Estudo do DNA de Jonathan, com idade estimada em 194 anos, busca pistas sobre os mecanismos biológicos do envelhecimento
Jonathan, a tartaruga mais velha do mundo
Jonathan, a tartaruga mais velha do mundo - Foto: Luke McKernan/Flickr

Uma tartaruga-gigante que vive há quase dois séculos pode ajudar os cientistas a compreender por que alguns organismos envelhecem mais lentamente. Conhecido como Jonathan, o animal tem idade estimada em 194 anos e é reconhecido pelo Guinness World Records como o animal terrestre vivo mais velho do mundo.

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Em estudo publicado na revista científica Science Advances em 7 de outubro de 2026, pesquisadores analisaram o genoma e o epigenoma da tartaruga. A equipe identificou 287 genes com variantes genéticas únicas em Jonathan, incluindo alguns associados ao reparo do DNA, à regulação da inflamação e à supressão de tumores.

Os resultados também apontaram características relacionadas à regulação da insulina, ao funcionamento das mitocôndrias e à manutenção dos telômeros, estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos. Esses processos são relevantes para a pesquisa sobre longevidade, mas ainda não explicam, isoladamente, por que o animal viveu tanto tempo.

O que os cientistas descobriram no DNA de Jonathan?

Jonathan pertence à espécie Aldabrachelys gigantea, conhecida como tartaruga-gigante-de-Aldabra. O animal vive na ilha de Santa Helena, território britânico no Atlântico Sul, desde 1882, quando já era adulto.

Para investigar sua longevidade, os pesquisadores analisaram o genoma, que reúne as informações genéticas do organismo, e o epigenoma, conjunto de marcas químicas que influencia a atividade dos genes sem modificar a sequência do DNA.

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A análise identificou 287 genes que apresentam variantes genéticas únicas em Jonathan em comparação com as sequências usadas no estudo. Algumas dessas diferenças estão em vias biológicas relacionadas ao reparo do DNA, à regulação metabólica e à proteção celular.

Esses processos interessam à ciência porque as células acumulam alterações ao longo da vida. Com o tempo, danos genéticos e mudanças na regulação dos genes podem comprometer o funcionamento dos tecidos e contribuir para o desenvolvimento de doenças.

Entretanto, a identificação dessas variantes não comprova que elas sejam responsáveis pela longevidade do animal. Os pesquisadores precisam investigar como cada diferença genética atua e se características semelhantes aparecem em outras tartarugas longevas.

Epigenética revela um resultado importante

Além do DNA, o estudo examinou a metilação, um processo químico que participa da regulação da atividade genética. Os pesquisadores também avaliaram a entropia de metilação, uma medida do grau de desorganização desses padrões em determinadas regiões do genoma.

Em geral, o envelhecimento está associado a mudanças epigenéticas. No caso de Jonathan, os pesquisadores observaram que grande parte do genoma apresenta alterações compatíveis com a idade avançada. Entretanto, algumas regiões mantêm padrões relativamente organizados.

O estudo identificou 272 regiões promotoras com baixa entropia de metilação. Essas regiões ajudam a regular a atividade dos genes e incluem áreas associadas à produção de energia nas mitocôndrias, ao processamento do RNA e à manutenção do material genético.

Na prática, o resultado sugere que determinados mecanismos de regulação genética podem permanecer mais organizados mesmo em um animal muito velho.

Essa observação chama a atenção porque a atividade dos genes influencia diversos processos celulares. Contudo, os pesquisadores ainda precisam esclarecer se essa estabilidade contribui diretamente para a longevidade ou se está relacionada a outros fatores biológicos.

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Como as mitocôndrias entram nessa descoberta?

As mitocôndrias são estruturas celulares responsáveis pela produção de grande parte da energia utilizada pelo organismo. Seu funcionamento adequado é importante para a manutenção dos tecidos e para diversas atividades metabólicas.

Os pesquisadores encontraram uma associação entre regiões com baixa entropia de metilação e genes envolvidos na produção de energia mitocondrial. Esse padrão pode ajudar a explicar como certas funções celulares permanecem reguladas ao longo da vida.

O estudo também relaciona essas regiões a genes envolvidos no processamento do RNA e na manutenção do DNA e dos telômeros.

Em conjunto, os resultados sustentam a hipótese de que a regulação estável de determinados genes pode favorecer a manutenção das células durante períodos prolongados. Ainda assim, a pesquisa não comprova que esse mecanismo seja a causa da longevidade de Jonathan.

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O que a pesquisa pode revelar sobre o envelhecimento humano?

O interesse dos cientistas vai além da idade recorde da tartaruga. Ao estudar espécies longevas, os pesquisadores procuram compreender como determinados organismos preservam funções celulares durante períodos muito superiores aos observados em muitos outros animais.

No caso de Jonathan, os resultados podem orientar novas investigações sobre reparo do DNA, metabolismo energético, regulação genética e manutenção dos telômeros. Esses processos também são estudados por sua relação com o envelhecimento humano e as doenças associadas à idade.

No entanto, a pesquisa não demonstrou um método para retardar o envelhecimento humano. Os resultados indicam possíveis caminhos para novas investigações, mas qualquer aplicação médica dependerá de estudos adicionais e de comprovação de segurança e eficácia.

Identificar um mecanismo associado à longevidade não significa que seja possível reproduzi-lo em seres humanos ou transformá-lo diretamente em tratamento.

Por enquanto, a principal contribuição do trabalho é ampliar o conhecimento científico sobre os processos biológicos que podem ajudar algumas espécies a viver por períodos extraordinariamente longos.

Como os cientistas estimaram a idade da tartaruga?

A idade exata de Jonathan é desconhecida. Registros históricos indicam que ele chegou a Santa Helena em 1882, quando já era adulto. Com base nesses documentos, os pesquisadores estimam que o animal tenha nascido por volta de 1832.

Assim, Jonathan tem aproximadamente 194 anos em 2026. O Guinness World Records reconhece o animal como o mais velho entre os animais terrestres vivos conhecidos.

A idade estimada torna Jonathan um caso especialmente interessante para a ciência. Entretanto, a ausência de um registro exato de nascimento impede determinar sua idade com precisão absoluta.

Estudo tem limitações e exige novas pesquisas

Uma limitação importante é que a investigação comparou o epigenoma de Jonathan com o de outras quatro tartarugas-gigantes, de diferentes idades. Portanto, os resultados não permitem afirmar que todas as características encontradas sejam comuns aos indivíduos longevos da espécie.

Além disso, os pesquisadores precisam distinguir as características genéticas particulares de Jonathan dos mecanismos que efetivamente podem contribuir para sua longevidade. Fatores ambientais e diferenças individuais também podem influenciar a sobrevivência.

Novos estudos com outras tartarugas e espécies longevas poderão ajudar a esclarecer essas relações. Experimentos adicionais também serão necessários para determinar se as variantes genéticas e os padrões epigenéticos observados produzem efeitos diretos sobre o funcionamento celular.

A pesquisa não oferece uma fórmula para prolongar a vida humana, mas revela pistas importantes sobre a manutenção das funções celulares. Ao investigar como o organismo de Jonathan preserva determinados mecanismos, os cientistas ampliam as possibilidades de compreender o envelhecimento e suas consequências para a saúde.