Nova classificação usa até três uvas para avaliar propriedades de Bordeaux, mas critérios e transparência do processo são questionados por profissionais do setor
vinho em vinícola
Foto: Wenderson Araujo/Sistema CNA/Senar

O Guia Michelin começou a dar notas a vinícolas e seus vinhedos, ampliando uma atuação que durante décadas ficou ligada principalmente aos restaurantes. A novidade chegou a Bordeaux, na França, e provocou reação entre profissionais do setor de vinhos, sobretudo por causa dos critérios e da transparência da avaliação.

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A nova classificação de vinícolas usa uvas como símbolo. Uma uva identifica um produtor considerado muito bom; duas indicam um produtor excelente; e três representam o nível mais alto da seleção. Depois de apresentar sua primeira seleção de vinícolas na Borgonha, em julho, o Michelin levou o sistema para Bordeaux. A cerimônia de apresentação ocorreu em 7 de setembro, na Cité du Vin.

Como o Michelin avalia as vinícolas

Para chegar às classificações, o guia considera cinco aspectos: qualidade agronômica, domínio técnico, identidade, equilíbrio e consistência. Além disso, os avaliadores analisam diferentes safras, os vinhedos e as instalações de produção.

A metodologia, porém, não funciona exatamente como a usada nos restaurantes. Nesse caso, os inspetores gastronômicos trabalham de forma anônima. Para avaliar as vinícolas, por outro lado, os especialistas precisam agendar as visitas aos produtores.

A equipe responsável pela seleção reúne profissionais com experiência no setor, como ex-sommeliers, críticos e enólogos. Ainda assim, a metodologia despertou dúvidas entre especialistas.

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O enólogo americano Adam Lee, da Clarice Wine Company, questionou se os avaliadores tiveram tempo e acesso suficientes para analisar as características dos vinhedos de Bordeaux. Ele também criticou a falta de informações mais detalhadas sobre o processo, principalmente diante das diferenças de solo e dos diversos talhões existentes dentro das propriedades.

Bordeaux reúne 83 propriedades na seleção

A seleção de Bordeaux reúne 83 propriedades. Nove receberam três uvas, 16 ficaram com duas e 37 receberam uma. Outras 21 entraram no guia sem receber nenhuma uva.

O número representa apenas uma parcela dos milhares de produtores existentes na região. Segundo o Michelin, a seleção concentra-se nas denominações consideradas mais importantes de Bordeaux.

Entre as áreas avaliadas estão Saint-Estèphe, Pauillac, Saint-Julien, Margaux e Pessac-Léognan, na margem esquerda. Na margem direita, aparecem Pomerol e Saint-Émilion. Já Sauternes e Barsac representam os produtores de vinhos doces.

Por isso, a classificação não deve ser interpretada como uma avaliação de todas as vinícolas de Bordeaux. A própria seleção concentra-se em determinadas denominações e propriedades.

Classificação provoca críticas

A escolha das propriedades também chamou atenção. Château d’Yquem, Château Cheval Blanc e Pétrus receberam três uvas. Já Château Margaux e Château Haut-Brion ficaram com duas. Château Cos-d’Estournel e Château Lynch-Bages receberam uma.

O Château Le Pin também recebeu uma uva, decisão que gerou comentários entre profissionais do vinho. Robin Kelley O’Connor, educadora internacional de vinhos de Bordeaux, questionou a classificação e citou a posição do produtor no mercado e as avaliações recebidas por seus vinhos.

Além disso, outra crítica envolve o fato de o Michelin avaliar a propriedade, e não uma safra ou um vinho específico. Jeff Leve, editor do The Wine Cellar Insider, observou que fatores como clima, decisões tomadas nos vinhedos e escolhas durante a produção podem alterar as características de uma safra para outra.

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Esse ponto ganha peso em Bordeaux porque uma mesma propriedade pode apresentar diferenças relevantes entre safras. Assim, avaliar o conjunto da vinícola cria uma proposta diferente daquela adotada por críticos que analisam garrafas ou safras específicas.

Michelin amplia atuação no setor de vinhos

A nova classificação faz parte da expansão do Guia Michelin para outras áreas. Em 2024, a empresa lançou as Chaves Michelin para classificar hotéis. Agora, o sistema de reconhecimento também alcança propriedades produtoras de vinho.

Apesar das críticas, algumas vinícolas receberam a iniciativa de forma positiva. O Château Troplong Mondot, de Saint-Émilion, por exemplo, divulgou um comunicado comemorando as duas uvas recebidas.

Para Guillaume Jourdan, diretor-geral da consultoria VitaBella, a entrada do Michelin pode ampliar a visibilidade do vinho em um momento de dificuldades para a indústria.

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A novidade, portanto, abre uma nova frente para o guia, mas também coloca sua metodologia sob análise. Enquanto parte do setor vê potencial de divulgação para as propriedades, outros profissionais querem mais detalhes sobre os critérios usados para chegar às classificações.