Resumo da notícia
- O Dia Internacional das Mulheres Rurais destaca a crescente participação feminina no agronegócio, da produção agrícola à gestão e inovação, com avanços significativos em formação e atuação profissional.
- Mulheres representam 54% dos concluintes em cursos agrícolas em 2024 e gerem 19% das propriedades rurais, com maior presença em pecuária e cadeias como cacau, soja e café, segundo estudos recentes.
- Apesar do crescimento, elas ainda são 18,7% do total de trabalhadores do campo e buscam reconhecimento, autonomia e oportunidades reais para ampliar seu impacto no setor agropecuário.
O Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado em 15 de outubro, chama a atenção para a participação feminina na produção de alimentos e no desenvolvimento das comunidades do campo. No agronegócio brasileiro, essa presença aparece em diferentes frentes: da gestão de propriedades rurais à pesquisa científica, passando pela produção agrícola, pela inovação e pela regulamentação de insumos.
Embora as mulheres sempre tenham atuado no campo, a conquista de reconhecimento profissional e de espaço nas decisões continua em andamento. Ao mesmo tempo, os dados sobre formação acadêmica e gestão de propriedades mostram mudanças no perfil do setor.
Segundo o Censo da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC), as mulheres representaram 54% dos concluintes de cursos relacionados a agricultura, silvicultura, pesca e veterinária em 2024. Em 2010, essa participação era de 40%. Além disso, elas superaram os homens pela primeira vez em 2018, quando chegaram a 50,3% dos concluintes dessas áreas.
O crescimento também aparece na Engenharia Agronômica. Levantamento do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), conforme dados apresentados pelo setor, aponta que o número de engenheiras agrônomas aumentou 56% em dez anos e triplicou desde 2000. Atualmente, as mulheres representam de 20% a 22% dos profissionais com registro ativo na área.
Apesar desses avanços, a participação feminina ainda varia conforme a atividade. O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2026, do Ministério das Mulheres, aponta que elas representavam 18,7% das 7,8 milhões de pessoas ocupadas em agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura, com base em dados de 2024.
Mulheres assumem a gestão de propriedades
O estudo Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro, da Fundação IDH, divulgado em 2026, aponta que mulheres gerem 19% das propriedades rurais brasileiras. A participação varia conforme a atividade: chega a 33% na pecuária, a 22% na cadeia do cacau, a 18% nos citros, a 17% na soja e a 13% no café.
A presença feminina também aparece nas políticas de apoio à agricultura familiar. Segundo o Raseam 2026, das 1,1 milhão de pessoas atendidas pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) em 2024, 38,5% eram mulheres. No Nordeste, elas correspondiam a 50,4% dos beneficiários. Já no Sul, representavam 18,4%.
Natalya aposta na horticultura maranhense
Para a produtora rural Natalya Ferraz Rodrigues, que atua na horticultura no Maranhão, essa evolução precisa vir acompanhada de oportunidades concretas.

“Mas acredito que o principal não é simplesmente aumentar a presença feminina: é garantir que essa presença seja acompanhada de reconhecimento, autonomia e oportunidades reais. A mulher não está chegando ao agro apenas para ocupar espaço. Ela está mostrando competência, produzindo, empreendendo, inovando e tomando decisões”, afirma.
Filha de pecuarista, Natalya se formou em Direito e chegou a trabalhar como advogada. Há cerca de três anos, porém, decidiu se dedicar à agricultura, atividade que define como uma paixão. Sua experiência começou com o cultivo de tomate e melancia. Desde então, a horticultura passou a ocupar um lugar central em sua trajetória.
“O tomate acabou se tornando um grande divisor de águas na minha trajetória. Passei a enxergar não apenas a produção, mas todo o potencial que existe na horticultura maranhense. Sou advogada por profissão, mas agricultora por vocação e paixão”, conta.
Um dos projetos que marcaram sua atuação foi a idealização do Dia D da Cultura do Tomate, em Amarante do Maranhão. A iniciativa surgiu para mostrar o potencial da cultura no estado e as possibilidades de geração de renda e desenvolvimento da produção local.
Além disso, Natalya destaca que a atividade exige conhecimento técnico e capacidade de planejamento. “No agro o posicionamento é fundamental. Quando você conhece o seu trabalho, acredita no que faz e se posiciona com segurança, o respeito vem naturalmente”, diz.
Pesquisa e conhecimento também movem o agro
A trajetória da pesquisadora, bióloga e doutora em Agronomia Adriana Micheli mostra outra forma de atuação feminina no setor. Natural de Castro, no Paraná, ela cresceu em uma região ligada ao agronegócio. Apesar de a mãe sugerir que seguisse o magistério, Adriana escolheu a Biologia.

