Resumo da notícia
- A família Stapelbroek migrou da Holanda para o Brasil na década de 1940, buscando recomeçar após a Segunda Guerra Mundial, enfrentando desafios para adaptar suas culturas ao novo clima e solo.
- Em 1960, em Não-Me-Toque (RS), fundaram a Stara, inicialmente uma pequena oficina que fazia adaptações em máquinas agrícolas importadas para o mercado brasileiro em expansão.
- A Stara evoluiu de uma oficina familiar para uma das principais fabricantes de máquinas agrícolas do país, destacando-se pela inovação e diversidade na produção desde seus primeiros anos.
A história da Stara começa muito antes da indústria instalada em Não-Me-Toque, no interior do Rio Grande do Sul. Ela tem origem na Holanda, entre pequenos agricultores da tradicional família Stapelbroek que precisaram atravessar o oceano para recomeçar a vida no Brasil.
Durante visita de jornalistas à fábrica da empresa, realizada paralelamente à Expodireto Cotrijal, a trajetória da companhia foi apresentada pela gerente de marketing da Stara, Cíntia Dal Vesco, revelando como uma pequena oficina familiar se transformou em uma das principais fabricantes de máquinas agrícolas do país.
Uma família em busca de recomeço
O ponto de partida remonta ao final da década de 1930 e início dos anos 1940, quando a família Stapelbroek vivia da agricultura de subsistência na Holanda. Além de agricultor, o patriarca também atuava como ferreiro, produzindo ferramentas e pequenas máquinas utilizadas na lavoura.
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Com a Segunda Guerra Mundial e a crise humanitária que atingiu a Europa, a família decidiu migrar para o Brasil. Assim, com apoio da igreja, vendeu tudo o que possuía e embarcou rumo ao país sul-americano em busca de uma nova oportunidade.
A chegada ocorreu pelo porto de Santos. Em seguida, os imigrantes seguiram para a Fazenda Ribeirão, região que hoje corresponde ao município de Holambra, no interior de São Paulo. A proposta era reconstruir a vida em comunidade, trabalhando em um modelo cooperativo.

Durante quatro anos, a família viveu em condições simples, em uma casa de pau a pique e chão batido. Na bagagem trouxeram sementes e mudas que pretendiam cultivar no Brasil. No entanto, o clima e as características do solo eram muito diferentes da realidade holandesa, o que dificultou a adaptação das culturas.
Diante das dificuldades, a família decidiu tentar novamente e buscar um novo lugar para recomeçar.
Da pequena oficina à inovação no campo
O destino escolhido foi Não-Me-Toque, no norte do Rio Grande do Sul, município conhecido por reunir colônias de imigrantes holandeses. Foi ali que, por volta de 1960, surgiu a primeira oficina criada pela família em sociedade com os Rauwers. Nascia a Stapelbroek Rauwers & Cia Ltda., dedicada inicialmente a adaptações em máquinas agrícolas.
Naquele período, a agricultura brasileira começava a ganhar escala comercial. Muitas máquinas eram importadas e precisavam de ajustes para funcionar nas condições do campo brasileiro. Dessa forma, a pequena oficina passou a atender justamente essa demanda.
Em 29 de agosto de 1960 surgiu oficialmente a Stara. A estrutura era simples: um galpão de madeira com cerca de 400 metros quadrados. O nome da empresa nasceu da união dos sobrenomes Stapelbroek e Rauwers.
Nos primeiros anos, a empresa produzia pulverizadores e adaptava equipamentos agrícolas. A oficina também fabricava itens variados, como camas hospitalares, cozinhas, cadeiras de dentista e até baterias musicais, mostrando a capacidade técnica dos fundadores.
Proximidade com produtor
A proximidade com o produtor rural sempre foi uma característica da empresa. Na fase inicial da mecanização agrícola, um problema comum ocorria durante a capina entre as linhas de plantio: o operador do trator não conseguia visualizar corretamente a posição do equipamento e acabava danificando parte da lavoura.

