Encontrado no Amapá, Laimosemion laranja já corre perigo vivendo em locais afetados pelo garimpo
Macho da espécie recém-descoberta no Amapá (Foto: Yuri Abrantes/Reprodução)

Pesquisadores descobriram uma nova espécie de peixe na Amazônia, que vive em riachos de Laranjal do Jari, no sul do Amapá. Batizado de Laimosemion laranja, o peixinho encanta com suas cores vibrantes e chamativas.

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A descoberta amplia para seis o número de espécies de peixes da família Rivulidae registradas no Amapá pelo levantamento apresentado no estudo. Também revela uma preocupação: conhecido em apenas três localidades na região do Rio Cajari, o peixe vive em ambientes que já sofrem com o garimpo, o desmatamento e a expansão urbana.

O trabalho envolveu pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), da Universidade Federal do Pará (UFPA), do Instituto Peixe das Nuvens e da Universidade do Oeste da Flórida. A descrição da espécie foi publicada em agosto de 2026 na revista científica Zoosystematics and Evolution.

Uma descoberta inesperada

A equipe procurava outros peixes quando encontrou o animal de coloração incomum.

“Estávamos realizando um estudo com foco em outros peixes da família Poeciliidae, popularmente conhecidos como ‘barrigudinhos’. Ao visitar uma das localidades-alvo, no sul do estado do Amapá, encontramos esse peixe com seu exuberante colorido, o que foi algo inédito para nós”, contou o biólogo Yuri Abrantes, pesquisador da UFRN.

Os exemplares estudados foram coletados em expedições realizadas em 2024 e 2025. O indivíduo escolhido como referência formal para a descrição da espécie, chamado de holótipo, é um macho de 26,8 milímetros, encontrado em junho de 2025 no Igarapé Massaranduba, na bacia do Rio Cajari.

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Entre os animais analisados, o maior macho apresentou 27,8 milímetros de comprimento padrão, medida que não inclui a nadadeira caudal. A maior fêmea chegou a 20,6 milímetros.

Para confirmar que se tratava de uma nova espécie, os cientistas combinaram análises genéticas e características físicas, como a coloração, a disposição das escamas, os raios das nadadeiras e as estruturas ósseas.

“A combinação entre informações obtidas do DNA mitocondrial e características morfológicas reúne as principais evidências que tornam L. laranja uma nova espécie”, explicou Abrantes.

As diferenças genéticas foram de 5,3% em relação a Laimosemion agilae e Laimosemion strigatus, 9,2% na comparação com L. dibaphus e 12,3% com L. geayi.

Escolha do nome

Os machos apresentam fileiras de pontos alaranjados na parte anterior do corpo e faixas inclinadas da mesma cor na região posterior. Esse padrão ajudou a inspirar o nome científico.

“O nome Laranja é um epíteto específico com duas alusões: a primeira faz referência ao lindo padrão de colorido laranja que os machos da espécie exibem. Já a segunda é uma homenagem à cidade de Laranjal do Jari, no sul do Amapá, onde a localidade-tipo da espécie está situada”, afirmou o pesquisador.

Além disso, a escolha também buscou homenagear o munício da descoberta, Laranjal do Jari.

O achado ajuda a conhecer uma parcela da biodiversidade amazônica que ainda recebe pouca atenção. Segundo o biólogo, peixes pequenos que vivem em riachos e ambientes sujeitos a inundações sazonais costumam ser pouco amostrados, apesar de sua importância para as comunidades ecológicas.

Espécie já corre perigo

Até agora, todos os registros de Laimosemion laranja estão em três localidades de Laranjal do Jari. Os animais foram encontrados em poças próximas a riachos, em áreas florestadas, com profundidades entre 0,5 e 1 metro.

Durante as expedições, os pesquisadores observaram desmatamento, árvores queimadas e ambientes afetados pela mineração. Em um dos pontos, moradores identificaram poças como vestígios de atividades de garimpo. A água apresentava coloração avermelhada e grande quantidade de partículas em suspensão. Em outro, dentro da cidade, a equipe registrou perda de habitat e poluição por plástico.

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“Em nossos estudos de campo, verificamos que Laimosemion laranja pode ser classificado como ‘em perigo de extinção’, principalmente devido à distribuição geográfica restrita e ao declínio de habitat. Neste último caso, a expansão urbana e o garimpo são apontados como os principais fatores de ameaça”, afirmou Abrantes.

Os cientistas calcularam uma extensão de ocorrência de 25 km² e uma área de ocupação de 12 km². Com base nesses dados e na degradação dos ambientes, propuseram a classificação da espécie como “Em Perigo”, seguindo os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Novas pesquisas podem ajudar na preservação

Uma das localidades fica na borda da Reserva Extrativista do Rio Cajari. Embora a equipe não tenha realizado coletas dentro da unidade, os pesquisadores consideram possível que a espécie também viva ali.

Por isso, recomendam novas buscas dentro e fora da reserva para conhecer sua distribuição e avaliar medidas de proteção, como a ampliação dos limites da unidade. Os estudos também poderão subsidiar futuras avaliações do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Peixes Rivulídeos Ameaçados de Extinção, conduzido pelo CEPTA-ICMBio.

“Isso nos ajudará a conhecer melhor a diversidade ictiofaunística ainda subamostrada da Amazônia, bem como a nortear ações para evitar a perda das áreas úmidas onde esses organismos habitam”, destacou Abrantes.