Resumo da notícia
- Um arapaçu-liso foi flagrado no Jardim Botânico do Rio usando um piolho-de-cobra para esfregar nas penas, comportamento chamado anting, que geralmente envolve formigas para proteção química.
- Esse hábito é raro entre aves neotropicais, com apenas quatro registros conhecidos, incluindo outras espécies de arapaçus e o joão-de-barro.
- A ação não tem finalidade alimentar, pois o piolho-de-cobra libera substâncias químicas que afastam predadores, e a ave utiliza essas defesas naturais para se proteger.
Um arapaçu-liso (Dendrocincla turdina) foi flagrado esfregando um piolho-de-cobra nas próprias penas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A ave desceu ao chão, pegou o invertebrado com o bico e voltou para uma árvore. Em vez de comê-lo, começou a passá-lo pelo corpo.
Quem registrou a cena foi a arquiteta, observadora e fotógrafa de aves Renata Franco Neder, durante uma caminhada pelo local. O comportamento é conhecido como anting e costuma envolver formigas.
- Papagaio que não voa bate recorde de filhotes e população chega a 325 aves
- Passarinho “tempera” grilo com geleia e cena diverte
Depois de descarregar as fotos, ela procurou a bióloga Gabriela Astorga, mestranda no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisadora estuda o arapaçu-liso e havia apresentado recentemente uma palestra sobre o assunto.
Anting
O termo anting descreve situações em que aves esfregam formigas no corpo ou permitem que elas caminhem entre suas penas. Trata-se, portanto, de uma estratégia onde as aves utilizam as defesas químicas de insetos em benefício próprio.

Ave é flagrada esfregando piolho-de-cobra nas penas (Foto: Renata Franco Neder/Reprodução)
Na cena registrada por Renata, o arapaçu-liso utilizou um piolho-de-cobra, animal do grupo dos diplópodes. Embora as imagens não permitam identificar sua espécie, Gabriela explica que é possível reconhecer o grupo ao qual ele pertence.
“Os piolhos-de-cobra geralmente não são predados por aves por liberarem secreções que os tornam impalatáveis (algo que não agrada ao paladar ou que possui um gosto ruim). Então, ele ter capturado um piolho-de-cobra e esfregado no corpo num movimento de anting não teria como ser uma captura para alimentação”, explicou a bióloga.
Essas secreções funcionam como uma defesa contra predadores. Ao passar o invertebrado pelas penas, a ave pode aproveitar as substâncias que ele libera, de forma semelhante ao que acontece com as formigas.
Comportamento não é comum entre aves neotropicais
Segundo Gabriela, o flagrante representa o quarto registro conhecido desse tipo de interação entre aves neotropicais. Os anteriores envolveram outras três espécies: o arapaçu-vermelho, o arapaçu-de-garganta-branca e o joão-de-barro.
A pesquisadora também já observou arapaçus-lisos realizando o comportamento. Em uma dessas ocasiões, acompanhou uma ave que esfregou o piolho-de-cobra no corpo e, ao terminar, soltou o invertebrado antes de ir embora. Para ela, essa sequência reforça que a captura não tinha finalidade alimentar.
Novas observações poderão ajudar os pesquisadores a entender a função desse hábito.