Por isso, a Stara desenvolveu um sistema de orientação que permitia conduzir a ferramenta com mais precisão entre as linhas da cultura. Para a época, a inovação representou um avanço importante e ajudou a projetar o nome da empresa no setor agrícola.
O crescimento levou à inauguração de uma nova planta industrial em 1978, com cerca de 8 mil metros quadrados. Com isso, a empresa ampliou sua capacidade de produção. No entanto, o investimento foi financiado com empréstimos em dólar e acabou provocando uma das maiores crises da história da companhia.
Em 1982, a forte valorização da moeda norte-americana quadruplicou o valor da dívida da empresa praticamente da noite para o dia. Diante desse cenário, a venda da Stara passou a ser considerada como única saída.
A decisão que salvou a empresa
Foi nesse momento que entrou em cena Franciscus Johannes Stapelbroek, conhecido na região como “Seu Chico”. Filho do fundador da empresa, ele havia deixado a indústria para realizar o sonho de se tornar agricultor.
Chamado pelos irmãos para ajudar no processo de venda, Seu Chico tomou uma decisão que mudaria o rumo da história. Produtor respeitado na região e adepto da filosofia de sempre guardar parte da safra como segurança financeira, decidiu investir suas economias na empresa para evitar que o sonho da família terminasse ali.
Assim, o aporte permitiu que a Stara reorganizasse suas finanças e iniciasse um novo ciclo de crescimento.
Alguns anos depois, outro personagem passaria a marcar a trajetória da companhia: Gilson Trennepohl. De origem humilde, ele chegou a Não-Me-Toque com poucos pertences e o sonho de trabalhar como radialista.
Inicialmente trabalhou como garçom em um restaurante em troca de comida. Foi nesse período que conheceu Susana Stapelbroek, filha de Seu Chico. Os dois se casaram e, posteriormente, Gilson pediu uma oportunidade para trabalhar na empresa da família.
A condição para ingressar na Stara era clara: começaria de baixo e seu crescimento dependeria do desempenho, não do parentesco.
Ele iniciou como demonstrador de máquinas agrícolas, viajando de fazenda em fazenda para apresentar os equipamentos aos produtores. Com o tempo, destacou-se pela habilidade de comunicação e negociação e acabou assumindo a diretoria comercial.
Sob sua atuação, a empresa ampliou a linha de produtos, iniciou exportações e passou a investir em novas tecnologias.
O símbolo do “positivo”
Desde a década de 1980, Gilson Trennepohl passou a adotar o gesto do polegar levantado como forma de transmitir confiança e otimismo dentro da empresa. O símbolo aparecia frequentemente em fotografias e encontros da companhia.

Com o passar dos anos, o gesto ganhou significado dentro da cultura organizacional. Em 2010, durante as comemorações dos 50 anos da Stara, um estudo de marketing indicou a necessidade de um símbolo que representasse a identidade da empresa. Assim, o gesto do “positivo” acabou adotado oficialmente.
Mais do que uma estratégia de comunicação, o símbolo passou a representar a filosofia de acreditar, seguir em frente e enfrentar desafios com confiança.
Hoje, prestes a completar 66 anos de história, a Stara mantém sua matriz em Não-Me-Toque, onde reúne milhares de colaboradores e uma ampla estrutura industrial voltada ao desenvolvimento de máquinas agrícolas. A empresa exporta para 35 países e possui unidades industriais e centros de tecnologia no Brasil e no exterior.
Mesmo com a expansão, a companhia preserva valores ligados à simplicidade e ao relacionamento próximo com produtores rurais e colaboradores. Um exemplo é o bairro planejado criado pela empresa para facilitar o acesso de funcionários à moradia, oferecendo terrenos a preços abaixo do custo.
Dessa forma, a iniciativa reflete um princípio que acompanha a Stara desde sua origem: construir máquinas é importante, mas construir pessoas é essencial para manter viva a cultura e o legado da empresa.