Depois da graduação, fez mestrado em Entomologia e começou a trabalhar com pesquisa em campo na Fundação ABC, onde permaneceu por 13 anos. Atualmente, integra a G12 Agro Pesquisa e Consultoria Agronômica e atua principalmente com a cultura da batata.
“Foi a realização de um sonho, iniciei minha vida profissional auxiliando diretamente na pesquisa em campo. Fiquei na Fundação ABC por 13 anos e considero que foi minha base como pesquisadora na agricultura”, relata.
Para Adriana, a pesquisa agrícola exige aprendizado contínuo e capacidade de encontrar soluções para os desafios de cada safra. Por isso, ela considera o dinamismo uma das características mais marcantes da atividade.
“Nenhum dia é igual ao outro, nenhuma safra é igual a outra, estamos sempre aprendendo e o agro nos força a ser melhores a cada dia”, afirma.
A pesquisadora também destaca a contribuição das mulheres nas famílias de agricultores. Segundo ela, muitas já participavam das atividades rurais antes de conquistar maior visibilidade profissional.
“Batalhamos por nosso espaço e mostramos que também podemos atuar no agronegócio. Muito espaço foi aberto pelas mulheres das famílias de agricultores, que sempre estiveram presentes no campo”, diz.
Regulamentação conecta tecnologia e produção
A participação feminina no agronegócio não se limita à produção ou à pesquisa. A engenheira agrônoma Manuela Hiromi de Holanda Dodo, especialista em regulamentação de insumos agrícolas da Ascenza Brasil, trabalha com processos técnicos e requisitos legais para que os produtos cheguem aos agricultores em conformidade com as exigências aplicáveis.

A ligação com o setor começou ainda na infância. Segundo Manuela, boa parte da família é formada por agrônomos, incluindo seu pai. Essa convivência influenciou sua escolha profissional.
Embora sua rotina não se concentre na lavoura, ela considera que seu trabalho tem impacto direto na atividade agrícola. Afinal, a regulamentação integra o caminho entre o desenvolvimento de um insumo e sua chegada ao produtor.
“O agro, para mim, é combustível. É um setor que me movimenta, me desafia e me faz aprender constantemente”, afirma.
Manuela avalia que a evolução tecnológica do setor abriu espaço para diferentes perfis profissionais. “Hoje é um setor cada vez mais técnico, tecnológico e aberto a diferentes perfis profissionais. As mulheres foram conquistando seu espaço por competência e conhecimento”, diz.
Além disso, a especialista destaca que a presença feminina pode contribuir com diferentes perspectivas nas equipes e nas posições de liderança. Para ela, a união entre ciência, tecnologia e produção torna o trabalho no setor ainda mais relevante.
Reconhecimento ainda é um desafio
Além das conquistas individuais, a organização de mulheres em comissões de sindicatos rurais, associações de classe e eventos do setor tem ampliado as oportunidades de articulação e troca de experiências. Em 2026, a criação da Câmara Temática de Mulheres Rurais no Ministério da Agricultura também levou o tema à agenda institucional.
Para Natalya, o objetivo é que a participação feminina deixe de ser tratada como uma exceção e passe a fazer parte naturalmente da realidade do campo.
“Eu espero que, no futuro, falar sobre mulher no agro seja cada vez mais natural. Quero ver uma nova geração de meninas crescendo sabendo que o campo também é lugar delas, que podem produzir, empreender, liderar e transformar suas comunidades”, afirma.