Resumo da notícia
- Pescadores esportivos do Rio Araguaia iniciaram em 2021 o Projeto PeixAra para estudar e proteger a piraíba, contando com pesquisadores e apoio do ICMBio para monitorar migração e reprodução da espécie.
- Uma piraíba monitorada percorreu ao menos 809 km, com deslocamentos diários de até 60 km, e o projeto ampliou o rastreamento com base fixa e móvel, marcando 190 peixes para identificar áreas de desova.
- Guias de pesca foram capacitados para ajudar na pesquisa, realizando marcações e coleta de DNA, aproximando o conhecimento científico da prática local e ampliando a coleta de dados no rio.
Em janeiro de 2021, pescadores esportivos do Rio Araguaia decidiram agir diante da falta de informações científicas sobre a piraíba (Brachyplatystoma filamentosum) e da necessidade de proteger a espécie. O grupo procurou pesquisadores para estudar os peixes do rio, importantes para o ecossistema e também para o turismo e a renda de milhares de pessoas da região.
Na época, ainda faltavam respostas para perguntas básicas: quais trechos do Araguaia a piraíba percorre? Onde se reproduz? Todos os indivíduos migram? Qual é o tamanho médio dos peixes na bacia?
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Com a participação do biólogo Leandro Silveira, do Instituto Onça Pintada (IOP), e do professor Dilermando Pereira de Lima Júnior, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), os pescadores chegaram à bióloga Lisiane Hahn, especialista em migração de peixes e monitoramento por telemetria. A iniciativa começou como Projeto Piraíba e depois passou a se chamar Projeto PeixAra, ampliando a pesquisa para outras espécies do Araguaia.
Piraíba percorreu ao menos 809 quilômetros
As primeiras atividades de campo começaram em agosto de 2021, com três transmissores e um receptor de radiotelemetria. A pesquisa foi submetida à aprovação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável por autorizar a captura e a marcação dos peixes e avaliar os relatórios técnicos.
Uma das três piraíbas monitoradas percorreu pelo menos 809 quilômetros pelo rio durante o período de funcionamento do transmissor. Desse total, ao menos 310 quilômetros foram nadados rio acima. A distância pode ter sido maior, já que a rede de monitoramento ainda era limitada naquele período.
Hoje, o projeto conta com sete bases fixas de telemetria ao longo de cerca de 500 quilômetros do Araguaia, entre Ribeirãozinho (MT) e Nova Crixás (GO). O rastreamento móvel feito de barco cobre mais de 700 quilômetros de rio.
Com a ampliação das pesquisas, apoiada em 2024 por um acordo entre o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e a UFMT, o número de peixes marcados com radiotransmissores passou de 20 para 190. Entre os resultados estão deslocamentos de até 890 quilômetros, registros de peixes que percorreram mais de 60 quilômetros em um dia e a identificação de possíveis áreas de desova da piraíba.
Guias de pesca também ajudam na pesquisa
Além do monitoramento, o Projeto PeixAra capacita guias de pesca em boas práticas para manusear e soltar os peixes com mais segurança. O primeiro curso ocorreu em dezembro de 2022, em Cocalinho (MT); depois, houve atividades em Aruanã e Aragarças (GO) e Santa Terezinha (MT).

Dez guias capacitados passaram a colaborar com a iniciativa. Eles podem colocar marcas de identificação nas piraíbas capturadas por seus clientes e coletar pequenos fragmentos de nadadeira para análises de DNA. A participação aproxima a pesquisa da experiência de quem trabalha diariamente no rio e amplia a coleta de informações em campo.
O projeto também acompanha a sobrevivência de tucunarés, bargadas e cacharas capturados e soltos com as práticas recomendadas. Os dados ainda estão em análise.
Registros apontam queda no tamanho médio
A colaboração dos pescadores permitiu comparar o tamanho das piraíbas em dois períodos. A análise reuniu registros de 239 exemplares: dados de pescadores esportivos de 2012 e 2013 e informações coletadas por guias e pesquisadores entre 2021 e 2024.
Os peixes mediam de 80 a 224 centímetros. No primeiro período, o comprimento médio foi de 156,61 centímetros. Entre 2021 e 2024, caiu para 128,44 centímetros — uma redução de aproximadamente 28 centímetros. Segundo o estudo, a diferença foi estatisticamente significativa.
O resultado não permite, por si só, concluir que a espécie esteja “quase extinta”, mas indica uma mudança importante entre os exemplares registrados e reforça a necessidade de acompanhar a população ao longo do tempo. Também mostra o valor dos dados reunidos por pescadores antes mesmo da criação do projeto.

A piraíba é considerada o maior peixe de couro de água doce das Américas e pode ultrapassar dois metros de comprimento e 200 quilos. O PeixAra pesquisa seus deslocamentos e possíveis áreas de reprodução para produzir informações que ajudem a orientar a conservação e o manejo da espécie.
As pesquisas são desenvolvidas com a UFMT, no campus de Pontal do Araguaia, e incluem parcerias com universidades, pesquisadores e órgãos ambientais de Goiás. O projeto também divulga resultados no perfil @projetopeixara.
Ao reunir pesquisadores, pescadores, guias, universidades, empresas e poder público, a iniciativa transforma observações feitas no Araguaia em dados científicos. Esse conhecimento pode ajudar a proteger os peixes e a manter uma atividade que sustenta comunidades e movimenta o turismo na região.