partes do caminho.

O que falta saber é até onde esses trilhos conseguirão chegar — e a que custo.