Estudos da Unesp, Embrapa e QueenNut mostram que Serratia ureilytica e Bacillus subtilis reduzem incidência de queima dos racemos e podridão do tronco
Foto: Leonardo Moriya/Embrapa

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da empresa QueenNut identificaram duas bactérias com alto potencial para o controle biológico de doenças da macadâmia: Serratia ureilytica e Bacillus subtilis. Os resultados, obtidos em estudos conduzidos no âmbito de doutorado e em experimentos em casa de vegetação, indicam que esses microrganismos, presentes naturalmente na própria cultura, podem reduzir significativamente os danos causados pela queima dos racemos e pela podridão do tronco, duas das doenças mais prejudiciais à produção brasileira de macadâmia.

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Planta da macadãmia. Foto: Jeanne Scardini Marinho-Prado/Embrapa

A pesquisa avança agora para o desenvolvimento de formulações de bioinsumos à base desses microrganismos, com potencial de uso em programas de manejo integrado.

Controle biológico contra a queima dos racemos

Um dos estudos, parte da tese de doutorado de Marcos Abreu (Unesp), sob orientação do pesquisador Bernardo Halfeld (Embrapa Meio Ambiente), focou na queima dos racemos, doença causada pelo fungo Cladosporium xanthochromaticum que afeta diretamente as estruturas florais da macadâmia e compromete a formação dos frutos.

A equipe isolou 104 cepas bacterianas a partir das flores da planta e avaliou a capacidade de cada uma de inibir o desenvolvimento do fungo. Entre os isolados mais promissores, Serratia ureilytica e Bacillus subtilis se destacaram pela capacidade de reduzir tanto a incidência da doença nas flores quanto a esporulação do patógeno.

Controlar a produção de esporos é estratégico: menos esporos significa menor disseminação da doença dentro do pomar e menos risco de novas infecções. Os pesquisadores observaram que o efeito protetor ocorre por múltiplos mecanismos simultâneos, produção de compostos antifúngicos voláteis e não voláteis, além de competição direta por nutrientes com o fungo.

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O fato de as bactérias serem nativas da própria cultura é apontado como uma vantagem importante. Já adaptadas aos órgãos da macadâmia, elas tendem a sobreviver e atuar melhor em condições reais de campo do que agentes externos.

“Trata-se de uma abordagem bastante promissora porque utiliza microrganismos naturalmente presentes na planta como ferramenta de proteção da própria cultura”, destaca Abreu.

Os testes indicaram ainda compatibilidade da maioria das bactérias com defensivos agrícolas usados na cultura, o que facilita a integração em programas de manejo. A única restrição encontrada foi para o cobre: Serratia ureilytica apresentou sensibilidade ao produto.

Bacillus reduz severidade da podridão do tronco

O segundo estudo concentrou-se na podridão do tronco, doença causada pelo fungo Lasiodiplodia pseudotheobromae. Considerada uma das mais graves que afetam a macadâmia, ela provoca lesões em tecidos lenhosos, morte de ramos e, nos casos mais severos, a perda completa da planta, incluindo mudas jovens com caule de pequeno diâmetro.

Sintomas de podridão de tronco em plantas inoculadas com Lasiodiplodia pseudotheobromae. Foto: Bernardo Halfeld-Vieira

Os experimentos utilizaram mudas enxertadas com diferentes combinações de copa e porta-enxerto, com o objetivo de entender como as bactérias interagem com materiais vegetais de distintos níveis de resistência genética. Espécies como Bacillus velezensis e Bacillus subtilis reduziram significativamente a severidade das lesões por meio da produção de metabólitos antifúngicos.

Um dado relevante foi que a combinação entre cultivar e porta-enxerto influencia diretamente os níveis de suscetibilidade à doença e a eficácia do controle biológico. Algumas combinações apresentaram menor severidade da podridão do tronco. O que aponta caminhos tanto para a seleção de materiais genéticos mais resistentes quanto para estratégias de biocontrole mais efetivas.

“Os resultados reforçam a importância de estratégias integradas de manejo, que associem controle biológico, escolha adequada de materiais genéticos e boas práticas agronômicas”, afirma Luana Melo, pesquisadora da Unesp envolvida no estudo.

Outro diferencial deste trabalho é que o potencial de controle biológico se confirmou em plantas,não apenas em laboratório. Ensaios em casa de vegetação com mudas enxertadas aproximam os resultados das condições reais de produção.

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O marco: controle em diferentes órgãos da planta

A análise conjunta dos dois estudos representa um avanço inédito para a macadamicultura brasileira. Pela primeira vez, pesquisadores demonstraram de forma consistente o potencial do controle biológico contra doenças que afetam tanto as estruturas florais quanto o caule da planta.

Racemo de macadâmia com Cladosporium xanthochromaticum. Foto: Bernardo Halfeld-Vieira/Embrapa

“Os resultados mostram que microrganismos naturalmente associados à cultura são capazes de reduzir os danos causados por doenças importantes. E contribuir para um sistema de produção mais profícuo, resiliente e sustentável”, diz Halfeld.

Os estudos têm origem num levantamento iniciado em 2018 e divulgado pela Embrapa em 2024, que mapeou pela primeira vez as principais doenças presentes em plantios comerciais de macadâmia na principal região produtora do país. Esse diagnóstico abriu caminho para a busca de soluções de manejo mais sustentáveis, alinhadas à crescente exigência de mercados consumidores por produtos com menor uso de agroquímicos.

Próximos passos: formulação e viabilidade econômica

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores reconhecem que há etapas importantes antes da adoção comercial em larga escala. O desenvolvimento de formulações estáveis com os bioinsumos e a avaliação da viabilidade econômica da solução estão entre os desafios a vencer.

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“A tendência é que o manejo de doenças evolua para abordagens integradas, combinando biologia, genética e práticas agronômicas. O controle biológico tem potencial para ocupar papel central nesse processo”, conclui Halfeld.

Para a cadeia produtiva da macadâmia, que vem ganhando espaço no mercado brasileiro, os avanços sinalizam possibilidades concretas de aumentar produtividade, reduzir impactos ambientais e fortalecer a competitividade da cultura no país.