Sorgo avança no campo brasileiro, ganha mercado na China e pode colocar o país pela primeira vez na liderança mundial da produção
Plantação de sorgo no Brasil, grão resistente à seca que pode levar o país à liderança mundial da produção
Foto: Embrapa - Sandra Brito

O Brasil está perto de tomar dos Estados Unidos a liderança mundial na produção de um grão que ganha espaço justamente por suportar melhor seca, calor e períodos mais curtos para o plantio.

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O protagonista dessa mudança é o sorgo.

Projeções para a próxima temporada apontam que a produção brasileira pode alcançar 8 milhões de toneladas, enquanto os Estados Unidos ficariam próximos de 7,3 milhões de toneladas. Caso os volumes se confirmem, o Brasil poderá assumir pela primeira vez a liderança mundial da cultura.

A diferença seria de aproximadamente 700 mil toneladas.

Cálculo do Agro em Campo, realizado a partir dessas projeções, mostra que o Brasil produziria aproximadamente 9,6% mais sorgo que os Estados Unidos.

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A possível virada não acontece de forma isolada. O sorgo já registra forte expansão no campo brasileiro e começa a encontrar novos destinos para a produção.

Além da alimentação animal, o cereal ganha espaço na fabricação de etanol e abriu uma nova frente de exportação com a entrada no mercado chinês.

Brasil acrescentou 1,25 milhão de toneladas em uma safra

Lavoura de sorgo, grão resistente à seca que ganha área e produção no Brasil
Foto: Embrapa – Cláudio Lucas Capeche

Os números oficiais ajudam a dimensionar a velocidade dessa transformação.

A produção brasileira de sorgo alcançou 7,35 milhões de toneladas na safra 2025/26, crescimento de 20,4% em relação ao ciclo anterior, segundo o 12º Levantamento da Safra de Grãos da Conab.

A expansão ocorreu principalmente pela incorporação de novas áreas. O país cultivou aproximadamente 2,17 milhões de hectares, avanço de 32,9%, equivalente a cerca de 537 mil novos hectares em apenas uma temporada.

Cálculo do Agro em Campo, com base nos dados da Conab, mostra que o Brasil produziu aproximadamente 6,10 milhões de toneladas na temporada anterior.

Isso significa que, em apenas uma safra, o campo brasileiro acrescentou aproximadamente 1,25 milhão de toneladas de sorgo à produção nacional.

Outro cálculo ajuda a entender o movimento. Ao relacionar produção e área informadas pela Conab, a produtividade média implícita da safra ficou próxima de 3,39 toneladas por hectare.

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Os números mostram ainda que a área cresceu mais que a produção. Enquanto o território destinado à cultura avançou 32,9%, a produção aumentou 20,4%.

Portanto, a expansão recente não ocorreu apenas por ganhos de rendimento. O sorgo está efetivamente ocupando mais espaço no campo brasileiro.

Por que o sorgo ganha espaço no campo

Detalhe das panículas de sorgo, cereal que ganha espaço no campo brasileiro e pode superar os Estados Unidos em produção.
Foto: Embrapa – Sandra Brito

Parte da explicação está nas características da própria cultura.

O sorgo apresenta boa adaptação a condições de deficiência hídrica e pode enfrentar situações nas quais outras culturas encontram maior risco produtivo.

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Essa característica aumenta sua importância principalmente na segunda safra.

Quando o plantio da soja atrasa, por exemplo, o produtor também perde parte da janela considerada ideal para semear o milho safrinha.

Nesse cenário, o sorgo pode surgir como alternativa. A cultura apresenta ciclo adaptável às condições da segunda safra e maior tolerância ao estresse hídrico.

Essa característica ganha importância em regiões nas quais o produtor precisa administrar simultaneamente calendário, disponibilidade de chuva e risco econômico.

O avanço da área cultivada mostra que essa decisão já começa a aparecer de maneira concreta nas lavouras.

Goiás concentra parte da expansão

Plantação de sorgo no Brasil, que pode superar os Estados Unidos na produção mundial
Foto: Embrapa – Sandra Brito

O crescimento também apresenta forte concentração regional.

Goiás se consolidou como principal estado produtor de sorgo do país e tem papel decisivo na expansão recente da cultura.

A proximidade com grandes regiões produtoras de grãos e com cadeias consumidoras de ração favorece o cereal. Ao mesmo tempo, novas usinas de etanol de cereais ampliam as possibilidades de comercialização.

Assim, o sorgo passa a disputar espaço dentro de um sistema agrícola que durante anos concentrou grande parte da segunda safra no milho.

Isso não significa uma substituição generalizada.

Porém, em determinadas regiões e condições de plantio, o produtor passa a ter uma alternativa adicional para decidir como ocupar a área depois da soja.

China pode mudar o tamanho do mercado

Outro fator pode acelerar essa expansão: a China.

O Brasil abriu o mercado chinês para o sorgo e realizou os primeiros embarques do cereal para o país asiático, criando uma nova possibilidade para os produtores nacionais.

A importância desse movimento está no tamanho da demanda.

A China é o principal comprador internacional de sorgo e utiliza grande parte do cereal importado na alimentação animal. O país também representa um mercado estratégico para diversas commodities agrícolas brasileiras.

A entrada nesse mercado muda a perspectiva para o sorgo nacional.

Até então, o crescimento da cultura brasileira estava fortemente associado ao consumo doméstico. Com a exportação, surge uma nova fonte de demanda capaz de aumentar a competição pelo grão.

Ao mesmo tempo, o Brasil passa a disputar um mercado historicamente importante para os produtores norte-americanos.

Etanol cria nova demanda pelo sorgo

O crescimento não depende apenas das exportações.

As usinas brasileiras de etanol de cereais também começam a ampliar o mercado potencial para o sorgo.

O cereal pode entrar como matéria-prima na produção do biocombustível, principalmente em regiões onde existe oferta próxima às unidades industriais.

Esse movimento acrescenta outro destino relevante à produção.

Assim, o sorgo passa a encontrar demanda em pelo menos três grandes frentes: alimentação animal, produção de etanol e exportação.

Essa diversificação ajuda a explicar por que uma cultura historicamente menos relevante que soja e milho começa a atrair mais atenção do produtor.

Brasil ainda precisa confirmar a ultrapassagem dos EUA

Apesar do avanço, a liderança mundial ainda deve ser tratada como projeção, e não como resultado consolidado.

Área efetivamente plantada, produtividade, clima e revisões das estimativas podem alterar os volumes de Brasil e Estados Unidos ao longo da temporada.

Também existem diferenças de calendário e metodologia entre instituições brasileiras e internacionais.

Por isso, os 8 milhões de toneladas não devem ser tratados como produção já alcançada.

Ainda assim, a trajetória brasileira ajuda a dimensionar a transformação.

O país acaba de produzir 7,35 milhões de toneladas e adicionou, segundo cálculo do Agro em Campo a partir dos dados da Conab, aproximadamente 1,25 milhão de toneladas em apenas uma safra.

Agora, a barreira dos 8 milhões colocaria o Brasil em condições de ultrapassar os Estados Unidos.

Se isso ocorrer, o país acrescentará mais uma cultura à lista de mercados agrícolas nos quais ocupa posição de liderança global, desta vez com um cereal cuja resistência à falta de água pode ganhar ainda mais importância diante da irregularidade climática.

Metodologia

Os cálculos do Agro em Campo usam dados da Conab e projeções para Brasil e Estados Unidos. A apuração considera produção, área cultivada e variação entre as safras para calcular crescimento, produtividade média e a possível vantagem brasileira sobre os norte-americanos.